Música 'A canção é um gênero que deixou de ser protagonista', diz Oswaldo Montenegro. Confira a entrevista Cantor traz a Pernambuco o espetáculo Serenata, inspirado nos primórdios de sua trajetória musical no interior de Minas Gerais

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 14/04/2018 14:11 Atualizado em: 14/04/2018 15:32

Oswaldo Montenegro fala do ecletismo de sua obra, retorno a origens e das características singulares do espetáculo. Foto: Livio Campos/Divulgação
Oswaldo Montenegro fala do ecletismo de sua obra, retorno a origens e das características singulares do espetáculo. Foto: Livio Campos/Divulgação

Um rapaz quebra o silêncio noturno da rua ao tocar canções românticas para uma donzela. Ela assiste tudo pela janela de seu quarto, com um semblante apaixonado. A cidade histórica de São João del-Rei (MG), fundada no início do século 18, certamente assistiu a cenas como essa inúmeras vezes. 

A tradição da serenata no local é tão forte que foi responsável por possibilitar os primeiros contatos de Oswaldo Montenegro com a música. Ainda criança, o artista costumava acompanhar seus pais em cantorias do gênero. Com flautas, bandolins e violões, eles costumavam levar música para as noites locais.

Na tentativa de resgatar o clima boêmio dessa época, o cantor de 62 anos idealizou o espetáculo Serenata, que chega em Pernambuco neste sábado. O show será realizado no Teatro Guararapes (Avenida Professor Andrade Bezerra, Salgadinho, Olinda), às 21h30. Os ingressos custam R$ 164 (cadeira), R$ 82 (meia), R$ 114 (balcão) e R$ 57 (meia), à venda na bilheteria do teatro, lojas Ticketfolia e no site www.eventim.com.br. 

No palco, Montenegro será acompanhado pelos músicos  Madalena Salles (flauta), Sergio Chiavazzoli (bandolim e violão) e Alexandre Meu Rei (violão). Com 24 músicas, o repertório vai passear entre canções inspiradas pelas serenatas e sucessos de seus 40 anos de carreira - que incluem importantes registros da MPB, como Lua e flor, A lista e Bandolins.

Em entrevista exclusiva ao Diario de Pernambuco, Oswaldo Montenegro fala do ecletismo de sua obra e do retorno a origens e das características singulares do espetáculo, no qual, em determinado momento, os músicos passam a tocar em meio à plateia, e do seu trânsito por diferentes expressões artísticas, como o cinema, ao qual também tem se dedicado.  

Entrevista - Oswaldo Montenegro // Cantor

De onde surgiu a ideia de fazer um show como o Serenata?
A gente tende a buscar sinceridade e vai descobrindo que, para o artista, ser sincero não é cantar o que ele gosta, mas cantar o que ele é. Sou um compositor que sempre amou o blues, o rock e o baião. Mas, acima de tudo, o que componho é filho das serenatas de São João del-Rei, em Minas Gerais. Quando, aos oito anos, saía com meus pais por aquelas ruelas, ouvindo-os cantar com os amigos, defini o que eu seria pro resto da vida. Esse show é uma homenagem a isso. É um reconhecimento de que estou realmente em casa, ao som dos violões, da flauta e do bandolim. Quanto à intimidade, ele tem que ser assim, porque essa é a maior característica da seresta. Há um momento, inclusive, em que os músicos tocam no meio da plateia.

Qual é a grande vantagem, em sua visão, de fazer uma apresentação nesse estilo?
Não ter uma relação verticalizada com a plateia. Não ter a obrigação de preencher o espaço do mito. Não exercer a distância como mérito e, sim, usufruir da proximidade com o público, com prazer e qualidade.

As serenatas remetem à sua infância. Quais os músicos que você ouvia nessa fase da vida?
Os boêmios da cidade de São João del-Rei. Francesco Caputto, que era um italiano que tinha fugido da guerra para o Brasil, Mendes, Chico Bagunça, Almeida, Mestre Urubu, músicos locais. Esses foram os meus primeiros ídolos.

Já pensou em lançar, em breve, algum novo disco neste mesmo estilo, só que mais intimista?
Não pensei nisso, mas é uma possibilidade bem bacana.

Nos últimos anos você direcionou sua carreira ao audiovisual. Por quê?
Sempre trabalhei misturando teatro, música e dança. De nove anos pra cá, me joguei no cinema, que permite unir tudo. As fronteiras entre as artes estão cada vez mais diluídas. Além disso, canção é um gênero que foi a grande estrela do século 20, mas não é mais a protagonista. Hoje ela é trilha de filme, novela, jogos da internet. 

O audiovisual pode “ajudar” a música nos tempos atuais?
O audiovisual é o lugar onde a canção pode morar, sem precisar ser um megasucesso. Ali a música pode existir com dignidade, mesmo que seja desconhecida de uma grande massa, como nos períodos anteriores ao século 20, em que a música se prestava a funções. Alegrava festas, recheava missas etc. Só nos 1900 ela passou a ter um valor em si. Éramos garotos que ouviam um disco inteiro de olho fechado. Hoje, as pessoas “veem” música.



Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.