DP nos Bairros Instituto Ricardo Brennand, um patrimônio de acervo incalculável Museu abriga coleções de peças medievais, obras do Brasil holandês e biblioteca

Por: Breno Pessoa

Publicado em: 17/08/2018 10:11 Atualizado em:

Fachada do Instituto Ricardo Brennand, na Várzea, Zona Oeste do Recife. Foto: Ricardo Fernandes/DP/D.A Press
Fachada do Instituto Ricardo Brennand, na Várzea, Zona Oeste do Recife. Foto: Ricardo Fernandes/DP/D.A Press


À primeira vista, pode parecer exótica a existência de um complexo de edificações no estilo gótico-Tudor em pleno solo recifense, ainda mais considerando que foram erguidas nos anos 2000. Mas, certamente, uma arquitetura moderna não casaria tão bem com o acervo do Instituto Ricardo Brennand (IRB), entre milhares de artefatos históricos e obras de arte adquiridas ao longo de 60 anos, uma coleção em constante expansão. Formado pelo Museu de Armas Castelo São João, pela Pinacoteca, Biblioteca, Parque de Esculturas dos Jardins e Capela Nossa Senhora das Graças, o centro cultural instalado na Várzea completa 16 anos de criação em setembro.

Ao longo de mais de uma década e meia de funcionamento, o espaço foi visitado por mais de 2,6 milhões de pessoas. Atualmente em primeiro lugar no ranking nacional de museus Traveler’s Choice Award, divulgado anualmente pela plataforma TripAdvisor, o local não foi concebido originalmente para abrigar, propriamente, um complexo cultural. Uma das principais instalações do Instituto, e a primeira a ser construída, o Castelo de São João foi idealizado para abrigar a coleção particular de armas brancas do empresário Ricardo Brennand, que já não podia ser adequadamente guardada em sua residência.

"Ele foi, por toda a vida, um grande colecionador", diz o conselheiro do IRB e coordenador de pesquisa, Leonardo Dantas, sobre o empresário Ricardo Brennand, com quem trabalha desde 2001, antes mesmo da criação do Instituto. “Ele resolveu criar um ambiente para expor as peças, e pensou em fazer um cenário para as armas dele. Como grande parte delas eram da Era Medieval, se inspirou nos castelos do Vale do Loire, na França”, explica o historiador.

Embora estivesse nos planos do empresário, a pinacoteca teve a construção antecipada, e acelerada, além de ter recebido um projeto mais arrojado do que o idealizado. Em 2001, com as obras do castelo já concluídas, representantes do Museu Nacional da Dinamarca visitaram o estado em busca de um local para receber as obras do pintor holandês Albert Eckhout (1610-1665), que pela primeira vez sairiam da sede.

A comitiva não encontrou espaço adequado para receber a mostra e, segundo Leonardo Dantas, o então vice-presidente da República, Marco Maciel, teria pedido apoio de Brennand para viabilizar um local que pudesse receber as telas do artista, que acompanhou a comitiva de Maurício de Nassau em Pernambuco (1637-1644) e retratou a paisagem da região à época. “Ele não iria fazer naquela grandiosidade", revela o historiador, sobre as ideias originais para a pinacoteca, planejada para abrigar a coleção pessoal de telas de Frans Post (1612-1680), outro grande nome que retratou o cotidiano local no período.

O plano de receber os 28 quadros da coleção de Eckhout acelerou o planejamento e andamento das obras: o local foi construído em apenas 11 meses e inaugurado para a mostra. Hoje, o espaço abriga, além de exposições temporárias, exposição permanente sobre o Brasil holandês, que conta com peças de tapeçaria criadas a partir de desenhos de Eckhout, documentos e objetos da época e quadros de Frans Post.

Outros destaques do acervo do IRB são: uma das 25 réplicas existentes da escultura O Pensador, do francês Auguste Rodin, a partir de molde do original, a peça A dama e o cavalo, do colombiano Fernando Botero, feita em bronze platinado, além de 60 mil itens na biblioteca. E, segundo Dantas, a organização do IRB se esforça bastante para não deixar nada da coleção guardado na reserva técnica. “O que está fora da vista do visitante está em restauração.” Ele acrescenta, ainda, que o valor do acervo é inestimável e incalculável. “O colecionador, quando compra uma peça, não é por valor financeiro, é por paixão.”

Serviço
Funcionamento: de terça a domingo, das 13h às 17h
Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (pessoas com deficiência, professores, estudantes e idosos acima de 60 anos). Na última terça-feira do mês, a entrada é gratuita, exceto nos meses de janeiro, julho e dezembro.
Informações: 2121-0352

O castelo
Interior do Castelo Sao Joao, no Instituto Ricardo Brennand. Foto: Paloma Amorim/Divulgação
Interior do Castelo Sao Joao, no Instituto Ricardo Brennand. Foto: Paloma Amorim/Divulgação
A coleção tem mais de cinco mil peças, acervo que continua a ser ampliado com as constantes aquisições de Ricardo Brennand, hoje com 91 anos.Entre as peças de destaque, o coordenador do IRB destaca uma armadura para cachorro, provavelmente do século 18, as espadas de cerimonial de Faruk, o último rei do Egito, feitas em ouro e cravejadas de diamante, uma coleção de armas do império mongol. Outra raridade é a única coleção conhecida no mundo com toda a produção de facas e canivetes da Joseph Rodgers & Sons Limited, cutelaria de 1724, na Inglaterra, que produziu para a Coroa Britânica por quatro reinados. O nome do castelo deve-se ao fato de ficar no terreno que foi o Engenho São João, de João Fernandes Viera, principal líder da Insurreição.

A capela
Capela Nossa Senhora das Gracas localizada no Instituto Ricardo Brennand. Foto: Gleyson Ramos/Divulgação
Capela Nossa Senhora das Gracas localizada no Instituto Ricardo Brennand. Foto: Gleyson Ramos/Divulgação
A mais nova edificação do conjunto é a capela Nossa Senhora das Graças, inaugurada em 2014, em homenagem à esposa de Brennand, Graça. A capela integra a Paróquia da Várzea e tem missas celebradas pelos padres João Bosco e Tarcísio Paiva, no 1º domingo e o outro no 3º domingo de cada mês, respectivamente. Como as demais edificações locais, o templo segue estilo gótico. “É uma capela toda com mão de obra e artistas pernambucanos”, explica Leonardo Dantas. A exceção é o altar, originário do barroco espanhol, trazendo cenas e entalhes retratando cenas da vida de Santo Isidoro Lavrador (1070- 1130).

Primavera dos Museus
O IRB receberá programação especial na 12ª Primavera dos Museus, realizada em todo o país a partir de setembro:

De 18 a 23 de setembro, das 13h às 17h
Ações educativas por meio de textos explicativos, sons, objetos e experiências sensoriais a partir do acervo do IRB.

De 18 a 22 de setembro, das 8h30 às 12h30
Curso Gestão de Acervos Musicais Históricos, com o musicólogo Paulo Castagna.

De 18 a 20 de setembro, das 13h às 17h
Tramas da Educação: exposição com fotos de atividades realizadas durante os 16 anos da Ação Educativa IRB.

20 de setembro, das 13h30 às 17h30
Formação de docentes de artes e bibliotecários sobre educação patrimonial, identidade e pluralidade étnica, através dos temas coleção e colecionismo e cultura indígena e afro-brasileira.

21 de setembro, das 14h às 17h
Encontro literário sobre O engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes.

22 de setembro, das 14h30 às 17h
118ª edição do Peça a peça, sobre a ocupação holandesa.

23 de setembro, das 15h às 17h30
Apresentação do duo Aracê, com repertório artistas pernambucanos, editadas pelo músico e pesquisador Jardel Souza, a partir de manuscritos do acervo do IRB.



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