Cinema Marcelo Serrado: 'O estado não tem interesse na nossa cultura' Nos cinemas em Crô em família, atorconta como é reviver o personagem e também fala de política e projetos futuros

Por: Adriana Izel - Correio Web

Publicado em: 10/09/2018 10:13 Atualizado em:

Com mais de 30 novelas no currículo, Marcelo Serrado alcançou outro patamar quando deu vida ao mordomo Crodoaldo Valério. Foto: Cesar Alves/TV Globo
Com mais de 30 novelas no currículo, Marcelo Serrado alcançou outro patamar quando deu vida ao mordomo Crodoaldo Valério. Foto: Cesar Alves/TV Globo

Com mais de 30 novelas no currículo, Marcelo Serrado alcançou outro patamar quando deu vida ao mordomo Crodoaldo Valério, o Crô, de Fina estampa, em 2011. Na época do folhetim, viu o público se apaixonar pelo personagem e arrebatou títulos em todos os prêmios que foi indicado pelo papel, as estatuetas do Prêmio Quem de Televisão, Melhores do Ano (Domingão do Faustão), Prêmio Contigo! de TV e Prêmio Extra de Televisão.

Apesar disso, o carioca de 51 anos nunca pensou que fosse defender novamente o personagem nas telas. "Uma loucura, nem eu imaginava que fosse reviver esse personagem", afirma em entrevista ao Correio. A primeira vez que voltou a colocar a gravata borboleta e os looks espalhafatosos de Crô foi em 2013, em Crô - O Filme, e agora, neste ano, na sequência do longa-metragem, Crô em família.

Diferentemente de um segundo filme padrão em franquias, Crô em família é uma história totalmente diferente, com novos personagens e que ignora os acontecimentos da produção de 2013. O enredo da fita, que mostra uma família entrando na vida de Crô e dizendo se tratar de seus parentes biológicos, tem base em uma ideia de Aguinaldo Silva, autor da novela que apresentou Crô à tevê, e direção de Cininha de Paula. “Quando tiveram a ideia de fazer o Crô de novo, eu falei: beleza, mas vamos fazer uma história nova, começando do zero” lembra.

Apostando que o segundo filme possa fazer uma bilheteria parecida com o do primeiro, que arrecadou R$ 4 milhões, Marcelo Serrado tem viajado o Brasil para divulgar a produção. A capital federal foi uma das cidades escolhidas. O ator recebeu o Correio para um bate-papo em um hotel da cidade. Ele falou sobre o longa, que está em cartaz nos cinemas da cidade, mas também abordou outros temas, como o incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro, posicionamento político e a novela O sétimo guardião, prevista para estrear em novembro no horário das 21h.

Como é voltar a viver o Crô?
Uma loucura, nem eu imaginava que fosse reviver esse personagem. Quando tiveram a ideia de fazer o Crô de novo, eu falei: “beleza, mas vamos fazer uma história nova, começando do zero, o Crô num outro contexto”. Daí pintou essa ideia do Crô em família do Aguinaldo Silva e dos outros redatores. Estive nas estreias do filme e o público ria muito. Então eu falei, deu certo. Agora é esperar o grande público. É um lançamento grande, uma comédia. A gente está vivendo um momento complicado, mas a gente tem que acreditar.

Como você falou o Crô em família é quase um reboot em relação ao primeiro filme. Mas ao mesmo tempo a família é o assunto dos dois filmes. Você acha que esse é o grande tema por trás do Crô?
Acho que sim, acredito que esse Crô tem uma mensagem muito bacana no final, de que família não é a que gente tem, mas a que a gente escolhe. Ele fala isso. O Crô tem uma coisa família. Ele é um carente, começa o filme já triste e é passado para trás por aquela família de uma certa maneira. O Crô é singelo, é quase um personagem de cartoon. Tem aquele cabelo, aquela gravata, ele é um personagem diferente. As pessoas falam que é estereotipado, mas eu vi o Crô numa boate, eu conheci um Crô. Quando eu estava pesquisando para fazer a novela, eu fui numa boate e vi um cara igual ao Crô e falei: “vamos ser amigo e emendei você pode ser meu amigo?”. Então esse cara existia. Busquei uma pessoa para me basear naquilo.

No final do filme fica aberto para uma terceira sequência. ocê tem vontade de um terceiro filme?
Depende do público. O filme tem que agradar o público. Não vou fazer um três se o público não for ao cinema. Faria um três, se o público for. Depende do público. Eu gostei muito, por exemplo, da junção que a gente fez (no filme) das três bichas, é divertido e são ícones, com o Marcos Majella (Ferdinando, de Vai que cola), Luís Miranda (Dorothy, de Geração Brasil), Marcos Caruso (Seu Peru, de Escolinha do Professor Raimundo).

Esse é um filme que tem direção da Cininha de Paula. Como foi essa inserção dela no segundo longa?
Sem ela, esse filme não teria sido feito. Ela colocou todo o humor no filme. Ela que dirige a Escolinha do Professor Raimundo e todas as coisas do Miguel Falabella. É uma diretora extremamente competente, então ela deu a cara do filme que eu queria.

Do primeiro filme para esse, você teve mais controle?
Eu tive mais voz ativa sim. Mas sempre respeitando a hierarquia do produtor e diretor. Dei muito opinião e fui ouvido da maneira que foi possível.

Esse foi um set com grandes amigos, né?
Sim, Fabiana Karla é uma grande amiga minha e fez uma participação. Foi um prazer trabalhar com dona Arlette Sales, que está divina no filme. O Jefferson Schroeder, que era um ator que eu não conhecia, que ficamos amigos, que arrasa no filme, é minha ajudante, ele é meu Crô. E tem Preta Gil, que é muito minha amiga, Pabllo Vittar, tem muita gente legal. E esse “chá” que eu achei maravilhoso.

Como você vê o cinema brasileiro?
Acho que o cinema brasileiro é plural, ele tem comédia romântica, policial, filmes regionais, filmes de periferia, então é importante que as comédias existam. A gente vê grandes artistas fazendo sucesso em comédia, então é bacana estar nesse momento vivendo isso de novo.

Você é um artista que se pronuncia muito sobre o que acontece no país e nessa semana não tem como não falar sobre o incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Para você o que representa o que aconteceu?
É uma tristeza, eu estou devastado. Quando queima o museu, queima todos nós, de uma certa maneira. Eu fui nesse museu um tempo atrás, não tinha água, não tinha papel higiênico no banheiro. Mas isso é um descaso que acontece em Brasília, em qualquer lugar e estado do nosso país, tem pouco investimento em relação a museu. Se você for ver o programa de governo dos próximos presidentes, só dois falam sobre museu. A gente paga uma fortuna por um deputado, enquanto um museu não é nada, é um gasto mínimo. Isso é relacionado também ao teatro, os teatros de municípios e federais estão sucateados. Isso que aconteceu é uma crônica de uma morte anunciada e pode acontecer com outros museus. O estado não tem interesse na nossa cultura. Agora, enquanto a gente fica brigando se um é esquerda, se o outro é direita, se é coxa ou mortadela, a gente deveria se unir para não reeleger as pessoas que estão aí. Eu não digo de um partido, deveria ter uma limpa geral. Falo de uma maneira indignada porque isso me entristece, porque nós temos uma voz muito poderosa. Não só artistas, nós como um povo todo. Então se a gente se unir, se der a mão, vamos mudar esse país. Mas é difícil, cada um pensa diferente, tem pessoas que não querem isso, querem retrocesso. Sou uma pessoa que gosta de falar de política, me pronuncio e às vezes tomo um certo cuidado, mas é difícil, vivemos um momento de tristeza. Por isso acho que temos que ir ao cinema, para rir, se divertir e depois a vida de novo como ela é.

Você está nos cinemas em Crô, mas volta em breve para a tevê em O sétimo guardião. O que pode contar sobre esse projeto?
Esse foi um ano muito produtivo, eu fiz seis longas, fiz uma série para a Globo, Sob pressão, e fiz uma série internacional em espanhol (Jugar con fuego, versão de Amores roubados). Estou estreando na novela fazendo um personagem totalmente machista, completamente fora do seu tempo. Extremamente radical, homofóbico, tudo que eu sou contra. É um personagem bem careta que parou no tempo. Um personagem bem contundente, acho que vai criar uma polêmica. É um personagem que tem uma contradição, ele não aceita as mudanças do tempo, em relação às mulheres principalmente. É extremamente machista e acha que mulher tem que ficar em casa e não trabalhar. Gosta de mulher na cozinha, ou seja, está louco. Mas deve ter gente que pensa assim, né? A novela retrata um pouco da nossa vida. É importante também dar voz a personagens que são a margem e que fazem um discurso que a gente não concorda e que estão aí de uma certa maneira na vida e trazem um debate.

Você está nos cinemas em Crô, mas volta em breve para a tevê em O sétimo guardião. O que pode contar sobre esse projeto?
Esse foi um ano muito produtivo, eu fiz seis longas, fiz uma série para a Globo, Sob pressão, e fiz uma série internacional em espanhol (Jugar con fuego, versão de Amores roubados). Estou estreando na novela fazendo um personagem totalmente machista, completamente fora do seu tempo. Extremamente radical, homofóbico, tudo que eu sou contra. É um personagem bem careta que parou no tempo. Um personagem bem contundente, acho que vai criar uma polêmica. É um personagem que tem uma contradição, ele não aceita as mudanças do tempo, em relação às mulheres principalmente. É extremamente machista e acha que mulher tem que ficar em casa e não trabalhar. Gosta de mulher na cozinha, ou seja, está louco. Mas deve ter gente que pensa assim, né? A novela retrata um pouco da nossa vida. É importante também dar voz a personagens que são a margem e que fazem um discurso que a gente não concorda e que estão aí de uma certa maneira na vida e trazem um debate.



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