Cinema Filme nacional O Animal Cordial usa violência como ferramenta para criticar o Brasil atual Longa de Gabriela Amaral Almeida se passa inteiramente no interior de um restaurante de classe média

Por: Breno Pessoa

Publicado em: 06/08/2018 09:45 Atualizado em: 07/08/2018 13:24

Murilo Benício e Luciana Paes entregam atuação marcante. Foto: RT Features/Divulgação
Murilo Benício e Luciana Paes entregam atuação marcante. Foto: RT Features/Divulgação

Raras foram as vezes em que se viu tanto sangue numa produção nacional voltada para o circuito comercial quanto em O animal cordial, em exibição nos cinemas a partir desta quinta-feira. O visceral longa-metragem de estreia de Gabriela Amaral Almeida também pode ser considerado incomum sob outro aspecto: no acertado uso da violência como ferramenta para comentários sociais a respeito do Brasil atual.

O filme leva a assinatura da RT Features, do brasileiro Rodrigo Teixeira, um dos maiores produtores do país e nome por trás de sucessos internacionais como A bruxa (2016) e Me chame pelo seu nome (2017). É mais um título para o até agora enxuto, mas interessante catálogo da produtora.

Com pouco mais de uma hora e meia de duração, a narrativa se passa inteiramente no interior de um restaurante de classe média comandado por Inácio (Murilo Benício). Arrogante e ríspido, o gerente se mostra uma figura problemática já nos primeiros minutos de projeção, destilando preconceito e impondo péssimas condições de trabalho aos funcionários. Ao fim de mais um dia de expediente, com poucos clientes na casa, o estabelecimento é assaltado por uma dupla de bandidos. 

Em pouco tempo, Inácio saca uma arma escondida no balcão e controla a situação, rendendo um dos assaltantes, Magno (Humberto Carrão), e baleando o outro, Nuno (Ariclenes Barroso). Contra a vontade de todos, o dono do restaurante decide não acionar a polícia, alegando não confiar nas autoridades, e decide manter os funcionários, clientes e bandidos como reféns. A exceção é a atendente Sara (Luciana Paes), que obedece as ordens e ajuda a trancar os ocupantes do local na cozinha. Com diferentes estratos sociais representados, o ambiente pode ser considerado um microcosmo da sociedade brasileira e trava diálogos com questões sempre atuais, da luta de classes ao machismo. 

Inácio é uma espécie de materialização do discurso de "bandido bom é bandido morto". E junto a essa visão de mundo, traz consigo outros inúmeros preconceitos, incluindo aí misoginia, racismo, homofobia. Chef de cozinha do restaurante, Djair (Irandhir Santos) é um dos alvos da violência do patrão: trans, recebe xingamentos e, sem qualquer evidência, é tratada como suspeita de ser cúmplice do assalto. Um a um, todos os ocupantes do recinto vão sendo atingidos pela agressividade de Inácio, em uma crescente de loucura e brutalidade. 

Sem medo de apostar no gore e situações inusitadas, O animal cordial ganha força não pela violência evidenciada nos atos mais sanguinolentos, mas a partir da brutalidade simbólica presente nos discursos e comportamento dos personagens. 

Personagem atípico na carreira de Benício, quase sempre em papéis bonachões, o protagonista é uma das grandes interpretações do ator, premiado no Festival do Rio 2017 pela performance. Igualmente transtornada, Luciana Paes mostra potência ao interpretar uma figura complexa, que ao mesmo tempo carrega brutalidade e certa ingenuidade. 

Já tarimbada como roteirista, sobretudo em produções televisivas, e alguns bons curtas na bagagem, Gabriela Amaral Almeida mostra domínio de direção digno de veterana. Mestre em literatura e cinema de horror pela UFBA, a cineasta entrega uma obra com apuro técnico e originalidade. E por mais que o desenrolar dos acontecimentos pareça caminhar para o exagero, é difícil não enxergar em Inácio uma inevitável verossimilhança, ainda mais em tempos que a cultura do ódio e violência parecem cada vez mais presentes e, não raro, encaradas até com normalidade ou, simplesmente, legitimadas por discursos de intolerância.

[Entrevista - Gabriela Amaral Almeida // diretora

Recentemente, têm aparecido mais filmes com essa temática de horror com crítica social. A que você credita esse movimento?
Não vejo como movimento organizado, mas esses filmes que estão chegando agora são de realizadores que experimentaram muito em curtas-metragens, e curtas têm essa liberdade. E acho que a gente, como cineasta brasileiro, perdeu o medo e a vergonha de trabalhar com esse gênero narrativo. Também tem a ver com a situação que a gente tem vivido nos últimos anos, de indefinição quanto ao futuro. A maioria das pessoas, artistas ou não, com quem converso, está incerta quanto ao rumo das coisas. Historicamente, nesses espaços de indecisão na sociedade, o horror floresce. Quando tem angústia, medo do desconhecido. Então, pode ter aí alguma relação.

Além dessa inquietação, de onde vem a história do filme?
Curiosamente, almocei num restaurante que havia sido assaltado. Estava com uma amiga, Luana Demange, que escreveu o argumento comigo, e a gente começou a se questionar sobre o medo, como é vendido na sociedade e como ele é lucrativo. Estacionamento seguro, vigia, carro blindado, toda essa falsa segurança afunda mais a gente como sociedade. E, a partir disso, foi questão de ir puxando fios da imaginação para a criação dos personagens que habitariam uma situação como essa.

Sara parece uma figura pouco usual nesse tipo de narrativa, como uma mulher que é ativa na violência. Você pode falar sobre a criação da personagem?
A Sara foi a primeira personagem que surgiu. Dando entrevistas, me dei conta de que meus personagens, quase sempre, são indivíduos que vivem uma espécie de mentira automatizada da vida. O que me interessa na personagem da Luciana Paes é o fato de ela começar o filme tentando cumprir todas as demandas que um modelo de feminino teria de cumprir para ser considerado feminino: a necessidade de um parceiro rico, poderoso, a submissão. Mas ao mesmo tempo ela navega por esse mar, ela também vai errando e se dando conta de que o feminino dela é outro. Ela vai descobrindo o instinto, quem ela verdadeiramente é. Me interessava muito construir o feminino que errasse, com esse objetivo maluco de corresponder a um modelo de feminilidade, que é cultural mas que tem que ser individual para cada um. O feminino está sempre sujeito a um molde muito rígido. E isso é um tema muito rico para ser abordado no horror.

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.