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Literatura 'As mudanças são irreversíveis. Não vão nos empurrar de volta para as margens', diz travesti e escritora Amara Moira Autora está na programação da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, que segue até domingo no Centro de Convenções

Por: Fellipe Torres - Diario de Pernambuco

Publicado em: 11/10/2017 19:47 Atualizado em: 11/10/2017 19:48

Amara Moira autografa livro na Bienal. Foto: Agência Anhanguera
Amara Moira autografa livro na Bienal. Foto: Agência Anhanguera


 Um mês depois de ter sido vítima de censura e encerrada precocemente, a exposição Queermuseu, no Santander Cultural de Porto Alegre, ainda está sendo desmontada. A intenção da mostra era explorar a diversidade de expressão de gênero, mas grupos conservadores organizaram ataques à instituição por enxergar, naquela atividade, uma "manifestação contra os bons costumes". Nesses 30 dias, outras polêmicas ligadas à arte reforçaram a querela em torno do tema, e personalidades como Caetano Veloso, Fernanda Montenegro, Fabiana Karla, Reynaldo Gianecchini e Carolina Ferraz se pronunciaram contra o cerceamento da liberdade artística. Agora, o debate invade a Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, com a participação de escritores engajados em questões LGBT.

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Para Chico Ludermir, autor de A história incompleta de Brenda e de outras mulheres (Confraria do Vento, 192 páginas, R$ 60), cujos textos narram histórias de onze mulheres trans e travestis recifenses, vivemos um momento de conservadorismo ascendente e a reflexão sobre temáticas LGBT devem ocupar o máximo de espaços possíveis.

“Somente a nossa presença na Bienal, a presença do que a gente vem produzindo, é um discurso contrário ao que está acontecendo. Não poderíamos imaginar que esse cenário se tornaria tão conservador, mas nós já partimos de uma percepção de que existe uma exclusão de certos temas dentro da arte. Nosso trabalho, por si só, já é um gesto contra essas censuras, essas interdições”, afirma.

Também circula pela Bienal do Livro, nesta quarta-feira(11), a travesti, prostituta e militante Amara Moira, doutoranda em teoria e crítica literária pela Unicamp. Ela é autora do livro E se eu fosse puta? (Hoo, 216 páginas, R$ 34,90), relato autobiográfico lançado em 2016. 

Serviço

11ª Bienal Internacional do Livro de Pernambuco
Quando: até domingo, das 10h às 22h
Onde: Centro de Convenções de Pernambuco (Avenida Professor Andrade Bezerra, s/n, Complexo de Salgadinho, Olinda)
Ingressos: R$ 10, R$ 7 (social, com 1kg de alimento não perecível) e R$ 5 (meia). Gratuito para crianças de até 12 anos, alunos da rede pública de ensino, professores, policiais civis e militares e Corpo de Bombeiros.
Informações: bienalpernambuco.com

Entrevista - Amara Moira // travesti, prostituta e escritora

"Não é por decreto que vão nos empurrar de novo para as margens"

Qual a importância da literatura enquanto ferramenta para dar visibilidade a questões ligadas às causas LGBT e à prostituição?
Não sou dessas pessoas que endeusam a literatura, que acreditam que a arte é em si mesma uma ferramenta transformadora, libertária. Arte, em geral, e a literatura como um de seus braços fortes, é elemento fundamental para a manutenção do sistema, basta olhar o caráter absurdamente elitista, racista e machista de parte considerável do nosso cânone (e estou pensando em autores do porte de um Guimarães Rosa, um Aluísio Azevedo, um José de Alencar etc). Literatura, no entanto, sendo um dos mecanismos de controle da sociedade, acaba podendo subverter essa sua função oficial se começa a dar espaço a escrituras que rompem com as narrativas únicas que nos assujeitam. O exemplo das prostitutas é gritante: personagens de obras literárias de todos os tempos, só recentemente começam a surgir obras capazes de retratar, sem romantizações absurdas nem sensacionalismos baratos, a complexidade das experiências que atravessam nossas vidas.

E a respeito da questão feminista? Como você enxerga?
É bastante indicativo do quão pouco avançamos o fato de parte considerável daquilo que se denomina literatura "erótica" retratar, com naturalidade, cenas de violência sexual, muitas das vezes estupros. Mas cada vez mais mulheres escrevem, cada vez mais prostitutas, LGBTs, pessoas negras, e por mais que sejamos fruto da mesma sociedade que cria essas narrativas únicas que nos violentam, que inclusive nos cria pra reproduzir essas narrativas, a nossa intimidade com a escrita assim como o sentimento de que temos o direito de escrever e de nos posicionar sobre o que é escrito vão pouco a pouco abrindo a literatura para outras funções que não essa de controle.

Estamos vivendo um momento em que, ao mesmo tempo em que uma novela da Globo conta a história de personagem trans, volta-se a falar em “cura gay” e em censura a exposições como a Queermuseu. Como você enxerga esse período tão contraditório?
Ação e reação. A sociedade não precisava se posicionar antes, com tanta veemência, sobre questões LGBTs, feministas, negras, porque nossas vozes estavam completamente relegadas à margem. Mas quanto mais vamos afirmando a nossa voz, nosso direito de falar e ser ouvidas, mais as estruturas que nos mantinham à margem são colocadas em questão... e aí vem a reação, como parte dum esforço de fazer a sociedade voltar ao que era antes. Como era a vida possível, por exemplo, para pessoas trans cinco anos atrás? Como é agora? Estamos nas novelas, capas de revista, livrarias, bienais... As mudanças são visíveis e irreversíveis, as verdades que escancaramos não podem mais ser ignoradas: não é por decreto que vão nos empurrar de novo para as margens, não quando a gente já tem consciência da nossa força, não quando a gente já se sabe protagonistas da transformação da sociedade.

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