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Segurança Livro gera ironia involuntária com texto de advogado de Temer sobre 'crimes da mala' Em obra sobre delitos chocantes, Antônio Mariz descreve recurso para ocultar crimes passionais e um dos personagens é um sírio-libanês chamado Michel

Por: Tiago Barbosa

Publicado em: 16/07/2017 20:03 Atualizado em: 14/07/2017 09:54

Crime da mala: cadáver retalhado e escondido no compartimento no século passado. Foto: Paixaoassassina.blogspot/Reprodução
Crime da mala: cadáver retalhado e escondido no compartimento no século passado. Foto: Paixaoassassina.blogspot/Reprodução


Livro recém-lançado sobre crimes de sangue chocantes para a opinião pública brasileira no século 20 provoca uma ironia editorial involuntária com a realidade política contemporânea ao retratar nomes de personagens envolvidos, objetos usados nos delitos e até o responsável por narrar a versão das histórias. O ponto de interseção entre os fatos reais e os descritos em um dos capítulos de Grandes crimes (Três Estrelas, R$ 49,90), organizado pelo doutor em direito Pierre Moreau, é o criminalista Antônio Mariz de Oliveira.

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No curso da denúncia da Procuradoria-Geral da República contra Michel Temer, ele defende o presidente da acusação de corrupção passiva pelo recebimento de dinheiro através de uma mala. Na obra literária, narra três crimes passionais cujos autores esquartejaram as vítimas e tentaram esconder os corpos - veja só - dentro de malas.

Há outras conexões aleatórias. Os casos recuperados pelo criminalista são todos protagonizados por descendentes de/ou imigrantes - o cliente dele, Temer, tem ascendência sírio-libanesa - e o primeiro narrado se refere ao assassinato de uma mulher envolvida em um triângulo amoroso, cometido por um homem de origem sírio-libanesa cujo nome é… Michel (de sobrenome Trad, na publicação).

Os homicídios passionais listados por Antônio Mariz ocorreram em São Paulo, berço político do atual presidente, localidade com aparente passado de crimes cujo desfecho passa pela forma semelhante de esconder os corpos das vítimas. "São Paulo possui um histórico criminal envolvendo malas como instrumento de ocultação de cadáveres mutilados e tendo como protagonistas imigrantes ou seus descendentes", escreve o autor na abertura do trecho denominado "O primeiro crime da mala" - o assassinato de Elias Farah, marido da italiana Carolina Mori, pelo suposto amante Michel Trad, nos idos de 1908.

O assassino enforcou o desafeto com uma corda, retalhou o corpo e o colocou dentro de uma mala para levar até a Estação da Luz e, de lá, a França, com parada no Rio de Janeiro. O plano falhou no Porto de Santos, onde o odor do corpo em decomposição o denunciou. Ele tentou atirar a bolsa ao mar e, apanhado, contou uma versão inverossímil às autoridades. O Porto de Santos inspira - coincidência fortuita do livro - um pedido de abertura de inquérito do procurador-geral, Rodrigo Janot, contra Michel Temer e o deputado Rodrigo Rocha Loures - o homem da mala e da confiança do presidente - por suspeita de esquema criminoso. 


O Porto de Santos também é palco da descoberta de um crime cometido, na década de 1920, por Giuseppe Pistone, acusado de asfixiar a mulher, Maria Fea, com um travesseiro, esquartejar o corpo e tentar transportá-lo dentro de um baú. A empreitada fracassou quando o compartimento despencou, abriu-se e deixou escorrer um líquido fedorento. O "terceiro crime da mala" relembrado pelo jurista aconteceu já no século 21 e trata da atrocidade praticada por Elize Matsunaga. Ela atirou e cortou o pescoço do companheiro, o executivo da Yoki Marcos Matsunaga, retalhou o cadáver sobre sacos de plástico e dividiu as partes em três malas, jogadas em diferentes pontos de uma estrada.

O LIVRO

Julgamento dos canibais de Garanhuns. Foto: Annaclarice Almeida/DP
Julgamento dos canibais de Garanhuns. Foto: Annaclarice Almeida/DP


Motivados por causas distintas, os três delitos impactam pela monstruosidade na índole dos autores - percebida tanto na frieza do planejamento dos assassinatos quanto no método empregado para eliminar pistas e escapar da polícia. Aspectos semelhantes estão presentes nos outros 11 relatos reunidos em Grandes crimes, encomendados a advogados, juristas e ex-ministros de cortes superiores. Os casos foram escolhidos de forma livre e são narrados sem vícios da linguagem jurídica.

A característica comum a todos é a sedução exercida sobre a opinião pública, atraída pelas investigações em torno de autoria, modo de cometimento, motivações e local dos assassinatos. "Essas questões vêm sendo formuladas de muitas formas, e as respostas a elas também, sempre no intuito de tentar interpretar o rancor, o ressentimento, a inveja e o poder doentio daqueles que praticam os delitos", observa o autor do livro, Pierre Moreau.


Os atos de canibalismo descobertos em Garanhuns, no Agreste pernambucano, em 2012, por exemplo, acusam o lado selvagem do ser humano. A cidade era morada de um trio formado pelo esquizofrênico Jorge, a mulher, Bel, e a amante consentida pela esposa, Bruna. Os três fundaram uma seita, denominada Cartel e inspirada no culto antigo a elementos da matéria, e passaram a caçar, matar e comer partes do corpo de mulheres jovens. Eles acreditavam na purificação através do canibalismo - baseados em uma interpretação particular da Bíblia - e julgavam combater o crescimento populacional por meio da morte daquelas "incapazes" de criar os próprios filhos. A história é recontada pelo jurista pernambucano José Paulo Cavalcanti Filho a partir de notícias da época e de entrevistas feitas por ele com os próprios canibais.

Outros crimes famosos e com tônica passional, como os assassinatos da atriz Daniella Perez e de Ângela Diniz - marco da luta contra o feminicídio -, ou política, como o atentado do Riocentro, são contados sob ângulo particular dos autores.

Detalhes mórbidos à parte, as circunstâncias dos homicídios permitem uma leitura dos costumes de cada época e expõem o poder de patologias sociais permanentes do país, como machismo ou racismo. Explicam também como razões de foro íntimo podem interferir em questões de relevância nacional, como na morte de PC Farias (e da namorada), tesoureiro do ex-presidente Fernando Collor cuja morte levou para o túmulo informações sobre a corrupção presidencial.

O inventário de crimes violentos é um subsídio valoroso para tentar compreender os limites do comportamento humano e da sociedade - seja pela crueldade de quem reduz a vida do outro a nada ou pela curiosidade mórbida de quem venera as histórias sobre a carnificina alheia.

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