Quadrinhos HQ autobiográfica resgata memórias de autora sobre lar disfuncional Um dos melhores trabalhos do gênero, Fun Home, de Alison Bechdel, ganha nova edição no Brasil mais de dez anos após lançamento original

Por: Breno Pessoa

Publicado em: 24/09/2018 08:50 Atualizado em: 24/09/2018 09:21

Autora cresceu em uma casa que funcionava como empreendimento funerário. Imagem: Todavia/Divulgação
Autora cresceu em uma casa que funcionava como empreendimento funerário. Imagem: Todavia/Divulgação

Às vezes, contar para alguém a sua história é uma boa maneira de exorcizar angústias interiores. A quadrinista norte-americana Alison Bechdel tem na sua obra mais conhecida, Fun Home: Uma tragicomédia em família (Todavia, 240 páginas, R$ 54,90), justamente esse caráter de confissão que parece buscar conciliação com incômodos do passado. Publicado no Brasil pela primeira vez em 2007 e há anos esgotado, o título retornou neste mês às livrarias.

Um dos mais expressivos trabalhos autobiográficos dos quadrinhos, Fun Home é uma obra que alcança raro equilíbrio entre imagem e texto. Com arte monocromática, simples mas expressiva, Bechdel dá forma a passagens da infância e juventude, com atenção especial à relação conturbada com o pai, Bruce, um homem sisudo, controlador e obsessivo com a decoração do lar, um antigo casarão constantemente em reforma e que ganhava sempre novos artefatos e móveis. Se o título poderia ser traduzido, literalmente, como "casa divertida", é, na verdade, uma abreviação de funeral home ("casa funerária", em português). Essa ironia já presente na capa, reforçada pelo subtítulo, sintetiza bem as oscilações entre o humor e drama contidas nas páginas da HQ, embora, no todo, o livro penda mais para o melancólico.

O empreendimento funerário, aliás, era a fonte de sustento do pai de Bechdel, que trabalhava com o preparo e maquiagem de corpos, além de organizar velórios. O acontecimento-chave da narrativa é o aparente suicídio do pai da autora, que morreu atropelado por um caminhão, poucas semanas após ela revelar para ele e sua mãe, por uma carta, que era lésbica. E, algum tempo depois do incidente, ela acaba por descobrir que Bruce havia se relacionado com outros homens ao longo da vida. O segredo acaba por revelar uma grande contradição na postura sexista que o pai dela teve ao longo dos anos. Em suas memórias da infância, Bechdel recorda os momentos em que Bruce demonstrava uma masculinidade tóxica, obrigando a garota a ter atitudes ditas mais femininas, seja nas roupas ou nas brincadeiras com outras crianças.

Fun Home é uma obra com uma grande seara de temas, da descoberta da homossexualidade ao empoderamento feminino e tocando também na complexidade de laços familiares. Sincera e intensa, a HQ é um belo trabalho de resgate das próprias memórias, feita com apuro literário e sensibilidade. A autora recebeu, em 2007, o Prêmio Eisner, maior premiação dos quadrinhos norte-americanos, e a obra foi eleita também como o livro do ano de 2006 pela revista Time, concorrendo com produções de todos os gêneros e não apenas entre HQs.

E SUA MÃE TAMBÉM
Após revisitar a relação com o pai em Fun Home, a autora fez uma imersão em outro relacionamento, o materno. Em Você é minha mãe? Um drama em quadrinhos (Quadrinhos na Cia, 304 páginas, R$ 64,90), Bechdel analisa o também difícil contato com sua mãe, que se via presa em um casamento infeliz e mantinha contato frio com a filha. Mais denso do que Fun Home, Você é minha mãe? mantém o estilo econômico da arte de Bechdel e texto bem cuidado, embora com maior aprofundamento nas questões psicológicas da autora. Além de narrar consultas de psicanálise, a quadrinista inclui várias passagens sobre a vida e obra do psicanalista Donald Winnicott. A constante tentativa de racionalizar os acontecimentos pessoais tornam a leitura menos fluida. Ainda assim, essa espécie de continuação é um trabalho também interessante, menos taciturno do que o antecessor e mais bem-sucedido na tarefa de reconciliação com o próprio passado.
Crédito: Chase Elliott Clark/Divulgação
Crédito: Chase Elliott Clark/Divulgação

+ O Teste de Bechdel
Talvez não tão conhecida do grande público, a autora tem, além dos quadrinhos, uma outra contribuição para as artes. O conhecido Teste de Bechdel, criado para avaliar a representação feminina em filmes, tem esse nome em homenagem a ela, que sugere, em uma HQ da série Dykes to watch out for, uma série de requisitos mínimos para a presença de mulheres em obras cinematográficas. Na HQ, intitulada A regra, duas personagens conversam e uma delas diz que só aceita ir ver um filme se satisfazer três requisitos básicos: ter pelo menos duas mulheres em tela, que elas conversem entre si e que esse diálogo seja sobre qualquer outra coisa que não um homem. Por sua vez, a quadrinista diz que a ideia para a história veio de uma amiga chamada Liz Wallace, que, segundo Bechdel, teria sido inspirada pelo ensaio Um teto todo seu, de Virginia Woolf. Hoje o teste não tem aplicação apenas no cinema, sendo adotado também para outras mídias.

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