Cinema Cine Ceará: Petra mescla tragédia e realismo em narrativa não linear Filme do espanhol Jaime Rosales foi exibido na Quinzena dos Realizadores em Cannes

Por: Breno Pessoa

Publicado em: 08/08/2018 09:00 Atualizado em: 10/08/2018 13:43

Personagem-título é interpretada por Barbara Lennie, em ótima atuação. Foto: Film Factory
Personagem-título é interpretada por Barbara Lennie, em ótima atuação. Foto: Film Factory

Fortaleza - É em um lugar entre o realismo fantástico e a tragédia que situa-se Petra, novo filme de Jaime Rosales (As horas do dia), exibido durante o Cine Ceará, em Fortaleza. Há uma não linearidade e preocupação estilística na narrativa, que pode remeter a Cortázar, mas também uma grande dureza nos acontecimentos que nos faz lembrar Shakespeare nos momentos mais sombrios. O longa ainda não tem data de estreia confirmada no Brasil.

A primeira surpresa vem surge logo no início do filme, que apresenta divisão em capítulos, e começa já na segunda parte. A mudança na sequência não chega a interferir na compreensão da narrativa, não é como embarcar no meio da história. Cada arco é fechado em si e a opção em subverter a ordem de alguns segmentos acaba por provocar uma espécie de efeito retardado e intensificar o peso de alguns acontecimentos vistos anteriormente. Ou seja, uma revelação situada cronologicamente no passado, mas apresentada apenas em um trecho mais adiantado do filme potencializa determinadas situações narradas preliminarmente.

Falando especificamente sobre a trama, a personagem-título, Petra (Barbara Lennie), é uma pintora que inicia uma residência artística na residência de um escultor famoso, Jaume (Joan Botey), em Girona, na Catalunha. No local, ela conhece a esposa dele, Marisa (Marisa Paredes), e o filho, Lucas (Alex Brendemuhl). A despeito do cenário aconchegante da casa e da riqueza da família, percebe-se em poucos minutos uma série de relações disfuncionais, resultado, sobretudo, da atitude do patriarca.

Jaume é uma figura odiável. Infiel para com a mulher, rude com o filho e injusto com os empregados, o artista é o ponto de origem de quase tudo de desagradável que será visto ao longo da projeção. Dor, mortes, mentiras e reviravoltas vão desfilando durante todo o filme, sempre mostradas sem pressa, com uma câmera quase sempre em movimento, de forma muito orgânica. E mesmo os eventos mais trágicos são retratados de forma bastante natural, como coisas corriqueiras, reforçando a tragédia como algo inerente à existência da protagonista.

Se o drama é todo retratado de maneira um tanto apática na reação dos personagens e calculista na maneira como é filmado, Petra passa longe de provocar indiferença em que assiste à história. E provocar algo é sempre um grande feito.

*O repórter viajou a convite da organização do Cine Ceará


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