Televisão Samantha!, primeira comédia nacional da Netflix revisita cultura pop dos anos 1980 Série acompanha ex-estrela mirim buscando reconquistar a fama nos tempos atuais

Por: Breno Pessoa

Publicado em: 06/07/2018 10:10 Atualizado em: 06/07/2018 10:01

Trupe infantil ficcional guarda semelhanças grupos mirins brasileiros dos anos 1980. Foto: Netflix/Divulgação
Trupe infantil ficcional guarda semelhanças grupos mirins brasileiros dos anos 1980. Foto: Netflix/Divulgação

São Paulo
– Ela foi um sucesso nos anos 1980, uma das estrelas mirins mais queridas do país e depois, na vida adulta, tenta reconquistar o espaço na mídia e sentir novamente o sabor da fama. Poderia ser sobre algum dos ídolos infantis do passado que vez ou outra reaparecem na TV ou em shows pautados pela nostalgia, mas é a sinopse de Samantha!, nova série da Netflix, que estreia nesta sexta-feira, com todos os sete episódios da primeira temporada disponíveis.

Primeira comédia nacional do serviço de streaming – e a terceira série original feita no país –, a produção parece surfar na onda nostálgica da televisão, filão particularmente bem explorado pela Netflix, a exemplo do hit Stranger things. Apesar de esse tipo de imersão no passado recente da cultura pop passar longe de ser algo inédito, há certo frescor na proposta por se tratar do cenário nacional, até agora pouco revisitado no audiovisual brasileiro. Um dos poucos exemplos é o filme Bingo, o rei das manhãs (2017), de Daniel Rezende, que espécie de cinebiografia de Arlindo Barreto, o mais icônico dos intérpretes do palhaço Bozo.

Confira o trailer:


Coincidentemente, a personagem-título da série é vivida por Emanuelle Araújo, que integrou o elenco de Bingo. A protagonista, Samantha, fez sucesso como apresentadora e cantora no grupo mirim Turminha Plimplom, que reserva semelhanças com algumas trupes infantis oitentistas brasileiras, em particular o Balão Mágico. Ambientado nos tempos atuais, o programa mostra a já não tão famosa tramando uma maneira de retornar aos holofotes em um momento marcado por celebridades da web uma sociedade mais politicamente correta.

"Eu nasci no final dos anos 1970, então os 1980 são muito forte no meu imaginário. Eu fui uma criança que assistiu aos programas infantis, mas busquei não ficar só nisso. Acho que Samantha! fala de um universo, não só da televisão, fala de comportamento", ressalta Araújo, 41. Sobre a composição da personagem, a atriz diz que também trouxe outras referências pessoais não só da infância, mas também da adolescência, já nos anos 1990. "Fui uma pré-adolescente do rock, do punk", recorda, sobre as lacunas que tentou preencher, já que a protagonista, nesta primeira temporada, é retratada apenas na infância e na vida adulta. "Eu pensava como deve ter sido a adolescência, perder a fama e se ver nesse não sucesso", recorda.

E embora a personagem guarde semelhanças com a biografia da ex-Balão Mágico Simony, a atriz nega uma referência direta. "Por incrível que pareça, eu lembrei muito da minha experiência de ver televisão em Salvador", assegura. "Tem um certo regionalismo que coloquei em Samantha, pelo jeito de se comportar, algo não tão universal como a Xuxa. Achei bom ela ser meio provinciana", complementa.

Enquanto tenta emplacar novamente a carreira, Samantha também acompanha uma mudança em sua rotina: a volta do marido, Dodói (Douglas Silva), ex-jogador de futebol que passou muitos anos preso e nunca havia, de fato, dividido a casa com a esposa. O núcleo familiar é complementado pelos filhos do casal, Cindy (Sabrina Nonato), adolescente inteligentíssima e socialmente engajada, e Brandon (Cauã Gonçalves), um típico garoto prodígio com pouca sociabilidade. Completam o elenco principal Laila (Lorena Comparato), webcelebridade que vira interesse amoroso de Dodói, Marcinho (Daniel Furlan), empresário de Samantha, e Tico (Rodrigo Pandolfo), outro ex-integrante da Turminha Plimplom.

"Nesse caso, olhei para as bandas mirins dos anos 1980, que eram estrelas pop da época e onde eles (os integrantes) estão agora. Dei uma fuçada, para entender, mas não tive uma referência muito clara", diz Pandolfo. Ele destaca, no entanto, que as lembranças da infância trazem certa inspiração, citando Trem da Alegria, Balão Mágico e Mara Maravilha, além dos desenhos animados da época. "É um personagem que carrega uma infantilidade, quase parado no tempo", acrescenta.
Emanuelle Araújo entrega personagem cáustica mas carismática. Foto: Netflix/Divulgação
Emanuelle Araújo entrega personagem cáustica mas carismática. Foto: Netflix/Divulgação

[A comédia na era das maratonas
Da mesma forma como mudaram os hábitos de assistir séries, estimulando o binge-watching, o hábito de ver vários episódios na sequência, os serviços de streaming estão influenciando o modo de produção dos shows. Se em alguns gêneros a estrutura de uma grande história fracionada em capítulos já é algo usual, o modelo ainda não é tão difundido na comédia, principalmente nas sitcoms. Assistir, seguidamente, a vários episódios de uma produção pensada originalmente para exibição semanal na TV, não raro, pode evidenciar a repetição de certas estruturas.

"É um desafio novo nas mãos fazer uma série de comédia na época do binge-watching", diz Felipe Braga, criador de Samantha!. "É cultura de audiência totalmente diferente, que assiste a temporada da série de uma vez só, no final de semana, ou em uma noite", acrescenta. "Isso, para comédia especificamente, é um desafio muito grande. Porque tradicionalmente a comédia tende a não ter transformação de personagens ao longo das temporadas, eles têm os mesmos defeitos e as mesmas questões e você 'restarta' isso a cada episódio", analisa.

O autor diz que o hábito de maratonar tem levado roteiristas a pensar as produções televisivas de maneira mais similar ao que se faz aos filmes. "Quando as pessoas começam a assistir a uma série de uma vez só, acaba havendo uma pressão de dramatização na história, de ter um arco dramático, de personagens que querem alguma coisa, que conseguem ou não, e se transformam um pouco", observa.

"A gente conseguiu absorver um pouco os desafios que nossos amigos passaram fazendo a primeira (3%) e a segunda (O mecanismo) séries originais", diz a produtora Rita Moraes a respeito do aprendizado com os realizadores de outras produções nacionais do serviço de streaming. "Mas eles estavam circulando em universos diferentes", comenta. Para ela, mais desafiador do que encontrar um apelo universal para Samantha! (o show vai estrear nos mais de 190 países onde a Netflix funciona) era encontrar o ritmo certo para narrativa de uma comédia a ser maratonada. "É um gênero que ninguém experimentou muito, é um desafio único pra gente".

*O repórter viajou a convite da Netflix

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