LUTO Aretha Franklin deixa legado na música e na luta por direitos civis Nascida e crescida no cenário gospel, a cantora morreu ontem em Detroit, depois de lutar por meses contra o câncer

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 17/08/2018 14:04 Atualizado em: 17/08/2018 14:14

Uma das últimas apresentações de Aretha, na entrega do prêmio anual do Kennedy Center. Foto: AFP Photo
Uma das últimas apresentações de Aretha, na entrega do prêmio anual do Kennedy Center. Foto: AFP Photo

Quando Aretha Franklin nasceu, em março de 1942, em Memphis (Tennessee), negros só podiam andar na parte de trás dos ônibus, nos Estados Unidos. Frequentavam banheiros separados dos brancos e estavam proibidos de estudar nas universidades. Para as mulheres, era pior. Legislações que tornavam crime a violência doméstica não eram levadas a sério. Quando Aretha gravou Respect, a famosa música de Otis Redding, em 1967, Martin Luther King já tinha marchado em Washington e anunciado que tinha “um sonho”. O presidente John Kennedy havia interferido pessoalmente para que um aluno negro não fosse impedido de se  matricular na universidade. Eram tempos difíceis. Em sua voz empostada e de afinação excepcional, capaz de ir dos mais agudos aos mais graves, Aretha pedia um pouco de respeito. A música se dirige a um homem, mas ele podia ser qualquer um, do patrão branco ao marido violento. Respect se tornou um hino dos direitos civis e do feminismo.

A cantora de 76 anos morreu ontem (16) em Detroit, em consequência de um câncer de pâncreas que a fez anunciar a aposentadoria ao menos duas vezes, a rainha do soul deixou uma coleção de hits. Mas era Respect que ela gostava de apontar como o mais importante. Em uma entrevista à revista Vogue, em 2015, explicou o porquê: “É importante para as pessoas. Não apenas para mim ou para o movimento dos direitos civis ou para as mulheres: é importante para as pessoas. Quando me perguntaram qual gravação minha eu colocaria em uma cápsula do tempo, seria Respect”.

Nascida no Delta do Mississipi, terra de B.B. King e Muddy Waters, cresceu em um meio musical. Com o pai, Clarence, pastor batista de sucesso, subia ao palco para embalar as pregações da igreja desde os 2 anos. Pelo piano de casa, via passar gente como Nat King Cole, Duke Ellington e Art Tatum. Os ensaios das crianças Franklin — Erma, Cecil e Carolyn — ficavam por conta da cantora Dinah Washington.

Do gospel da igreja, ela trouxe a matriz, a referência que incorporaria ao jazz, ao soul, ao blues e até ao hip hop. Uma formação que nenhum banco de conservatório seria capaz de proporcionar. Aretha tocava piano e, segundo o irmão Cecil, que foi seu empresário entre 1968 e 1989, era capaz de tirar qualquer música de ouvido. Ler partitura, só foi aprender no século 21, na Julliard School, em uma tentativa de se dedicar à música clássica. Mas nem era preciso. Vale lembrar como Aretha deixou a audiência perplexa ao substituir Luciano Pavarotti em Nessum dorma, ária de Turandot (Puccini), durante uma apresentação do Grammy, em 1998.

No estúdio
Foi com o gospel que ela deu início à carreira na indústria da música. Aos 14 anos, lançou Songs of faith e, pouco tempo depois, assinou com a Columbia Records. Ali, foi parar nas mãos do produtor John Hammond, o mesmo que levou Billie Holiday a gravar alguns de seus maiores sucessos. Na Columbia, Aretha mergulhou no soul. Foram nove discos entre 1961 e 1966, mas foi na Atlantic Records que gravou os hits até hoje cultuados. Entre 1967 e 1979, Aretha lançou músicas como Respect, I never loved a man (The way I love you), Chain of fools e Do right woman, do right man.

Durante os anos 1970, a cantora gravou um de seus maiores sucessos gospel. Lançado em 1972 e registrado na igreja fundada pelo pai em Detroit, a New Bethel Baptist Church, Amazing grace vendeu mais de 2 milhões de cópias e se tornou um dos discos de gospel mais vendidos da história da indústria da música. Aretha também não se esquivou da era disco e, em 1976, gravou Sparkle, com produção de Curtis Mayfield. Nos anos 1980, parcerias estratégicas ajudaram a mantê-la em evidência. Gravou com George Michael, com o grupo Eurythmics, com Elton John, James Brown e Whitney Houston.  Nos anos 1990, uma aparição no filme The blues brothers a fez reviver o sucesso de Think. No filme, ela canta o hit em uma cena na qual interpreta a garçonete de uma lanchonete. Também foi nessa década que voltou a se aproximar da música pop contemporânea e gravou duetos com Celine Dion e Mariah Carey, além de um disco produzido por Lauryn Hill, A rose is still a rose.

Flores, retratos e mensagens dos fãs na Calçada da Fama, em Hollywood. Foto: AFP Photo
Flores, retratos e mensagens dos fãs na Calçada da Fama, em Hollywood. Foto: AFP Photo

Despedida
Em 2010, depois de lançar uma compilação de duetos e um disco de Natal (This Christmas, Aretha, 2008), ela anunciou a retirada dos palcos. O diagnóstico de um câncer e o tratamento pesado mantiveram a cantora afastada. Mesmo assim, ela fez alguns shows eventuais, aparições em programas de tevê e, em 2014, gravou o último disco. Aretha Franklin sings the great diva classics traz músicas como At last, de Etta James, Rolling in the deep, de Adele, e No one, de Alicia Keys. Etta James, alíás, foi uma das divas do jazz que sofreram enorme impacto ao ouvir Aretha. Segundo conta David Remnick, editor da The New Yorker, no obituário publicado pela revista, James ficou assustada ao ouvir a versão de Aretha para Skylark, de Johnny Mercer e Hoagy Carmichael. A menina era capaz de pular uma oitava inteira e manter a afinação. James comentou o fato com Sarah Vaughan, que jurou nunca mais cantar a música depois de ouvir Aretha.

O lado musical é o mais conhecido de Aretha Franklin. Mas, em 2014, o biógrafo David Ritz lançou Respect, biografia não autorizada, derivada de outra (essa autorizada), publicada pelo mesmo autor nos anos 1990. As notas não exploradas no primeiro livro e expostas na nova edição incomodaram a cantora. É ali, no entanto, que Ritz apresenta a Aretha ativista. Não chega a ser uma surpresa. A mesma Aretha responsável por cantar My country ‘tis of thee na posse de Barack Obama, em 2009, emocionou legiões de fiéis com Precious lord, entoada no funeral de Martin Luther King Jr., em 1968. O apoio à feminista Angela Davis, os concertos com Mahalia Jackson para arrecadar fundos para a Grande Marcha para Washington, de Luther King, que seu pai, Clarence, ajudou a organizar, são momentos importantes da biografia.

Discografia 
I never loved a man (The way I loved you) (1967)
O 10º álbum de estúdio é considerado o melhor e mais influente da carreira da cantora. Com 11 faixas, tem os principais hits da trajetória, como Respect, a música-título, Dr. Feelgood (Love is a serious business), Do right woman, do right man e A chance is gonna come. Além disso, marca a entrada da artista na Atlantic Records, conceituada gravadora de jazz e R&B.
 
Lady soul (1968)
Ficou marcado como o coroamento de Aretha Franklin com o título de “rainha da soul music”. Tem clássicos como Chain of fools, (You make me feel like) a Natural woman, Since you’ve been gone e Ain’t no way.

Aretha now (1968)
Traz um dos grandes hits da carreira da cantora, como I say a little player, que foi gravado por Dionne Warwick um ano antes e se tornou um clássicos das duas artistas. O disco tem ainda os sucessos Think e I can’t see myself leaving you.

Spirit in the dark (1970)
Sem ter sido sucesso de vendagem, foi aclamado pela crítica, principalmente, por conta do discurso que continha. O disco transparecia a busca por liberdade, sendo uma mulher negra e tendo se separado recentemente do marido, Ted Whit. Abre com hit Don’t play that song.

Amazing grace (1972)
Terceiro álbum ao vivo, tornou-se no ano passado o mais vendido da artista nos últimos 50 anos. Foi gravado na Igreja Batista Missionária New Temple, em Los Angeles, em janeiro de 1972. Por isso, tem uma pegada ainda mais gospel. O grande hit do disco, que ganhou nova versão em 1999, é a faixa-título.

A rose is still a rose (1998)
Com grande destaque no fim dos anos 1960 e início dos 1970, Aretha voltou ao topo com o 37º disco de estúdio, que se tornou o mais aclamado e mais vendido da cantora nos anos 1990. Ele ficou marcado pela faixa-título, produzida por Laurin Hill, pelo discurso de uma mulher mais madura e pelo retorno do canto da americana em registro mais alto.

Aretha Franklin sings the great diva classics (2014)
Último disco gravado por Aretha, reúne 10 covers de canções que ficaram famosas nas vozes de mulheres. Da nova geração, ela homenageou nomes como Adele, com Rolling in the deep, e Alicia Keys, com No one. Há também versões de At last (Etta James), I will survive (Gloria Gaynor) e People (Barbra Streisand).

Reações
“Aretha ajudou a definir a experiência americana. Em sua voz, pudemos sentir nossa história, tudo e em todas as tonalidades nosso poder e nossa dor, nossa escuridão e nossa luz, nossa busca pela redenção e nosso respeito duramente conquistado. Que a rainha do soul descanse em paz eterna”
Barack Obama, ex-presidente dos EUA

“A rainha do soul morreu. Era uma mulher incrível, com um maravilhoso dom de Deus, sua voz. Sentiremos sua falta”
Donald Trump, presidente dos EUA

“A perda de Aretha Franklin é um golpe para todos que amam a música real: música do coração, da alma e da igreja. Sua voz era única, seu piano tocando subestimado — ela era uma das minhas pianistas favoritas”
Elton John, cantor

“Vamos todos tirar um momento para agradecer pela bela vida de Aretha Franklin, a rainha de nossas almas, que nos inspirou por muitos e muitos anos. Sentiremos sua falta, mas a memória de sua grandeza como música e um belo ser humano viverá conosco para sempre”
Paul McCartney, cantor

“Não consigo me lembrar de um dia da minha vida sem a voz e a música de Aretha Franklin enchendo meu coração com tanta alegria e tristeza. Absolutamente com o coração partido, ela se foi, que mulher. Obrigado por tudo, pelas melodias e movimentos”
Adele, cantora

“É difícil conceber um mundo sem ela. Não só era uma cantora excepcionalmente brilhante, mas seu compromisso com os direitos civis causou um impacto indelével no mundo”
Barbra Streisand, cantora

“A rainha do soul deixou esta terra para se sentar em seu trono no céu. Quão abençoados fomos ao ouvir o melhor que Deus tinha para oferecer em sua voz. RESPEITO”
Lenny Kravitz, cantor

“Hoje, nós perdemos uma das maiores. Ela sempre será lembrada e admirada. Aretha Franklin, descanse em paz, eu te amo”
Ricky Martin, cantor

“Sempre à frente do seu tempo, abriu portas para incontáveis cantoras (a maioria negras) no meio musical predominantemente masculino. Inevitavelmente, essa temática se refletia na letra de algumas de suas músicas, como Respect, de Ottis Redding, que virou um manifesto contra o machismo. O seu compromisso não era ‘apenas’ com a arte, tanto que se tornou um símbolo na defesa dos direitos civis e da igualdade racial”
Georgia W. Alô, cantora

“Que Aretha Franklin continue brilhando no céu e em todas as constelações! Uma linda passagem a esse ser de luz maravilhoso que nos encantou por gerações. Ela deixou o mundo muito mais feliz. Que a gente ouça e se lembre sempre com muito carinho. Luz sempre!”
Elza Soares, cantora

“Nossa rainha do soul agora ai cantar com os anjos. á em paz, Aretha Franklin”
Fernanda Abreu, cantora


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