Música Novo álbum de Silva celebra ritmos nacionais para redescobrir o Brasil Capixaba lança quinto disco de estúdio, Brasileiro, com participação de Anitta e questionamentos para o período traumático que o país enfrenta

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 04/06/2018 16:40 Atualizado em: 05/06/2018 10:26

Silva explora sonoridades, indo do erudito ao popular em disco composto por 13 faixas. Foto: Wilmore Oliveira/Divulgação
Silva explora sonoridades, indo do erudito ao popular em disco composto por 13 faixas. Foto: Wilmore Oliveira/Divulgação

"Como é que a gente vai ser brasileiro?". É com esse questionamento que Silva inicia Brasileiro, seu quinto álbum de estúdio. A pergunta incessante acaba servindo para o desenvolvimento de toda a obra. De um lado, temos um país que atravessa um período traumático e necessita redescobrir sua identidade. Do outro, um homem que usa da brasilidade para se renovar como artista. O capixaba de 30 anos deixou de lado sua bagagem estrangeira e mergulhou em ritmos nacionais para se legitimar como um expoente da nova geração da MPB. Ele ainda flerta com o mainstream na parceria com Anitta em Fica Tudo Bem.


Durante as 13 canções, o cantor explora inúmeras sonoridades que fizeram parte da construção de nossa identidade musical, indo do erudito ao popular. A bossa nova de João Gilberto, o axé noventista de Daniela Mercury e o pagode romântico de Raça Negra aparecem e dialogam sob a ótica emepebista de Adriana Calcanhoto e Marina Lima. A vontade de criar sons com base no Brasil veio da influência de Marisa Monte - o último disco do artista antes de Brasileiro foi Silva canta Marisa (2016), composto por covers da carioca. Ele aproveita o momento para exalar todo o talento como músico, ficando responsável por boa parte dos instrumentais - incluindo piano acústico, violão, baixo, violino e percussão.

Nas composições, Silva não entrega soluções para a pergunta inicial do disco, mas suscita reflexões com algumas críticas tênues. Em Caju, ele fala sobre pertencimento (Sou nascido e moro nessa terra) e fome (Guerra é panela sem feijão). Em Let Me Say, ironiza o “exílio” dos brasileiros que, por causa da crise, fugiram para Lisboa ou Miami. A faixa Brasil, Brasil encerra o disco, assim como a abertura, com uma pergunta: “Quem conhece o Brasil?”. Embora o intérprete não nos entregue a resposta, é possível dizer que os questionamentos o fizeram entregar seu trabalho mais diverso até então.

Brasileiro
está disponível nas principais plataformas de streaming.

Foto: Wilmore Oliveira/Divulgação
Foto: Wilmore Oliveira/Divulgação
» ENTREVISTA // SILVA 
'A música para mim é um instrumento de esperança'

Estamos passando por um momento difícil do país. Por que apostar no título Brasileiro e, de certa forma, exaltar a brasilidade?
Sempre procurei enxergar as coisas de um ponto de vista positivo. Como músico, você pode escolher o caminho de entediar as pessoas com seu próprio tédio e falar sobre como a vida é difícil. Mas para mim, a música é um instrumento de esperança, prefiro me sentir assim ao tocar. Acho importante trazer sorrisos. Isso não é ser alienado, é lutar para mudar alguma coisa. É a arma que eu tenho. Apesar disso, tem partes no disco que eu questiono “como é difícil ser brasileiro”. Mas isso é bem mais uma crítica ao grupo de pessoas que costuma crescer financeiramente e ir embora do país, sem fazer nada para contribuir.

O que esse álbum representa para você?
Esse é o disco que eu sempre quis fazer. Eu era muito jovem quando comecei, agora estou completando 30 anos. Muita coisa muda, eu me importava com o que as pessoas pensavam, queria mostrar coisas mais “diferentonas”. Hoje, me preocupo mais com a música que acho bonita, redonda e emocione as pessoas. Essa mudança veio com a idade, mas também porque consegui tocar com meus ídolos, como a Gal Costa, em 2015, e a Marisa Monte, em 2016. Aprendi muito como cantor, voltei a estudar música e resgatei essa coisa de tocar. Em todo o disco sou eu que toco.

O conceito visual do trabalho mostra um Brasil bem comum, sem filtros. Por quê?
Depois de muita terapia acho que cheguei em uma fase em que olho para amigos músicos e acho eles “montados”, sabe? Essa coisa mais produzida. Acho lindo, só que estou justamente na fase de me desconstruir mais. Sempre fui muito controlador com meu trabalho, mas ando pensando muito. Resolvi me permitir mais e ser intuitivo. Estou fazendo tudo do jeito que sou, como me visto, como ando na rua. Exercitando minha naturalidade. E estou gostando.

Por que colaborar com a Anitta?
Acho ela uma artista incrível. Eu venho de um meio da música erudita e sempre ouvi pessoas falando que existe a “música boa”. Esse termo sempre me incomodou muito. E a música de agora, do nosso tempo? Não é boa? Para mim, a Anitta é a resposta. É por isso que a convidei. Ela quebrou muitos paradigmas de mercado e representatividade. Além disso, ela é da ‘quebrada’, assim como eu. Sou de Consolação, um bairro simples de Vitória (ES). Lá tinha igreja evangélica, baile funk, terreiro de umbanda. Então não gosto de elitizar algumas coisas e menosprezar outras.

E como foi trabalhar ao lado dela?
Maravilhoso. Nós do meio alternativo temos um processo mais devagar. Eu fui criando público e crescendo aos pouquinhos. Meu processo é lento. Já a Anitta é um furacão. A gente nem se conhecia, mas ela pegou a música, adorou, falou que queria fazer clipe e gravou a canção duas semanas depois. Nos conectamos por causa da música mesmo, nem foi por lobby. No Instagram, ela tem 28 milhões de seguidores e eu 190 mil. Não tenho nada para oferecer (risos). Fiquei feliz.



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