Cinema Poderoso e divertido, Pantera Negra entrega aventura engajada Filme é um respiro de diversidade entre as produções inspiradas nos quadrinhos

Por: Breno Pessoa

Publicado em: 15/02/2018 09:00 Atualizado em: 30/08/2018 16:31

Estética afrofuturista é um elementos que mais se destacam no filme. Foto: Marvel Studios/Divulgação
Estética afrofuturista é um elementos que mais se destacam no filme. Foto: Marvel Studios/Divulgação

Às vezes a cultura pop pode servir como espaço de debate e reflexão a respeito de temas sociais. Foi assim com a HQ do Pantera Negra nos anos 1960 e é agora com a adaptação cinematográfica do personagem. Sem subterfúgios ou alegorias, o longa-metragem é algo além de uma história de super-herói e explora, de maneira assertiva, em questões raciais e de representatividade.

Com elenco e profissionais envolvidos com a produção majoritariamente negros, o filme é exceção na histórica e predominantemente caucasiana indústria de blockbusters. Dirigido por Ryan Coogler (Creed: Nascido para lutar), que também assina o roteiro ao lado de Joe Robert Cole, Pantera Negra entrete ao mesmo que faz uma necessária crítica ao establishment branco e colonialista ainda em vigor.

O elemento central dessa jornada é o príncipe T’Challa (Chadwick Boseman), que se prepara para assumir o trono da fictícia nação africana de Wakanda após a morte do pai, o rei T'Chaka (John Kani). Ao regente, cabe também a tarefa de assumir o manto do Pantera Negra, espécie de guardião ancestral da nação, que ganha forças e habilidades sobre-humanas após ingerir o extrato de uma espécie rara de flor nativa. A transição não se dá sem resistência e o herói precisa enfrentar ameaças como a dos vilões Garra Sônica (Andy Serkis) e, principalmente, Erik Killmonger (Michael B. Jordan), que representa um contraponto à visão pacifista de T’Challa.

Enquanto Pantera Negra defende abordagens pacíficas, Killmonger enxerga na violência a saída para superar a opressão centenária contra os negros. Sem maniqueísmos, Killmonger mostra motivações razoáveis e profundidade acima da média das típicas ameaças para super-heróis. É algo similar à dualidade de Charles Xavier e Magneto, em X-Men. Mesmo com um amplo número de personagens, todos são bem construídos e bem aproveitados.

O humor, por vezes excessivo em produções da Marvel, está presente, mas é usado de forma moderada e assertiva, sem tirar o peso de acontecimentos dramáticos. Um dos mais longos títulos do estúdio, com 2h14, o filme tem ótimo ritmo e cenas de ação competentes. Enfim, o longa possui um equilíbrio raramente visto nos títulos do estúdio e certamente figura entre os melhores já lançados com o selo da editora.

Se destaca também o figurino criado por Ruth E. Carter, inspirado no visual estabelecido por Jack Kirby (1917-1994), cocriador do personagem ao lado de Stan Lee. De aspecto vibrante e original, as vestimentas das tribos e personagens harmonizam ao eficiente design de produção, compondo um cenário mítico e também tecnológico da Wakanda. Essa dualidade é vista ainda na trilha sonora de Ludwig Göransson, com supervisão de Kendrick Lamar, que alterna entre músicas africanas e sons eletrônicos. Pantera Negra é um necessário respiro de diversidade nos cinemas, cujo personagem-título não é o único herói e o grande poder visto em tela não tem a ver com habilidades extraordinárias. A força vem da resistência e das raízes.

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Embora o personagem tenha sido apresentado em Capitão América: Guerra civil (2016), o filme contextualiza bem os acontecimentos anteriores relacionados ao herói de Wakanda e não exige que os espectadores tenham visto qualquer outra produção da Marvel. O presidente da Marvel Studios, Kevin Feige, afirmou recentemente em entrevista à Variety que, embora não tenha sido confirmado ainda, o anúncio da sequência de Pantera Negra é mera formalidade. Feig também disse que deseja o retorno de Ryan Coogler na direção.

As mulheres de Wakanda
Outro aspecto da representatividade bastante explorado no filme é relacionado à presença feminina. O rei T’Challa é cercado por mulheres fortes e independentes, todas com expressivo tempo de tela e importância para trama e nenhuma delas parece ter as existências gravitando em torno do protagonista. A chefe da guarda real, Okeye (Danai Gurira), lidera um time formado apenas por guerreiras e é responsável por algumas das sequências de lutas mais empolgantes, além de servir como uma espécie de conselheira para o jovem líder.

As mulheres representam não só a força, como também o intelecto: Shuri (Letitia Wright), a irmã de T’Challa é responsável por administrar o bem mais precioso da nação, o metal vibranium, um material praticamente indestrutível existente apenas em Wakanda. Utilizado das mais diversas maneiras possíveis, o mineral abundante é indispensável na confecção dos artigos tecnológicos wakandanos. Inventora e cientista, Shiri é a criadora da armadura e outros equipamentos utilizado pelo Pantera Negra.

Completando o núcleo principal de mulheres, a espiã Nakia (Lupita Nyong'o) é a ex-namorada de T’Challa. Por discordar da neutralidade do reino de Wakanda em relação a problemas que atingem outras nações africanas, ela tenta fazer a diferença para negros vítimas de injustiças e atrocidades.

Em 2017, as personagens femininas do universo do Pantera Negra ganharam uma HQ própria, o título Black Panther: World of Wakanda. Foi a primeira série da Marvel escrita por autoras negras, Roxane Gay e Yona Harvey. Alitha E. Martinez e Afua Richards, responsáveis pela arte, também são afrodescencentes.

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