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Músicas de protesto reacendem em momento político sensível

Protestar por meio de músicas, ato impulsionado durante a ditadura militar, continua a ser recurso aproveitado por artistas com intenção de promover reflexão

Embalados pela possiblidade de abertura política após 20 anos de ditadura militar, compositores do início dos anos 1980 usavam letras de canções — especialmente de pop rock — para expressar as ideias que eram de toda uma geração. A sociedade brasileira como um todo cantava contra o cenário de instabilidade política gerada pela ditadura instaurada em 1964. Bandas como Legião Urbana, com a canção Que país é este (1987); Plebe Rube, com a faixa Até quando esperar (1985); e Titãs, com as músicas do álbum Cabeça dinossauro (1986), conseguiram verbalizar muitos dos pensamentos da sociedade.

Que país é este, escrita por Renato Russo em 1978, mas registrada em 1987, foi um dos principais hinos do período. A canção simboliza o protesto e a indignação do povo, em um momento em que o país vivia um momento complexo.

"Naquele tempo, nossa música conseguiu contextualizar a indignação de muitos brasileiros por tudo que estava acontecendo na sociedade, que era resultado de uma política suja. Quando tocamos Que país é este, atualmente, consigo perceber que a reação das pessoas ao ouvirem a canção é muito semelhante ao público daquele tempo", conta o baterista Marcelo Bonfá, da formação original da Legião Urbana.

O rock então, passou a ser um dos grandes responsáveis por dar voz ao público e por representar muitas vezes os sentimentos e indagações. Um dos álbuns que levantou esses pontos foi Cabeça dinossauro, dos Titãs.

"A crítica social, ou a rebel music, como também é chamada, vem de longa data da música e sempre esteve ligada a essa tradição de se manifestar. No caso dos Titãs, ainda em 1986, tivemos o álbum Cabeça dinossauro, que abordava essas questões e promovia reflexões", explica o guitarrista do Titãs, Tony Beloto.

Três décadas depois de um dos grandes ápices do rock nacional, as sementes plantadas ainda nos 1980 e 1990 dão frutos, e, desta vez, abrangendo muitos outros gêneros. Pelo rock, bandas como Capital Inicial voltam a ser reconhecidas pelas críticas que trazem em muitas letras, de canções, como Saquear Brasília e Tudo vai mudar. Para o vocalista Dinho Ouro Preto, trabalhos com um teor crítico são de extrema importância para promover pensamentos de mudanças na sociedade.

"O artista não aponta uma direção, mas consegue trazer reflexões a partir da verbalização de muitas situações que nós vivemos. Muitos não sentem e não têm coragem de falar e de se posicionar e isso sempre foi uma das coisas que o Capital Inicial prezou. Existem três pontos que nos caracterizam quando falamos dessas abordagens de protesto: o primeiro é a nossa introspecção, em observar tudo ao nosso redor, o que nos motiva a escrever. O segundo é a independência sobre os temas. E o terceiro é a política, um assunto que nos afeta todos os dias", conta Dinho Ouro Preto.

Crítica social
Não só o rock, mas a MPB e o rap também foram responsáveis por promover críticas à sociedade: de comportamento e atitudes, passando pela negligência com as classes sociais mais vulneráveis. Ao longo dos anos, músicos como Ney Matogrosso e Racionais MCs trouxeram temas como esses.

“Não só a política foi evidenciada nas músicas, mas o bom senso e a atitude de muitas pessoas também. Posso citar, por exemplo, uma das canções que já interpretei, Rua da passagem, que fala justamente sobre a gentileza, que é fundamental para todos nós, principalmente nos dias de hoje”, conta Ney Matogrosso, referindo-se à canção de Lenine e Arnaldo Antunes registrada por ele no disco Atento aos sinais, de 2013.

Esta não foi a primeira vez que Ney emprestou sua voz a questões políticas. Pelo contrário, saído do grupo politizado Secos & Molhados, o cantor gravou músicas como Rosa de Hiroshima (Vinicius de Moraes) e Por debaixo dos panos (Cecéu)

Nas periferias
O grupo de rap paulista Racionais MCs, comandado por Mano Brown, Edi Rock e Ice Blue e o DJ KL Jay trouxe muitas críticas à falta de políticas públicas nas periferias, para os negros e pobres, conquistando a admiração dentro e fora do Brasil para o grupo, com álbuns como Sobrevivendo no inferno (1997) e Nada como um dia após o outro (2002).

Ainda no rap, dois músicos vêm se destacando por trabalhos críticos à política: Emicida e Projota. Na canção, Mandume, lançada em maio deste ano, Emicida contextualiza a história de um angolano para falar sobre a força que as pessoas devem ter. Além disso, o poeta fala sobre a necessidade de dar voz aos menos favorecidos e critica a elite.

Já Projota lançou, recentemente, a canção Sr. Presidente. A música pode ser considerada uma carta aos governantes, em que o rapper questiona o atual momento da política brasileira e fala sobre a desesperança do povo com as eleições.

"O rap, de forma intermitente, traz à tona essas questões. Isso exatamente porque o cenário de hoje apenas deixa mais evidente os problemas enfrentados pela sociedade. Mas esses problemas já estão aí há décadas, e, especialmente para quem vem das periferias. Enfrentar tais problemas se torna algo corriqueiro, que faz parte do dia a dia. Por conta disso, transformar a vida real em arte e protesto se torna algo natural para os artistas oriundos do hip-hop”, ressalta Projota.

Trechos
“Não só a política foi evidenciada nas músicas, mas o bom senso e a atitude de muitas pessoas também” - Ney Matogrosso, cantor.
“O artista não aponta uma direção, mas consegue trazer reflexões, a partir da verbalização de muitas situações que nós vivemos” - Dinho Ouro Preto, vocalista do Capital Inicial.
“O rap traz à tona essas questões. Isso exatamente porque o cenário de hoje apenas deixa mais evidente os problemas enfrentados pela sociedade” - Projota, rapper.

TRECHOS DE CANÇÕES
Sr. Presidente, esse país tá doente
Nosso povo já não aguenta mais
Sr. Presidente, como você se sente
Ao ver a fila dos nossos hospitais?
Sr. Presidente, até queria que a gente
Se entendesse, mas não sei como faz
Porque essa noite se foi mais um menino ali na rua de trás”
Sr. Presidente, Projota
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“Nobre colega
Acha que a nação inteira
É surda e cega
Hipocrisia todo dia
Faz parte da mobília”
Saquear Brasília, Capital Inicial
[VIDEO2]

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