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Artes cênicas Artistas pernambucanas levam à cena reflexões sobre a condição da mulher negra no Brasil Em seu trabalho, Janaína Gomes, Naná Sodré e Brunna Martins apontam desigualdade de oportunidades e lutam por respeito

Por: Isabelle Barros

Publicado em: 20/11/2017 11:10 Atualizado em: 20/11/2017 13:09

A atriz e bailarina Janaína Gomes faz parte do Carne - Coletivo de Arte Negra e idealizou a performance 'Como manter-se preta e viva'. Crédito: Shilton Araújo/DP
A atriz e bailarina Janaína Gomes faz parte do Carne - Coletivo de Arte Negra e idealizou a performance 'Como manter-se preta e viva'. Crédito: Shilton Araújo/DP

Se mulheres de todas as partes do mundo sofrem com assédios e violências de toda sorte, para as mulheres negras a situação é ainda mais desfavorável. Segundo o Atlas da Violência 2017, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a mortalidade delas aumentou 22% de 2005 a 2015 e os índices de vítimas de agressão nesse grupo subiram de 54,8% para 65,3% no mesmo período. Para várias artistas negras, a dura e inegável realidade dos números é um chamado para que elas incluam em seu teatro, dança ou performance a reflexão sobre as diversas opressões sofridas por essa parte da população ao longo da vida.

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Como lembra a atriz, arte-educadora e bailarina Janaína Gomes, de 32 anos, o posicionamento das mulheres negras nos palcos a respeito de sua condição não é algo tão antigo assim. “Comecei a fazer teatro aos 12 anos e dança aos 16, mas esse tema não havia passado pela minha cabeça. Essa conscientização é algo mais recente. Venho de uma família onde esse debate é muito velado e eu tinha vergonha de dizer que era da favela. Despertei esse olhar diferente ao fazer mestrado e me questionar por que não havia autores negros na minha dissertação. A partir daí, tive uma necessidade voraz de falar sobre isso e entender o quanto de violência passei. Eu via Xuxa na TV, por exemplo, e tínhamos referências que não éramos nós”.

Atualmente, Janaína é uma das integrantes do Carne - Coletivo de Arte Negra, que realizou de 27 de outubro a 11 de novembro o 2° Palco Preto, evento independente no qual várias artistas negras puderam apresentar seus trabalhos. Um deles foi Como manter-se preta e viva 1. Meritocracia. Janaína, negra e a bailarina Larissa Bonfim, branca, dividiam o mesmo espaço. Enquanto a primeira só tinha direito a usar utensílios domésticos e tinha de obedecer ao tocar de um sino, a segunda podia se movimentar livremente e usar maquiagem e figurino. “Eu gostaria de estar numa sala de ensaio criando, mas tenho afazeres como dona-de-casa, ando de ônibus lotado. Temos que nos tornar mil para fazer as coisas e ter oportunidades. O questionamento, na verdade, é ‘como manter-se pulsando?’ e como enfrentar essas situações”.

Brunna Martins em trecho da performance De CORpo. Crédito: Chico Peixoto/Divulgação
Brunna Martins em trecho da performance De CORpo. Crédito: Chico Peixoto/Divulgação

Os questionamentos que, para Janaína, foram amadurecidos em pleno voo já começam a fazer parte da formação de artistas mais jovens. Brunna Martins, de 24 anos, atriz e aluna do Curso de Interpretação para Teatro do Sesc, diz que “assim como muitas pessoas, meu processo de afirmação começou com o cabelo. Passei pelo processo de transição capilar. O povo negro está colocando a boca no mundo, entendendo de onde viemos e isso começa a ser aplicado no dia-a-dia”.

Brunna criou o monólogo De CORpo, no qual a sexualização do corpo da mulher negra é posta à prova. “Trago como referências a Globeleza, símbolo do país, e Sarah Baartman, conhecida como a Vênus Negra por ter o bumbum extremamente avantajado. Nosso corpo está sempre sendo vendido e trago, em movimentos, a revolta por essa situação. É um grito e ele representa as mulheres do passado e do presente. Por que temos de estar nesse lugar de objeto ou sermos apenas babá ou empregadas domésticas?”.

A atriz Naná Sodré, do grupo O Poste Soluções Luminosas, trata de violência contra a mulher no espetáculo 'A Receita'. Crédito: Thaís Lima/Divulgação
A atriz Naná Sodré, do grupo O Poste Soluções Luminosas, trata de violência contra a mulher no espetáculo 'A Receita'. Crédito: Thaís Lima/Divulgação

A atriz Naná Sodré, com 20 anos de carreira, é testemunha das transformações na autopercepção dos artistas negros e de como os temas que interessam a eles são levados para os palcos. Para ela, este é um caminho sem volta e a consequência de uma militância de décadas por visibilidade e respeito. “Faço parte do coletivo O Poste Soluções Luminosas junto com Samuel Santos e Agrinez Melo e, a partir de 2008, começamos a nos conscientizar de nosso papel como um grupo de artistas negros. Esse movimento já acontecia em Salvador, Minas Gerais, mas aqui ainda não. Era algo muito esparso. Só neste ano, participei de seis debates para falar sobre a mulher negra na cena, enquanto em 2016 isso só ocorreu uma vez”.

Um dos trabalhos de Naná é o espetáculo A receita, solo no qual atua como uma mulher negra vítima de violência doméstica. “Desde pequena sentimos o valor que está reservado a nós na sociedade. Em conversa com uma juíza, ela me disse: ‘as negras são as que mais sofrem porque carregam o imaginário da mulher escravizada’. A minha intenção é fazer as pessoas pensarem como sair desse círculo vicioso, como escutarem, entenderem. Entramos nesse movimento, nessa militância, por assim dizer, por sentirmos na pele o quanto é complicado não ter igualdade de oportunidades. E isso engloba, inclusive, nosso potencial como artistas. No grupo O Poste Soluções Luminosas, nossa pesquisa inclui a matriz africana, mas podemos falar de qualquer coisa, explorar diversas possibilidades”.



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