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Celebração Olinda sob o viés da arte: no aniversário da cidade, artistas imaginam diferentes representações da cidade Cidade pernambucana completa 483 anos neste dia 12 de março

Por: Fellipe Torres - Diario de Pernambuco

Publicado em: 12/03/2018 17:30 Atualizado em: 12/03/2018 16:31

Samarone, Trummer e Carelli: visões diferentes de Olinda. Fotos: Arquivo/DP
Samarone, Trummer e Carelli: visões diferentes de Olinda. Fotos: Arquivo/DP


Cearense há muitos anos radicado em Pernambuco, o poeta Samarone Lima se mudou para Olinda há exatamente um ano: foi recebido com música e festejos no aniversário da cidade. A relação com a Marim dos Caetés se tornou cada vez mais afetiva, a ponto de ele resgatar os versos de Carlos Pena Filho para homenageá-la às vésperas dos 483 anos: “Olinda é só para os olhos,/ Não se apalpa, é só desejo/ Ninguém diz: é lá que eu moro/ Diz somente: é lá que eu vejo”.

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Mas nem só de belezas é feito o município: nele, a artista plástica Marisa Gatis enxerga decadência, destruição e abandono. A cidade, portanto, seria traduzida em uma paisagem como a do filme pós-apocalíptico Mad Max, de cenário bastante caótico. Tal realidade, para Vincent Carelli, cineasta francês radicado em Olinda, poderia ser contrastada com a faceta carnavalesca que em todos os anos, sem exceção, transforma a cidade Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade, dando origem a um documentário. 

Já o professor de teatro e dramaturgo Luís Augusto Reis enxerga nas performances do lendário grupo Vivencial Diversiones, atuante nas décadas de 1970 e 1980, uma boa representação para Olinda: “Com toda a precariedade, com todas as dificuldades, a cidade tem uma poesia humana que se sobrepõe, que faz a gente voltar a ela”. A cidade é, portanto, como sugere o músico Fábio Trummer: “sincretísmica”, evolutiva, étnica, popular, guerreira, poética, atlética, plural. 

Olinda ou Mad Max? Foto: Warner Bros/divulgação
Olinda ou Mad Max? Foto: Warner Bros/divulgação


Nas artes visuais
A OLINDA de Marisa Gatis Arcoverde, artista plástica

São varias as visões que tenho de Olinda. A visão de infância, de quando morava em uma casa no bairro dos Bultrins, em um local bem alto, de onde eu via o mar. Era a visão do infinito, do mar, dos coqueiros. Olinda era meio selvagem em meados da década de 1970 e no começo de 1980. Depois, quando vinha passar as férias em Jardim Atlântico, tinha a visão do descampado, do coqueiral, da mata de caju, onde a gente pegava peixinho na poça de lama, nos córregos. Quando me tornei adolescente, passei a curtir Olinda das farras, do maracatu, do Bar da Rampa. Já adulta, passei a enxergar Olinda destruída. Todo mundo explora Olinda. E, ao mesmo tempo, ela não é zelada, cuidada. Os lugares que você viu no passado estão acabados, as praias destruídas. Você não vê mais o mar como infinito. 
Os monumentos históricos estão destruídos, a cidade está abandonada. Não só a Cidade Alta, mas todo o contexto de Olinda. Então, seria uma paisagem como a do longa-metragem Mad Max (distopia de George Miller), com depósito de carros de um lado e um monte de concessionárias de outro, um cenário caótico, bem de filme pós-apocalíptico. Não é bonito, não é agradável. A entrada da cidade é feia. Tenho recordações boas, mas isso me dói. Faria uma arte de protesto. Mas também gostaria de fazer uma coisa bem lúdica, voltada para o público infantil. Retrataria imagens da minha infância, porque é muito triste mostrar a cidade para a nova geração do jeito que está hoje. Falta chegar e dizer: “Olinda já foi isso”. Hoje você olha e se pergunta o que aconteceu com a cidade. Ficou só no imaginário de quem viveu. 

Folia em Olinda: marca da cidade. Foto: Arquivo/DP
Folia em Olinda: marca da cidade. Foto: Arquivo/DP


Na telona
A OLINDA de Vincent Carelli, cineasta 

O longa-metragem que faria seria um cruzamento dos extremos da cidade. Olinda, por exemplo, tem toda uma população antiga, tem seus loucos. O carnaval todos os anos homenageia as peças raras do município. Quase relíquias do Sitio Histórico. Sua pobreza, sua miséria, tudo isso ganha uma versão extremada durante o período de Momo. Olinda é uma imagem, um sonho de paraíso para os brasileiros e, ao mesmo tempo, mobiliza a economia dessa miséria, da pobreza. O filme seria um documentário nesse sentido. Um retrato de uma realidade cheia de facetas. E extremos. 

Vivencial Diversiones faz parte da memória cultural da cidade. Foto: Ana Farache/divulgação
Vivencial Diversiones faz parte da memória cultural da cidade. Foto: Ana Farache/divulgação


Nos palcos
A OLINDA DE Luís Augusto Reis, dramaturgo

Olinda seria um espetáculo do Vivencial Diversiones, que foi de Olinda, da Ilha do Maruim, em Peixinhos. Com toda a precariedade, com todas as dificuldades, a cidade tem uma poesia humana que se sobrepõe, que faz a gente voltar a ela, assim como as pessoas voltavam ao Vivencial. Elas voltavam em busca de uma essência humana, embora pauperizada, precarizada, marginalizada... Mas com poesia. Olinda é cheia de contradições, de uma grande diversidade humana e também temporal: Olinda tem vários tempos, o novo e o antigo. É uma cidade que seria um eterno espetáculo. 

Cultura olindense ressaltada por Trummer. Foto: Arquivo/DP
Cultura olindense ressaltada por Trummer. Foto: Arquivo/DP

No som
A OLINDA de Fábio Trummer, músico

Seria como hino de uma nação independente, recreativa, anárquica multicultural, social, “sincretísmica”, evolutiva, étnica, popular, guerreira, poética, atlética, plural, paranormal, polirrítmica, futurista, marítima e continental, carnavalesca unidos do fim e começo, de um ser celestial e infernal do imaginário criativo do seu povo. Salve Olinda!



Literatura
A OLINDA de Samarone Lima, poeta 

O grande poeta pernambucano Carlos Pena Filho (advogado, jornalista e considerado um dos expoentes da poesia do estado no século 20, autor de Memórias do boi Serapião e A vertigem lúcida), com toda a razão poética, disse verdades eternas sobre a cidade de Olinda: “Olinda é só para os olhos,/ Não se apalpa, é só desejo./ Ninguém diz: é lá que eu moro./ Diz somente: é lá que eu vejo”. Por esses descaminhos do destino, justamente no dia 12 de março do ano passado, um domingo de festa na cidade, entrei numa casa azul, vertiginosamente azul. Eu me encantei, abri um modesto sebo e recomecei a vida. É, meu querido Carlos, eu tenho a felicidade de dizer que, em Olinda, desejo, moro, e vejo. Acredito que viverei aqui muitos anos. E que eles serão azuis.


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