Literatura Romance aborda um Rio de Janeiro distópico de forma realista, crítica e com humor Mensageira da Sorte é a estreia da carioca Fernanda Nia

Por: Breno Pessoa

Publicado em: 17/09/2018 11:21 Atualizado em: 17/09/2018 09:55

A escrita de Nia é bastante agradável e fluída. Foto: Plataforma 21/Divulgação
A escrita de Nia é bastante agradável e fluída. Foto: Plataforma 21/Divulgação

Corporações corruptas, descrença com a política e manifestações sociais que terminam em pancadaria, com manifestantes atacados com cassetetes e balas de borracha. Poderia facilmente ser uma descrição sobre o Brasil real, mas faz parte da ambientação de Mensageira da sorte (Plataforma 21, 424 páginas, R$ 39,90), romance de estreia da carioca Fernanda Nia, que mostra um Rio de Janeiro distópico, mas com um pé na realidade e boa dose de críticas sobre o cenário do país na atualidade.

O pano de fundo um tanto sombrio parece contrastar tons suaves e grafismos delicados da capa do livro, mas esse aspecto agridoce é presente ao longo de toda a obra. Eficiente obra do gênero young adult, o romance aborda temáticas mais sérias com desenvoltura, ao mesmo tempo em que traz tópicos menos densos e questões juvenis. A história é protagonizada por uma jovem de 17 anos chamada Sam, que de maneira inesperada é recrutada para trabalhar no Departamento de Correção de Sorte, uma organização extranatural responsável por nivelar o azar na vida das pessoas.

A entidade secreta atua a partir de mensageiros como a garota, que ficam responsáveis por trazer um pouco de sorte para indivíduos que têm azar demais. E a primeira pessoa que Sam tem que enviar presságios de sorte é o vizinho Leandro, um ativista bastante engajado nos protestos contra a corrupção da AlCorp, grande corporação que controla serviços essenciais, como eletricidade, transporte e saneamento, além de monopolizar o mercado de medicamentos e alimentos básicos.

A protagonista é muito bem construída, com desenvolvimento evidente ao longo do livro. Bastante crível, Sam, além de aspectos cativantes da personalidade, como o senso de humor e perspicácia, tem inseguranças, remorsos e eventuais ataques de pânico, traumas relacionados com a morte precoce do seu pai. Uma personagem interessante e longe de ser um tipo idealizado.
O Departamento de Correção da Sorte é uma ideia divertida e remete, de alguma maneira, conceitos vistos em O fim da eternidade (Aleph, 256 páginas, R$ 42,90), de Isaac Asimov, que tem uma organização responsável por mudar o curso da vida de alguns indivíduos a partir da manipulação da realidade. Embora por vias distintas, ambos os livros trazem questionamentos sobre livre-arbítrio e acaso.

A escrita de Nia também é bastante agradável e fluída. Há um bom número de referências pop, que vão de menções a personagens da Marvel ao universo de Harry Potter. O humor funciona bem, salvo em alguns momentos pontuais, quando as piadas feitas pela protagonista surgem com muita frequência ou soam excessivamente contemporâneas, talvez tornando o livro um pouco datado nesse aspecto. A autora também consegue fazer comentários pertinentes sobre o momento caótico do país sem deixar o texto carregado. É um raro caso de entretenimento que concilia bem a crítica social. Uma estreia promissora.
 
“O meu livro está se tornando não ficção”, diz autora 
 
“Gosto de dizer que os acontecimentos foram inspirados na minha história”, comenta Fernanda Nia sobre o recrudescimento contra manifestações sociais e a violência que atinge a população do Rio de Janeiro. “O meu livro está se tornando não ficção, a gente está vendo as coisas acontecendo aí”, observa a autora, explicando que a onda de protestos no Brasil, a partir de 2013, serviu como fonte de inspiração para o livro, que começou a ser escrito em 2015 e ficou pronto em 2017.

“Morar no Rio é um prato cheio de conflitos para trabalhar uma história”, acrescenta a carioca, que diz gostar de realismo fantástico e fantasia urbana. “Sentia a falta de ter algo mais próximo, algo brasileiro”, explica, sobre a ideia de trazer a trama para o Rio de Janeiro e construí-la com bastante brasilidade.

Mais conhecida pelo trabalho como quadrinista na série Como eu realmente, disponibilizada no site de mesmo nome e também publicada pela editora Nemo, a autora acredita que o trabalho com HQs facilitou no desenvolvimento de um romance. “Talvez a parte de quadrinhos me influencie, porque tenho um pensamento muito visual. Acho que, na descrição das cenas, eu consigo colocar melhor as ações e os enquadramentos por causa desse meu background”, afirma.

Além inevitavelmente trazer ecos da literatura fantástica e de ficção científica em sua obra, a autora cita referências menos óbvias, como Machado de Assis. “Adoro o Machadão”, brinca Nia, que considera importante ler publicações de vários gêneros. “Às vezes pego algo que sei que não vou gostar, mas tenho que ler, porque você precisa pensar de várias formas diferentes para ser um autor completo".



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