Cinema Festival de Brasília: Filme Luna, de Cris Azzi, expõe mau uso da internet Longa mostra como Luana fica estonteada, diante da intimidade exposta na internet, e trata de um processo de transformação, lento, que avança pela construção geracional

Por: Ricardo Daehn - Correio Braziliense

Publicado em: 17/09/2018 10:31 Atualizado em: 17/09/2018 09:50

Cena do filme Luna, de Cris Azzi. Foto: Gustavo Baxter/Divulgação
Cena do filme Luna, de Cris Azzi. Foto: Gustavo Baxter/Divulgação

De um lado as atrizes Eduarda Fernandes e Ana Clara Ligeiro, estudantes de teatro com enorme disponibilidade para a estreia no cinema, com o filme Luna; do outro lado, o diretor Cris Azzi, no primeiro filme solo de ficção, tateando formas de ressignificar relações entre homens e mulheres. Intermediando o encontro, o despontar de uma sensibilidade masculina. Azzi se pegou um dia chorando, diante da notícia do suicídio de uma jovem brasileira. Chorar, assumidamente, integra a gama de sentimentos do canceriano de 40 anos que enfatiza: “me emocionar faz parte da minha existência”.

Luna mostra como Luana (Eduarda Fernandes) fica estonteada, diante da intimidade exposta na internet, e trata de um processo de transformação, lento, que avança pela construção geracional. O próprio diretor conta ter mudado bastante, com todo o processo. “Acho que não sigo postura estratégica na minha carreira. Na verdade, fujo da coerência: tenho filme sobre futebol e usina hidrelétrica. Para um filme, sou tomado por uma paixão — por um interesse — vou lá, e faço”, conta o diretor mineiro.

Grosso modo, Azzi pensava que no filme, orçado em R$ 1,15 milhão e contemplado pelo edital Filme em Minas, se arriscaria na representação de uma geração completamente diferente da dele. Ledo engano. O diretor se diz afinado, numa revisão, com a fase de descobertas e fragilidades das personagens. Apesar da própria adolescência não contemplar a palavra bullying, ele lembra ter atravessado momentos existenciais e paixões, sob manto de “grande nuvem negra, sem solução, antes de ter a maturidade para lidar com adversidades”.

Apesar de a liberdade para navegar em orientações sexuais e em identidades de gênero distintos de tudo que ele viveu, e mesmo com a hiperconectividade de relações muito mediadas a partir de redes sociais, o diretor não se viu excluído no desenvolvimento do roteiro, em relação à nova realidade de jovens. “Os homens mostrados no filme têm uma característica errante em relação a condutas, intencionalmente. Acho até que sou machista, pela bagagem cultural, pela forma como fui educado”, destaca, para complementar da necessidade de modificação e do “caminho tortuoso” de entendimento dos novos conceitos.

Numa metáfora — delineada por uma amiga do diretor —, o amor demonstrado no filme seria um vagão que andaria sob linha de ferro representada por condição imposta às mulheres. A implosão dos trilhos está entre as propostas do cineasta. Uma consequência radical está prometida desde já para os destinos das solitárias Luana e Emília que trazem em si aspectos da incomunicabilidade entre pais e filhos. “Há um encontro de amor que não é prioritariamente sexual. Um encontro com o outro e que é transformado em potência. Acho que sentimentos que predominam em Luna são o de descoberta e de coragem”, observa o cineasta que foi assistente de direção de Karim Aïnouz (Praia do Futuro), “mais artista do que cineasta”, pelo que avalia.

Elaboração em conjunto
No filme que compete no Festival de Brasília, atrizes não seguiram um roteiro com frases demarcadas e escritas. Ensaios e reposições de frases formularam o processo construção. "Pelo retrato da geração, elas só falaram coisas que se sentissem confortáveis e não cederam em ir contra ideologias”, explica. Pesou o trabalho de grupo. “Tudo foi ampliado, e ficou viva a dinâmica, a partir de atritos e de confrontos de realidades”, explica o realizador. Abandono, assédio e violência figuraram em pesquisa com arte-educadora e meninas que deram base para a obra de ficção.

“Vi uma geração que faz menos concessões da permissividade do masculino com o feminino. Acho que a busca atual da sociedade diz menos respeito aos homens. Elas devem ser respeitadas dentro da própria essência. Se trata menos de um determinado homem ser assim ou assado. Percebo, sim, uma equidade e um respeito às características do gênero feminino. Tudo traz uma promessa de lugar menos submisso, num caminho sem volta”, analisa o diretor.

Feito em parceria com a produtora sul-africana Urucu, o longa Luna chega ao festival com distribuição assegurada e uma curiosidade: na montagem, Azzi contou com Matthew Swanepoel, profissional de peso que editou o longa Os iniciados, título que ficou entre os nove finalistas na lista do Oscar de melhor filme estrangeiro. Nos bastidores, as escolhas do diretor foram incisivas e trouxeram para o set o diretor de fotografia Luis Abramo (A luneta do tempo) e a diretora de arte Maíra Mesquita (Boi neon). “Fiz um filme cromático, atento à marcação de luz. Não quisemos tirar a luz, uma coisa que, por sinal, é muito comum hoje em dia”, explica o diretor.

A trama de Luna, transcorrida no último ano escolar, em momento de transição das moças, conta com o elemento da “presença da ausência”, como demarca o diretor, ao falar do pai de Luana. “Ela só tem a mãe Beatriz, que é interpretada por Lira Ribas (atriz premiada em Brasília, há dois anos, pelo curta Estado itinerante); e há ainda um personagem importante feito pelo Paulo André, do grupo Galpão”, comenta o cineasta. Com produção musical de Guto Borges, tem obras de Léo Marques e de Barulhista, na trilha sonora.



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