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Artes visuais 'Museus não são espaços neutros', afirma curadora sobre exposição cancelada Mostra que estava em cartaz no Santander Cultural contava com 263 obras de 85 artistas e foi acusada de fazer apologia à pedofilia, zoofilia e blasfêmia a símbolos católicos

Por: Isabelle Barros

Publicado em: 13/09/2017 16:42 Atualizado em:

Obra Cruzando Jesus Cristo com Deusa Shiva (1996), de Fernando Baril. Crédito: Santander Cultural/Divulgação
Obra Cruzando Jesus Cristo com Deusa Shiva (1996), de Fernando Baril. Crédito: Santander Cultural/Divulgação

O fechamento abrupto da exposição Queermuseu - cartografias da diferença na arte brasileira, no Santander Cultural, em Porto Alegre, inflamou discussões em todo o Brasil sobre os limites da arte e sobre intolerância. A mostra convidava à reflexão a respeito das diversas manifestações da diversidade sexual e contava com 263 obras de 85 artistas, mas foi eclipsada com a acusação de ter incluído obras consideradas como supostas apologias à pedofilia, à zoofilia e a blasfêmia a símbolos católicos. A celeuma ilustra a polarização social do país e coloca sobre o campo da arte contemporânea uma repercussão que não tinha entre quem não acompanha o segmento.

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A professora e pesquisadora do departamento de artes visuais da Universidade Federal de Pernambuco Madalena Zaccara afirma que a liberdade da criação artística é posta à prova há muito tempo, mas, com a capacidade de conexão na contemporaneidade, esse cenário foi ampliado. “O ser humano não muda muito. Esse é o mesmo tipo de reação em cadeia que culminou, por exemplo, na exposição de arte degenerada durante o nazismo. O policiamento e o patrulhamento não se transformam, e vemos isso tanto na direita quanto na esquerda. O italiano Umberto Eco disse que a internet deu voz ao idiota da aldeia. A internet multiplicou essa voz por mil. As pessoas resolveram não gostar do que desconhecem, baseadas em seus próprios valores, e querem impedir os outros de terem acesso. Muitos julgaram a exposição sem sequer ir, baseadas na opinião de outrem”.





Embora a mostra estivesse em cartaz desde o último dia 15 de agosto, a polêmica aconteceu de fato a partir da última quarta-feira, quando houve as primeiras manifestações negativas sobre a mostra nas redes sociais. Na quinta-feira, feriado de 7 de setembro, a exposição esteve fechada, mas os ataques a ela ganharam força a partir da sexta e do sábado, quando militantes do MBL foram até o museu e protestaram contra a mostra usando a tática do escracho, filmando e abordando quem a visitava. Ao mesmo tempo, as redes sociais do Santander Cultural foram inundadas de comentários negativos e de ameaça de boicote ao Santander, banco que mantém o centro cultural na capital gaúcha. A pressão culminou no cancelamento do evento, no domingo. A ação atingiu ainda dois artistas pernambucanos cujas obras foram selecionadas pelo curador Gaudêncio Fidélis: Deyson Gilbert, radicado há anos em São Paulo, com o trabalho Coitus (2012), e Montez Magno, com a série Galáxias (2008).

Quem saiu com a imagem mais arranhada foi a instituição gaúcha que, ao ceder à pressão de militantes do Movimento Brasil Livre (MBL) e de grupos católicos para fechar a mostra, desagradou a comunidade artística brasileira, militantes LGBTs e quem discorda da posição do MBL. Um abaixo-assinado circula pela internet com mais de 40 mil assinaturas pedindo a reabertura da mostra. A ausência de qualquer indício de pedofilia foi atestada, inclusive, pelo Ministério Público gaúcho, que visitou as obras na segunda-feira. Em entrevista ao site G1 do Rio Grande do Sul, o promotor da infância e juventude de Porto Alegre, Júlio Almeida, se manifestou sobre o tema. “O que existe são algumas imagens que podem caracterizar cenas de sexo explícito. Do ponto de vista criminal, não vi nada".

A pernambucana Clarissa Diniz, curadora-assistente do Museu de Arte do Rio (MAR), é uma das profissionais do setor atentas aos desdobramentos dessa polêmica e lamenta a posição tomada pelo centro cultural. "Museus não são espaços neutros. Situações como essa deixam isso muito claro. As instituições e os artistas precisam entender que estão em um território de disputas. A prática artística pressupõe uma tomada de posição e ela está cheia de ambiguidades em todos os níveis, pois os sentidos das coisas são sempre tensionados. Essa situação poderia ter até acontecido em um outro momento, mas, obviamente, essa tensão está mais aguda e ações semelhantes devem ocorrer com mais frequência. O assustador é ver que a instituição não negociou essa ambiguidade e optou pela autocensura. O Santander Cultural poderia ter promovido um debate e abordado essas questões em vez de jogar terra em cima das dificuldades”.

Outro lado da questão também é levantado por Clarissa: a relação entre o público e o privado na cultura brasileira. Isso ficou explícito pelo recuo do Santander a respeito da mostra, que teve autorização para captar R$ 800 mil pela Lei Rouanet. “O fato de ser o centro cultural de um banco, e não uma instituição pública, influenciou o cancelamento da mostra sim, mas não foi o único motivo nem deve ser tomado como justificativa. É preciso lembrar que a Lei Rouanet é dinheiro público. A balança não pode pender para o capital privado dessa maneira e esse, inclusive, é um mal da lei. Se vive nessa corda bamba entre o público e o privado, mas, inclusive por ser dinheiro público, é mais inaceitável ainda a tomada de posição do Santander".



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