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Música Tendência do mercado fonográfico, releituras contribuem para eternizar a memória musical Músicos revisitam o repertório de astros da música em discos de tributos

Por: Alef Pontes

Publicado em: 05/12/2017 20:00 Atualizado em: 05/12/2017 14:13

Lupicínio Rodrigues tem sua obra revisitada por artistas como Gal Costa e Adriana Calcanhotto. Foto: Facebook/Reprodução
Lupicínio Rodrigues tem sua obra revisitada por artistas como Gal Costa e Adriana Calcanhotto. Foto: Facebook/Reprodução

Trabalho que normalmente coube aos artistas da boemia noturna ou às rodas de amigos regadas a voz e violão, "covers" e releituras estão cada vez mais presentes no formato de discos e shows no mercado fonográfico. A constatação se dá diante do volume de tributos lançados em álbuns neste ano, em formato físico ou digital. Não faltam exemplos: Lulu Santos canta Rita Lee, Zélia Duncan homenageia Milton Nascimento, Gal Costa relembra Lupicínio Rodrigues em show enquanto tem as cinco décadas de carreira revisitadas por Jussara Silveira e Renato Brás. A eles, soma-se o mais recente trabalho da Nação Zumbi, Radiola NZ vol.1, composto unicamente por releituras.

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Gerente editorial da Deezer Brasil, uma das gigantes do mercado do streaming, a cearense Yasmin Muller enxerga o número de lançamentos de álbuns de releituras como tendência, facilitada pelas plataformas de distribuição digital. "A gente tem visto isso acontecer em diversos gêneros. A facilidade de distribuição e fruição dos trabalhos contribuiu muito para que os artistas façam esse tipo de produção", afirma a gestora, que identifica uma demanda crescente do público.

A proposta de gravar um "cover" pode parecer só estratégia mercadológica, mas proporciona um intercâmbio cultural entre ouvintes de diferentes gerações. Fãs do intérprete passam a conhecer novos artistas e podem ser tocados pela curiosidade de mergulhar na discografia das referências dos ídolos, muitas vezes jogando luz sobre trabalhos de artistas atualmente pouco reconhecidos. 

Diretor da gravadora pernambucana Assustado Discos, Rafael Cortes acredita que existam várias estratégias de mercado possíveis ao se pensar em um disco de versões. Mas, destaca a relevância artística que uma homenagem pose assumir ao dar novas vozes aos trabalhos. "É claro que existem trabalhos mais comerciais, que visam exclusivamente um bom retorno de mídia e financeiro. Mas existem trabalhos com grande legitimidade artística, onde os músicos normalmente referenciam seus ídolos com versões próprias", conta Cortes.

Yasmin revela que não existe estratégia diferenciada entre lançamentos autorais e releituras na plataforma, mas enxerga nessa tendência outras possibilidades de veiculação de artistas que nem sempre recebem a visibilidade merecida. A tendência, no entanto, não é nova. Diversos nomes da música nacional e internacional já produziram registros de outros, seja para marcar uma data redonda ou homenagear referências. Seu Jorge, por exemplo, já gravou versões em português de David Bowie, em The life aquatic studio sessions (2005). Só no Recife, aos menos outros dois trabalhos de releituras estão em andamento: o músico Geraldo Maia planeja transformar em disco o repertório de show em homenagem a Capiba enquanto Ganga Barreto e Rogerman recuperam série de sambas inéditos do mentor olindense Erasto Vasconcelos.

E, se por um lado, o avanço tecnológico permite que músicas sejam lançadas em volume e qualidade cada vez maior, por outro, a quantidade de lançamentos chega a ser um bombardeio de informações para os ouvintes digitais. Mas com a democracia oferecida pela internet.

Resgate com certo tom de ativismo
Responsável pelo selo PsicoBR, dedicado à gravação e divulgação de artistas que integraram a psicodelia brasileira na década de 1970, o produtor musical paulista Fabricio Bizu tem um olhar mais politizado sobre a importância de resgatar nomes que "tiveram importância fundamental na construção da música brasileira e que acabaram relegados ao ostracismo ao longo das décadas". Ele é o responsável pela coletânea independente Tributo à psicodelia brasileira, lançada na plataforma de audição por streaming Soundcloud e que reúne 14 músicos de diversas partes do país, apresentando novas roupagens para canções de artistas e bandas como Lula Côrtes, Os Leif’s, Ave Sangria, A Bolha e Ronnie Von.

"Existe uma familiaridade nessas músicas que a gente ouve há muito tempo. Com o tributo, elas recebem a inclusão de novos elementos de estilos musicais diferentes, em uma nova roupagem sobre o que se passou há aproximadamente 50 anos, como a Tropicália. E isso faz com que os jovens absorvam essa linguagem", explica Bizu. Partindo por fora dos aparatos das grandes gravadoras, ele se dedica agora ao lançamento de uma campanha colaborativa para resgatar canções do compositor paulista Edu Viola, com o projeto Edu Viola e o Bando Novo, lançado neste sábado no site do selo.

Entrevista // Yasmin Muller - gerente editorial da Deezer Brasil

Existe por trás dessa tendência uma estratégia de mercado voltada para vendas?  
Eu acredito que um artista que vem trabalhando uma sequência de lançamentos autorais vê, nessas facilidades oferecidas pelas plataformas digitais de distribuição, a oportunidade de dar um respiro. Hoje em dia é tão mais tranquilo de se lançar um disco, então por que não lançar uma homenagem a um amigo, um artista admirado? Você acaba mudando um pouco o seu dia a dia e dando espaço para fomentar novas ideias

Você acredita que as releituras promovem um intercâmbio cultural, levando fãs do intérprete a conhecer a obra do homenageado e vice-versa?
Eu acho esse movimento superimportante para uma geração que, muitas vezes, não conheceu esses veteranos da música. Através de uma releitura produzida por um ídolo, ele acaba conhecendo um "novo" trabalho. E esse é um fenômeno que a gente precisa entender melhor: o quanto um artista lançando uma homenagem influencia no número de audições do trabalho de quem é homenageado. Eu não vejo uma relação direta ainda, mas é provável que ela exista e seja crescente.

Na radiola

Fruta Gogoia
Uma homenagem a Gal Costa
Celebrando os 50 anos de carreira de Gal Costa, Jussara Silveira e Renato Brás dão nova vida ao repertório que ficou eternizado na voz da cantora. (Sesc, R$ 19,10)

Baby Baby!
Fã declarado da cantora Rita Lee desde os anos 1970, o cantor Lulu Santos decidiu por em prática um sonho antigo e prestar tributo à "Rainha do Rock".

Tributo à psicodelia brasileira
Projeto traz releituras de compositores importantes para a psicodelia no país, como Lula Côrtes, Zé Ramalho e Ave Sangria, entre outros. (Psico BR, disponível apenas para streaming)

Jobim, Orquestra e convidados
Homenageando os 90 anos de nascimento de Tom Jobim, Paulo Jobim e Mario Adnet reuniram 35 músicos para relançar clássicos do compositor. (Biscoito Fino, R$ 51,90 CD+ DVD)

Invento 
A dupla Zélia Duncan e Jaques Morelenbaum aposta na experimentação do duo de voz e cello para homenagear o cantor e compositor brasileiro Milton Nascimento. (Biscoito Fino, R$ 34,40)

De primeira grandeza - As canções de Belchior
Amelinha celebra o cancioneiro do compositor cearense dando voz a canções como A palo seco, Alucinação, Paralelas e Mucuripe. (Deck Discos, R$ 27,90)

Radiola NZ Vol.1
Novo álbum da Nação Zumbi apresenta releituras de artistas e canções que influenciaram o grupo ao longo da carreira. De Gil a Marvin Gaye. (Babel Sunset, disponível apenas para streaming) (Universal Music, R$ 21,90)

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