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Destaque Como artistas anões rompem preconceito e conquistam mais espaço na TV Atores com nanismo dizem que o próximo passo é serem escalados para papéis independentemente de sua altura

Por: Portal Uai - Associados

Publicado em: 06/01/2018 13:22 Atualizado em:

Juliana Caldas interpreta Estela de O outro lado do paraíso, e Leonardo Reis, o Gigante Léo, protagonizou o filme Altas Expectativas. Foto: Globo/Divulgação e Globo Filmes/Divulgação (Foto: Globo/Divulgação e Globo Filmes/Divulgação)
Juliana Caldas interpreta Estela de O outro lado do paraíso, e Leonardo Reis, o Gigante Léo, protagonizou o filme Altas Expectativas. Foto: Globo/Divulgação e Globo Filmes/Divulgação


O cantor e compositor Nelson Ned (1947-2014) foi provavelmente um dos primeiros artistas com nanismo (transtorno que se caracteriza por uma deficiência no crescimento, que resulta numa pessoa com baixa estatura se comparada com a média da população de mesma idade e sexo) a despontar no Brasil. O “pequeno gigante da canção”, apelido que ganhou de Paulo Gracindo e que dá nome à sua biografia, fez sucesso não só por aqui,  como também no exterior. Chegou a vender 1 milhão de discos nos Estados Unidos. A baixa estatura (ele media 1,12m) não foi empecilho para o mineiro de Ubá brilhar.



Recentemente, outros artistas pequeninos no tamanho mas grandes no talento estão conquistando espaço no cinema, nas novelas, no teatro e nas passarelas. O exemplo mais notório é o de Juliana Caldas, a Estela de O outro lado do paraíso. Na trama global das nove, ela sofre bullying da própria mãe, Sophia (Marieta Severo). Paulista, 30 anos, a atriz afirma: “Ainda lutamos muito para ter visibilidade e, mais ainda, para fugir dos rótulos. Sonho com o dia em que eu, outros pequenos e pessoas com deficiências em geral seremos vistos apenas como seres humanos e profissionais, e não com ressalvas pelas suas características físicas. A novela foi uma chance maravilhosa para contribuir para esse processo de conscientização e para mostrar meu trabalho”.

Juliana conta que não pensava em seguir a carreira de atriz desde cedo. “Gosto muito de animais, então queria ser veterinária. Mas sempre tive uma inclinação para interpretar. Na adolescência, uma amiga me convidou para fazer alguns trabalhos como atriz. O bichinho da arte me mordeu e, desde então, não parei mais. Não tenho artistas na família, mas todo mundo sempre me apoiou nas minhas escolhas.” O pai e o irmão da atriz também têm nanismo.

Na novela, a personagem de Juliana é disputada por dois homens: Juvenal (Anderson Di Rizzi) e Amaro (Pedro Carvalho). Ela conta que o público tem sido muito carinhoso. “Está sendo um grande prazer interpretar a Estela, pelo potencial de impacto social que a personagem tem. Ela nos faz pensar, principalmente, sobre a forma como lidamos com as dificuldades. Apesar do nanismo, ela busca levar a vida da maneira mais normal possível. Gosta de estudar, de se vestir bem, tem bom humor e espera sempre o melhor das pessoas. Acho que a Estela nos ensina a encarar a vida com otimismo. Na verdade, o que desejo com esse papel é que respeitem o próximo. Aí, sim, será uma boa resposta do público para mim.”

Protagonista



Leonardo Reis, ou melhor, Gigante Léo, é outro que está se notabilizando. O humorista de 38 anos e 1,10m, que despontou quando venceu o Prêmio Multishow de Humor, em 2012, acredita que as pessoas com baixa estatura têm conquistado cada vez mais espaço e afirma que ser pequeno é um detalhe. “O Nelson Ned, por exemplo, não fez sucesso porque era anão, mas porque tinha um vozeirão incrível e muito talento. Não basta ser anão. Tem que ter talento e isso vale para qualquer área.”

Léo é o primeiro ator com nanismo a protagonizar um filme no Brasil, a produção Altas expectativas, de Pedro Antônio e Álvaro Campos. “Só para reforçar como essa questão está em voga, tivemos em outubro o 2º Congresso Brasileiro de Pessoas com Nanismo, que tem como objetivo tornar essa causa conhecida pela sociedade e promover a inclusão. Isso mostra que a própria comunidade de pequenos está se unindo”, avalia.

Ele é um dos que não se incomodam com o termo anão. “O preconceito está muito mais na abordagem do que na palavra. É a maneira de falar que importa. As pessoas ficam cheias de dedos para saber como se referir e, às vezes, cometem alguns erros até engraçados. Certa vez, um jornalista escreveu que eu sofria de nanismo. Um outro disse que eu era portador de nanismo. Não sofro e nem porto nada (risos). Eu tenho nanismo”, comenta o espirituoso humorista.

Gigante Léo até faz piada com sua condição. Nos palcos, ele é o astro do stand up Verticalmente prejudicado. Em março, deverá estrear a peça Mentira tem perna curta. “Sempre fui um cara ligado ao humor. Mas minha ideia é mostrar que o anão pode ser divertido de outra forma, sem aquela coisa caricata, de pastelão. E por que não brincar com nós mesmos, mas de uma maneira respeitosa? Muitos comediantes pequenos estão seguindo essa linha e talvez isso explique o sucesso deles.” O artista é casado com Carol Portela, que mede 1,65m e é pai de Luísa, um bebê de 9 meses, que não tem nanismo. “Brinco que a minha filha já é maior do que eu.”

Audiência 

Outra que está se destacando na comédia é Priscila Menucci, de 42 anos, que desde junho vem levantando a audiência de A praça é nossa no SBT/Alterosa. Quando mais nova, nunca havia passado por sua cabeça ser atriz. “Eu trabalhava como auxiliar administrativo de RH. Nada a ver. Mas um dia um amigo me indicou para fazer parte do casting de uma agência que trabalhava com pequenos. Acabei gostando, e as coisas começaram a acontecer”, recorda.

A primeira chance foi o musical O mágico de Oz. Na verdade, justamente por causa do tamanho, ela quase não entrou. “Eles precisavam de vários anões, porque no filme tem muitos. Só que eu meço apenas 91 cm, e o tamanho médio dos pequenos é 1,20m, 1,30m. Mas acabou dando certo e desembestei a fazer espetáculos”, conta Priscila, que é casada com um homem que tem nanismo e é mãe de dois meninos com a mesma condição.  




Apesar de já ter feito vários trabalhos na TV, foi com o humorístico comandando por Carlos Alberto de Nóbrega que ela alcançou visibilidade. Dona Nica, a baixinha invocada que vive brigando com o marido Amâncio (Enio Vivona), é um sucesso. O quadro chegou a bater a Globo na audiência em algumas ocasiões.

“A gente faz muita piada com os pequenos, mas tento não fazer de uma forma ofensiva. A maioria das pessoas, sejam anões ou não, tem aprovado o resultado. Acho que começaram a nos ver como artistas de verdade. Sem aquela coisa caricata”, diz Priscila, que prepara o lançamento do canal Sobre olhares no YouTube. “É para mostrar essa coisa de olhar para o outro de uma forma igual; sem preconceito. Seja alguém com nanismo, com uma opção sexual diferente e por aí vai.”

Ao contrário de Priscila, o colega de SBT/Alterosa Giovanni Venturini, de 26 anos, sempre quis ser ator e, há pelo menos uma década, exerce o ofício. Entre os papéis mais marcantes, ele destaca o advogado Krogstad, na peça Casa de bonecas, de Ibsen. “É um clássico e ainda colocou um ator com nanismo para interpretar um personagem importante na trama. A gente está acostumado a fazer aquela coisa de humor, bem estereotipada, e tive a oportunidade de fazer um drama”, comemora.


Outro trabalho marcante foi Nico, na novela Cúmplices de um resgate, que a autora Iris Abravanel escreveu especialmente para Giovanni. “Foi uma grande conquista, porque não me recordo de antes do Nico ter algum personagem fixo com nanismo em teledramaturgia no Brasil. Na versão original da novela, a mexicana, não existia esse papel. Sou muito grato por terem reconhecido o meu trabalho, minha qualidade de artista.” O ator está concluindo o roteiro de um longa-metragem. “Sonho em num futuro próximo ser convidado para papéis por conta do meu talento, independentemente de eu ter nanismo ou não.”

Sucesso na internet



Há três anos, a niteroiense Rebeca Costa, de 25 anos, decidiu criar o Look Little (@looklittle), blog em que, além de dicas fashion e de comportamento, ela divide com os seguidores um pouco do seu cotidiano, incluindo os treinos adaptados na academia. “Virou não só um meio de compartilhar a minha vida, mas um exemplo de autoestima e motivação. Não só os pequenos me acompanham, mas pessoas que têm alguma limitação ou que enfrentam algum problema. O retorno tem sido impressionante”, conta Rebeca, que também é modelo, profissão em que a altura é um dos pré-requisitos. “Altura, literalmente, não mede nada. Faço tudo que uma modelo de 1,90m faz. A passarela transforma qualquer pessoa”, afirma.

Reality de pequenos 



O mercado estrangeiro, sobretudo o dos Estados Unidos, sempre apostou em reality show. E há ao menos quatro anos, decidiu investir também nas pessoas pequenas. O primeiro deles, Pequenas grandes mulheres, mostra o cotidiano de seis amigas de Los Angeles que têm nanismo: Terra, Tonya, Elena, Christy, Briana e Jasmine. O programa já está em sua na sexta temporada e no Brasil é exibido no canal a cabo Lifetime. O sucesso da série foi tanto que rendeu alguns spin-offs como Pequenos grandes casais que estreia na próxima segunda (8), também no Lifetime e vai acompanhar alguma das participantes como Tonya e Briana seus respectivos amores em um resort de luxo.

Três perguntas para Juliana Caldas (A Estela de O outro lado do paraíso)
1 - Como você vê o espaço que os atores de baixa estatura têm no meio artístico? Acredita que isto está mudando?
O espaço ainda é pequeno, mas quero acreditar que essa realidade está mudando. O Peter Dinklage, que interpreta o Tyrion em Game of Thrones, contribuiu muito para a abertura desse cenário. Espero ver cada vez mais representatividade no cinema, na TV, no teatro; mas o principal é que a nossa visibilidade como pessoas públicas contribua para os anônimos que têm alguma deficiência sejam respeitados.

2 - Você acha que este seu trabalho possa abrir as portas para outros atores de baixa estatura conquistarem papeis de destaque na TV?
Eu realmente espero que sim. A conscientização sobre a condição das pessoas que têm nanismo é fundamental para que, mais para frente, possamos ser vistos somente como artistas, e não “atores anões”. Eu já participei de testes para papeis que não se enquadravam no meu perfil físico somente para ser vista. Espero que os critérios no meio do audiovisual se tornem menos restritivos.

3 - Quais foram e são as principais dificuldades para um ator com nanismo?
Sem dúvida, vencer a barreira do perfil físico. Ninguém pensa em uma atriz anã para viver a mocinha, a não ser que a trama aborde o nanismo. Espero que, em breve, sejamos considerados para qualquer papel, sem essa restrição.


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