Polêmica FIG 2018: Peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu é novamente impedida de ser apresentada O espetáculo está sendo exibido sem a estrutura técnica do evento, de forma particular

Por: Diario de Pernambuco

Publicado em: 27/07/2018 21:23 Atualizado em: 27/07/2018 22:39

A peça é um monólogo e traz histórias bíblicas sob a perspectiva contemporânea. Foto: Reprodução/Facebook
A peça é um monólogo e traz histórias bíblicas sob a perspectiva contemporânea. Foto: Reprodução/Facebook

A peça teatral O evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, reinserida na programação oficial do 28º Festival de Inverno de Garanhuns (FIG) após ação do Ministério Público, foi novamente impedida de ser apresentada por meio da decisão deferida pelo desembargador Roberto da Silva Maia, com base no processo movido pela Ordem dos Pastores Evangélicos de Garanhuns e Região. 

Foto: Reprodução/Twitter
Foto: Reprodução/Twitter

O vereador do Recife, Ivan Moares Filho (PSOL), está presente no espetáculo e relatou através do Twitter que a atriz Renata Carvalho está atuando sem a estrutura do evento, de forma privada, para aproximadamente 100 pessoas. 

Atriz Renata Carvalho está atuando sem iluminação ou sonoplastia. Mais de 100 pessoas assistem e participam. Agora, espetáculo é interrompido para que se tirem os "toldos do festival". Ridículo!

— Ivan Moraes Filho (@ivanmoraesfilho) 28 de julho de 2018

 

Contei mais de dez motos e dezenas de PMs estão do lado de fora do salão de festas alugado por artistas para a peça "O Evangelho Segundo Jesus". Tempos difíceis. A peça começou agora, realizada de forma privada

— Ivan Moraes Filho (@ivanmoraesfilho) 28 de julho de 2018



Entenda o caso

Na última quinta-feira (26), o Ministério Público, através do desembargador Silvio Neves Baptista Filho negou o pedido de reconsideração realizado pelo Governo de Pernambuco e reiterou a decisão determinando o retorno do espetáculo à programação do evento. No caso de descumprimento da medida, o Estado e a Prefeitura teriam que pagar multa de R$ 50 mil. Segundo ele "A atração nada mais é do que um drama teatral, que busca conscientizar e estimular a reflexão sobre a discriminação social de uma minoria, especialmente das transexuais e travestis", escreveu o desembargador do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) na liminar.

 

Diante da resolução, na noite desta sexta-feira, após o espetáculo ter sido remarcado e com data definida, a Ordem dos Pastores Evangélicos moveu uma ação para barrar a decisão do MPPE, alegando que a peça desvirtua o ensinamento histórico-dogmático e viola o sentimento religioso. Segundo o entendimento do relator Roberto da Silva Maia, a encenação desvirtua a imagem de um profeta religioso, e "fomenta o ódio e a intolerância, máxime quando diz respeito a uma religião sabidamente conservadora e que valoriza sua historicidade e os escritos estanques
da Bíblia Sagrada". 

Confira o processo na íntegra: 


"SEXTA CÂMARA CÍVEL 
MANDADO DE SEGURANÇA N. 0008761-11.2018.8.17.9000
IMPETRANTE: ORDEM DOS PASTORES EVANGÉLICOS DE GARANHUNS E REGIÃO
IMPETRADO: EXMO. DESEMBARGADOR SÍLVIO NEVES BAPTISTA FILHO
Relator: Des. ROBERTO DA SILVA MAIA
DECISÃO INTERLOCUTÓRIA/OFÍCIO N.
63/2018 - GDRM

Trata-se de mandado de segurança impetrado em face de decisão interlocutória proferida nos autos do gravo de Instrumento n. 0008547-20.2018.8.17.9000, através da qual o Exmo. Desembargador Sílvio Neves Baptista Filho determinou ao Estado de Pernambuco a reinclusão, na grade de programação do Festival de Inverno de Garanhuns 2018 – FIG/2018, a peça teatral “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, sob pena de multa no valor de R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais). Diante disso, a ORDEM DOS PASTORES EVANGÉLICOS DE GARANHUNS E REGIÃO – OPEGAR, impetra o presente mandamus, defendendo, em síntese que: a) a peça retrata Jesus Cristo como uma figura transexual, desvirtuando o ensinamento histórico-dogmático e violando o sentimento religioso
de toda uma nação cristã; b) os muçulmanos preservam, igualmente, a imagem do profeta Maomé e, da mesma forma que a Alemanha proibiu atos públicos de grupos neonazistas e a França encerrou jornais muçulmanos ligados ao FIS argelino; c) a liberdade, muito embora deva ser valorizada, não pode ser empregada de maneira ilegítima, pois se trata de um valor relativo, de modo que, utilizada para fomentar o preconceito, atos de escárnio ou deturpação de pessoas e objetos de culto alheio, ela se encaminha para um cenário autofágico. Conclui afirmando que a peça viola o direito líquido e certo ao sentimento
religioso, ao retratar Jesus Cristo indevidamente. É o que importa relatar.

DECIDO.
Número do documento: 18072718174924200000004422110
A meu ver, assiste razão à parte impetrante. Com efeito, Jesus Cristo é a materialização de um profeta sobre cuja vida e ensinamentos, narrados na Bíblia Sagrada, giram todos os dogmas das religiões cristãs. Ao retratá-lo na figura de um personagem de orientação transexual, a pela peça teatral “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, os responsáveis por esta manifestação o desvirtuam de modo a causar veemente repúdio e, porque não, ódio da comunidade cristã, ao ponto de a discussão adentrar as portas do
Poder Judiciário. Sob o prisma jurídico, a discussão contrapõe os valores constitucionalmente consagrados das liberdades religiosa e de manifestação de pensamento. Nesse cenário, fazendo um juízo de ponderação entre tais direitos fundamentais, entendo que a liberdade de manifestação do pensamento deve ser plenamente garantida e exercida quando não for passível de
afrontar a paz social. O desvirtuamento de um profeta religioso, como dito, fomenta o ódio e a intolerância, máxime quando diz respeito a uma religião sabidamente conservadora e que valoriza sua historicidade e os escritos estanques da Bíblia Sagrada. Ressalto que não estou admitindo uma eventual legitimidade de atos de ódio daqueles que, sentindo-se
atingidos e utilizando-se de força bruta, se voltam contra aqueles que ousam alterar as verdades absolutas sob o ponto de vista religioso. Jamais a violência receberá meu aplauso.

O que vislumbro, sim, é que, ainda que ilegítima e ilegalmente, ao despertar sentimentos de repulsa, a peça traga à tona atos de violência que, muito embora se sabe não gozarem do apoio do cristianismo, foge o controle seja dos órgãos de repressão policial, do Poder Judiciário e, obviamente, dos ensinamentos e valores religiosos que são diuturnamente repassados aos fiéis. Desse modo, entre o intuito da livre manifestação teatral, de fomentar discussão sobre o tema, de sabida sensibilidade, e suas prováveis consequências, isto é, o surgimento (ou crescimento) de uma ideia de segregação, discriminação e de eventuais atos de violência – não necessariamente durante o próprio FIG 2018, mas futuramente, em eventos isolados -, aliada ao desvirtuamento de uma figura seguida por
milhões de pessoas por todo o mundo, o que a meu ver fere a liberdade religiosa, entendo que não existe um contexto favorável à encenação da peça “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, que deve ser excluída da grade de programação do Festival de Inverno de Garanhuns – FIG 2018.

Diante de todo o exposto, defiro o pedido liminar para suspender os efeitos da decisão interlocutória proferida pelo Exmo. Desembargador Sílvio Neves Baptista Filho nos autos do Agravo de Instrumento n. 0008547-20.2018.8.17.9000, como requerido na exordial.
Notifique-se a autoridade coatora a fim de que, no prazo de 10 (dez) dias, preste as informações que entender pertinentes.

Dê-se ciência à Procuradoria-Geral do Estado para, querendo, ingressar no feito.
Oficie-se, COM URGÊNCIA, o juízo da Vara da Fazenda Pública de Garanhuns, prolator da decisão interlocutória recorrida através do pré-falado Agravo de Instrumento, o Estado de Pernambuco e o Município de Garanhuns, comunicando o teor da presente decisão, para que adotem as providências necessárias a sua observância.

Após, dê-se vista ao Ministério Público para, querendo, opinar no prazo de 10 (dez) dias.
Após, à conclusão.

Publique-se. Intime-se. Cumpra-se.
Cópia da presente servirá como ofício.

Recife, 27 de julho de 2018.

Roberto da Silva Maia
Desembargador Relator"
  

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