Polêmica Associação LGBTI+ defende Hooker: 'Luta contra o silenciamento da população transexual' 'Os ataques e denúncias sofridos pelo cantor são reflexos da intolerância e LGBTIfobia presentes na nossa sociedade', diz nota da ONG, que tem mais de 300 afiliadas no país

Por: Viver/Diario - Diario de Pernambuco

Publicado em: 01/08/2018 10:51 Atualizado em: 01/08/2018 10:53

Johnny Hooker fez um discurso em defesa da peça Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu. Foto: Instagram/Reprodução
Johnny Hooker fez um discurso em defesa da peça Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu. Foto: Instagram/Reprodução

A notícia-crime feita por um advogado para intimar o cantor Johnny Hooker por suas declarações no Festival de Inverno de Garanhuns causou um rebuliço na internet. Enquanto alguns usuários comemoram a atitude por "respeito à religião" e outros criticam por "cerceamento da liberdade de expressão", a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT) publicou uma nota em apoio ao cantor e a atriz Renata de Carvalho, que interpreta Jesus na peça teatral que marcou uma controvérsia no estado.

Com mais de 300 organizações afiliadas, a ONG afirma que "os ataques e denúncias sofridos por Johnny Hooker são reflexos da intolerância e LGBTIfobia presentes na nossa sociedade". "Nesse sentido, entendemos o protesto do cantor, ao declarar que “Jesus é travesti sim”, como fundamental na luta contra a censura e silenciamento da população transexual e travesti", continua o texto.

Fundada em 1995, a ABGLT tem como missão Promover ações que garantam a cidadania e os direitos humanos para a comunidade e contribuindo para a construção de uma sociedade democrática, na qual nenhuma pessoa seja submetida a quaisquer formas de discriminação, coerção e violência, em razão de suas orientações sexuais e identidades de gênero.

ENTENDA
Em seu show, realizado na última sexta-feira (27), Johnny Hooker fez um discurso em defesa da peça Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, um monólogo em que Jesus é interpretado pela atriz transexual Renata de Carvalho. O espetáculo foi censurado após um imbróglio judicial entre desembargadores, o prefeito de Garanhuns e a Ordem dos Pastores Evangélicos do município. 

"E se Jesus voltasse agora à terra como uma travesti? Não era para amar ao próximo como a si mesmo? Estamos aqui num festival de falso viva à liberdade. Pois, eu quero dizer que Jesus também é travesti”, afirma Hooker. Em seguida, ele puxou um coro: "Ih ih ih, Jesus é travesti". A atitude dividiu o público presente e o cantor chegou a receber vaias. "Enfia a vaia no c*", reagiu o artista. O monólogo foi apresentado na cidade sob tensão na última sexta-feira (27), sem estrutura de som e iluminação.

Confira a nota na íntegra:

"ABGLT CONTRA CENSURAS LGBTI+
Por Johnny Hooker, Renata de Carvalho e todas as artivistas em defesa das orientações sexuais e identidades de gênero |

A Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT) vem, através deste, manifestar total apoio e solidariedade ao cantor e compositor pernambucano Johnny Hooker que, desde a última sexta-feira (27), tem sido alvo de ataques protagonizados por oportunistas religiosos, após protestar durante seu show no Festival de Inverno de Garanhuns (FIG) contra a tentativa de proibir o espetáculo "O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu", protagonizado pela atriz transexual Renata Carvalho, como parte da programação do festival. Após tentativas semelhantes de proibições em cidades como Jundiaí (SP), Salvador (BA), Porto Alegre (RS) e no Rio de Janeiro (RJ), a peça passou por batalha jurídica para compor a programação do festival pernambucano.

Acreditamos que as repetidas tentativas de censura contra a peça e os ataques e denúncias sofridos por Johnny Hooker são reflexos da intolerância e LGBTIfobia presentes na nossa sociedade. Renata Carvalho, atriz protagonista da peça, se posicionou em entrevista ao jornal O Globo, afirmando que “Jesus é tido como a imagem e semelhança de todo mundo, menos de nós pessoas trans”, levantando questionamento sobre a falta de tolerância e respeito com as pessoas trans e seus corpos. Nesse sentido, entendemos o protesto do cantor, ao declarar que “Jesus é travesti sim”, como fundamental na luta contra a censura e silenciamento da população transexual e travesti.

A ABGLT reconhece que artistas como Johnny, Renata e tantas outras tem emprestado sua arte para um ativismo em defesa de nossa luta e de nossos corpos, o que tem incomodado de sobremaneira o patriarcado e o machismo que reforçam as violações diárias a todas nós LGBTI . Por isso nos solidarizamos e nos colocamos a disposição para todo e qualquer tipo de apoio necessário. Estaremos sempre em defesa irrestrita a estas artistas e a todas que defendam a livre existência de nossas corporeidades. LGBTIfobicos não passarão!"



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