saudade Dez anos sem Dercy Gonçalves, dama da comédia nacional Dercy morreu, aos 101 anos, vítima de complicações de uma pneumonia

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 19/07/2018 14:25 Atualizado em: 19/07/2018 13:46

Em meio a tantos homens, Dercy se destacou como uma humorista mulher. Foto: Reprodução/TV Globo
Em meio a tantos homens, Dercy se destacou como uma humorista mulher. Foto: Reprodução/TV Globo

Abandonada pela mãe aos 7 anos de idade e criada pelo pai alcoólatra, Dolores Gonçalves Costa tinha tudo para ter sido uma mulher amargurada, triste. Mas não foi essa a trajetória que ela escolheu. Com o nome artístico de Dercy Gonçalves, não se contentou em se alegrar e, por mais de 70 anos de carreira, divertiu o país inteiro com sua irreverência, seja no palco, seja no cinema foram mais de 25 filmes. Na televisão, Dercy dividiu-se entre novelas poucas, na verdade, como Deus nos acuda e Que rei sou eu?, humorísticos e programas de auditório, em que dava a opinião sobre o que queria e de uma maneira muito característica: sem papas na língua.

Há 10 anos, em 19 de julho de 2008, Dercy morreu, aos 101 anos, vítima de complicações de uma pneumonia, que evoluiu para uma infecção generalizada. Com muitas reviravoltas, a vida de Dercy deu origem à minissérie Dercy de verdade (2012), escrita por Maria Adelaide Amaral, também autora da biografia Dercy — De cabo a rabo, lançada pela editora Globo.

Na segunda fase da atração televisiva, Dercy foi interpretada por Fafy Siqueira. “Dercy é precursora em todos os sentidos. Ela é a inventora da gargalhada brasileira”, afirma Fafy, em entrevista ao Correio. Ainda tinha o fato de Dercy ser uma mulher no humor, meio dominado até então por homens, e, ainda por cima, falando palavrões, o que, para época, era um escândalo. “Acho engraçado quando as pessoas falam até hoje dos palavrões dela. As músicas que tocam no rádio do carro são muito mais pornográficas”, reflete.

Fafy conta que seu primeiro contato com a artista Dercy Gonçalves foi por meio do pai, que era fã dos filmes de Dercy. “Na década de 1950, ele tinha um restaurante, no Rio de Janeiro, e muitos artistas iam lá. Não existia isso de artista não pagar. Mas da Dercy ele não cobrava, porque gostava muito dela”, conta Fafy.

Fafy se aproximou da mulher Dercy aos poucos: “Ela sempre me prestigiava no teatro e vice-versa. Íamos aos shows uma da outra”. O elo definitivo veio em 2007, quando Fafy foi convidada para viver Dercy num espetáculo de teatro que seria dirigido por Marília Pêra. “Aí, éramos amigas. Ela me convidava para comer bolo na casa dela”, conta. O projeto não saiu do papel, mas deu origem à minissérie Dercy de verdade, cinco anos mais tarde.

“Foi o trabalho mais mágico que fiz”, revela Fafy, para quem a conexão com Dercy nas gravações era de uma força assustadora. “Eu ouvia a Dercy falando comigo. Fiquei até mal-humorada com ela, porque Dercy era uma mal-humorada diferente. Ela era doce ao mesmo tempo, sempre solícita aos amigos. Me entreguei àquele trabalho, fui ao túmulo dela e tive um ataque de riso, fui ao museu dela e tive um piripaque. Foi intenso”, recorda-se Fafy, que lembrará a data de hoje como Dercy sempre quis que fosse: comemorando. “É a cara dela lembrar disso tudo com alegria, dando risada”, afirma a atriz, que adianta: estará hoje no Vídeo show prestando homenagem a Dercy e participará do Conversa com Bial, semana que vem, falando sobre a colega.


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