Cinema Festival de filmes no Recife debate participação feminina no cinema Festival Internacional de Cinema de Realizadoras (Fincar) é realizado até o domingo no São Luiz, Fundação Joaquim Nabuco e no Cine Teatro Bianor Mendonça Monteiro, em Camaragibe

Por: Breno Pessoa

Publicado em: 14/08/2018 08:31 Atualizado em: 14/08/2018 14:00

Curta-metragem Entremares, da cineasta e produtora pernambucana Anna Andrade. Foto: Fincar/Divulgação
Curta-metragem Entremares, da cineasta e produtora pernambucana Anna Andrade. Foto: Fincar/Divulgação

Enquanto o audiovisual ainda está longe de mostrar um panorama mais diverso nas telas, mulheres que fazem cinema têm se mobilizado para mudar o quadro. Desta terça-feia (14) até domingo (19), o Festival Internacional de Cinema de Realizadoras (Fincar) abre espaço para exibição e debate sobre a participação feminina no meio.

Em sua segunda edição, o evento chega ampliado e mais descentralizado, com sessões nas salas do São Luiz (Rua da Aurora, 175, Boa Vista), Fundação Joaquim Nabuco (Rua Henrique Dias, 609, Derby) e também fora do Recife, no Cine Teatro Bianor Mendonça Monteiro (Avenida Dr. Pierre Collier, 441, Vila da Fábrica), em Camaragibe.

A programação tem início no São Luiz, às 19h, com sessão temática de curtas intitulada É minha cada parte do meu corpo, seguida de debate com a equipe de realizadoras dos filmes. Encerrando a noite, a partir das 20h40, o longa-metragem Diários de classe, de Maria Carolina da Silva e Igor Souza. Já no Cinema da Fundação, a programação tem início a partir de amanhã, enquanto em Camaragibe tem sessões programadas de sexta-feira a domingo. Os ingressos custam R$ 3 (São Luiz) e R$ 2 (Fundação), enquanto a entrada no Cine Teatro Bianor Mendonça Monteiro é gratuita.

"A gente deu um passo de amadurecimento considerável, saímos dos 30 filmes, em 2016, para mais de 70, nesta edição", diz a cineasta Maria Cardozo, idealizadora e diretora de programação do Fincar. Fora a adição de dois novos espaços de exibição para além do Cinema São Luiz, outras novidades deste ano, destaca a realizadora, são a programação infantil, na manhã do domingo, com oito títulos, e a sessões para escolas públicas, no Recife e em Camaragibe. Além disso, haverá a Sessão Especial: Retrospectiva Cachoeira Doc, programada pela idealizadora do festival baiano, Amaranta Cesar, com curtas-metragens de realizadoras que foram exibidos em edições anteriores do evento.

Uma especificidade da programação deste ano é a presença de apenas documentários entre os longas-metragens selecionados. Segundo Cardozo, deve-se a uma questão de conjuntura. “O festival ocorre poucos meses antes da eleição pós-golpe de 2016, e a gente se questionou sobre o que colocar na tela”, afirma. "Não que os ficcionais não sejam políticos", faz a ressalva, pontuando que a escolha tem relação com as temáticas presentes em várias das produções inscritas para o festival.

"Vamos encontrar, nos documentários que a gente selecionou, debates sobre genocídio da população negra no país, a autonomia da terra, as mulheres na agricultura, questões indígenas, o encarceramento em massa de mulheres negras", explica Cardozo. 

Sobre a montagem da programação, a cineasta diz que a seleção de filmes foi resultado de um longo processo de debate entre as envolvidas na curadoria, time que contou com realizadoras, artistas visuais, cineclubistas, comunicadoras populares, pesquisadoras acadêmicas, pesquisadoras livres e estudantes de cinema. “A gente entendeu o processo de curadoria como uma etapa formativa”, pondera Cardozo, ressaltando que as envolvidas participaram de reuniões semanais ao longo de quatro meses. “A diversidade de vivências e experiências audiovisuais entre as curadoras é uma das potências políticas do festival. Os debates estabelecidos a partir dos filmes foram muito produtivos e a programação instigante a qual chegamos é resultado direto disso.”

MAIS ATIVAS
Apesar das disparidades de gênero no audiovisual, evidenciada na maioria masculina entre realizadores e problemas na representação de gênero dentro do meio, Maria Cardozo enxerga, pelo menos, mais vozes ativas. “Muito tem sido debatido”, avalia, acrescentando que a demanda tem sido levada para outros festivais de cinema, sejam grandes ou pequenos. “Não dá para ignorar”, diz. A diretora também destaca a força e mobilização de movimentos interseccionais, como os de realizadoras negras e indígenas, com maior presença dentro da programação nesta edição.

A segunda edição do Fincar teve 1168 filmes de realizadoras foram inscritos. O país com maior participação foi o Brasil, com 320 títulos inscritos, enquanto em 2016, o recorde de inscrições veio dos Estados Unidos. O evento é viabilizado com recursos do 10° Edital do Programa de Fomento à Produção Audiovisual de Pernambuco Funcultura / Fundarpe, com produção da Orquestra Cinema Estúdios e Vilarejo Filmes. Esta edição conta com o apoio da Fundação de Cultura de Camaragibe, Pajeú Filmes, Paço do Frevo, Portomídia e Porto Digital.

Recife na tela
Uma das produções pernambucanas selecionadas para o Fincar é o curta-metragem Entremarés (primeira foto), primeiro filme da cineasta Anna Andrade. Filmado em 2017, o documentário é centrado nos depoimentos de três irmãs pescadoras, Adriana, Alexandra e Rita, moradoras da Ilha de Deus. O título, segundo a diretora tem a ver com as figuras retratadas na produção. Por ser uma área exposta na maré baixa e submersa na maré alta, sobrevivem nas entremarés apenas os organismos mais fortes, que suportam condições extremas. “Vivemos em uma cidade cortada por rios e pontes conhecidas por todos, e muitas vezes ilustradas em cartões-postais, mas poucas pessoas conhecem a Ponte Vitória das Mulheres (que liga a Ilha de Deus ao Recife) e a sua história”.


Programação

Cinema São Luiz

Terça-feira
18h30 - Abertura
19h - Curtas: Sessão É minha cada parte do meu corpo + debate com realizadoras
20h40 - Longa: Diários de Classe, de Maria Carolina da Silva e Igor Souza

Quarta-feira
18h30 - Curtas: Sessão Existir, Ocupar! debate 
20h30 - Longa: Piripkura, de Mariana Oliva, Renata Terra e Bruno Jorge

Quinta-feira
18h30 - Curta: Noturnas debate com realizadoras
20h25 - Média: Mulheres Rurais em Movimento, de Prévost Héloïse e Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste (MMTR-NE) debate 

Sexta-feira
18h30 - Curta: Sessão Corpos de terra e mar debate
20h30 - Média: Teko Haxy: Ser Imperfeita, de Patrícia Ferreira e Sophia Pinheiro debate com realizadoras

Sábado 
18h30 - Curtas: Sessão Me chame pelo meu nome
19h40 - Longa: O Caso do Homem Errado, de Camila de Moraes debate 

Domingo 
9h – Curtas: Sessão infantil

Cinema da Fundação

Quarta-feira
14h - Curtas: Sessão Correntezas
15h22 - Longa: Cuatreros, de Albertina Carri

Quinta-feira
14h - Curtas: Sessão Vivas nos queremos
15h05 - Curtas: Sessão Dançando a revolução
16h10 - Longa: Lírios não nascem da lei, de Fabiana Leite

Sexta-feira
14h - Especial: sessão Retrospectiva Cachoeira Doc debate com Amaranta Cesar

Sábado 
14h - Longa: Wild Relatives, de Jumana Manna
15h15 - Curtas: Sessão Recontando a História debate 

Domingo 
14h - Programa Janaína Oliveira: Ficine (Fórum Itinerante de Cinema Negro/RJ)



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