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Artes Cênicas Transformação do antigo Armazém 14 em casa de eventos desagrada artistas do teatro e da dança Local abrigou, entre 2000 e 2011, o Teatro Armazém, que dava espaço para a produção independente local; a partir de julho, o antigo armazém frigorífico do Porto do Recife dará lugar ao Itaipava Catorze

Por: Isabelle Barros

Publicado em: 28/06/2017 12:40 Atualizado em: 28/06/2017 11:18

Teatro Armazém funcionou de 2000 a 2001 e teve de encerrar suas atividades por causa do projeto Porto Novo Recife. Crédito: Julio Jacobina/DP
Teatro Armazém funcionou de 2000 a 2001 e teve de encerrar suas atividades por causa do projeto Porto Novo Recife. Crédito: Julio Jacobina/DP

O anúncio de que o antigo Armazém 14 se tornará uma casa de eventos denominada Itaipava Catorze desagradou uma parcela das artes cênicas pernambucanas. Entre 2000 e 2011, o local abrigou o Teatro Armazém, administrado pela produtora Paula de Renor, que abria suas portas para temporadas de artistas locais e nacionais, incluindo nomes reconhecidos como Antunes Filho. Em uma cidade na qual há uma carência crônica de palcos para apresentações de teatro e dança, atores e bailarinos se decepcionaram com a próxima destinação do espaço.


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Um dos que verbalizaram frustração foi o produtor cultural Danilo Carias, que escreveu na página Reflexorama sobre o tema. “Como um espaço que pertencia à classe artística e ao empreendedorismo cultural da cidade passa para as mãos de uma cervejaria? E ainda mais violentamente diz que vai ‘resgatar a noite no Recife Antigo’. Chamam a casa de multiuso para tentar justificar o espaço plural”. Ao ser procurado pela reportagem, Danilo reiterou sua opinião e questionou a forma pela qual o processo de reocupação do antigo Armazém 14 foi feito. “Quando temos uma cidade que fechou o Teatro do Parque há anos e, ao mesmo tempo, abre espaço para esse tipo de empreeendimento, vemos a que esse governo veio. Como um local vai ser revitalizado se ele é simplesmente entregue à iniciativa privada, sem ouvir quem circula por lá?”.

A coreógrafa Mônica Lira, fundadora do Grupo Experimental, cuja sede se localiza a cerca de 500 metros do futuro Itaipava Catorze, também lamenta o destino dado ao espaço. “Tivemos muitos momentos no Armazém 14. Temos, hoje, 23 anos de existência e, quando completamos uma década, fizemos uma temporada de dois meses com casa lotada. Estamos com um sentimento de luto. Acho lastimável que a gente esteja vivendo isso, perder um espaço que poderia ser devolvido aos artistas de forma digna. É um sentimento de muita tristeza e desolação. O que nos resta é fazer a sociedade tomar conhecimento disso. Acho que essa situação precisa de uma resposta dos artistas”.

Por enquanto, o futuro do local parece estar selado com o Itaipava Catorze, que será aberto em julho e vai receber formaturas, bailes de debutantes, casamentos, festas e, eventualmente, apresentações musicais. O espaço, que abrirá após um ano e meio de obras, terá capacidade para três mil pessoas. O projeto foi um dos contemplados pelo Porto Novo Recife, que cedeu os armazéns à iniciativa privada. Logo após o fechamento do Teatro Armazém 14, cogitou-se a possibilidade de transformar o local em um cineteatro de 150 lugares, um teatro com 400 lugares ou uma pista de boliche.

O empreendimento será tocado por cinco sócios: Waldemar Valente, Bruno Rego, Gustavo Satou, Jhonathas Hayrold e Suellen Figueirôa. “No Recife, havia ou casas de festas ou casas para eventos. Englobamos as duas coisas. Nosso intuito é atender a todos os artistas e ao público. Esta é uma parte histórica da cidade, com muito turismo, e esperamos que as pessoas se reaproximem da própria cidade”, afirma Suellen. Perguntada sobre seu conhecimento sobre o uso anterior do espaço e se apresentações teatrais chegaram a ser previstas no projeto, Suellen foi diplomática. “Não era a nossa ideia principal, mas quem sabe podemos ampliar para isso no futuro”.

DEPOIMENTO
“No fim dos anos 1990, vi que a cidade tinha uma efervescência de produção e não tinha espaço para ela escoar. Em setembro de 2000, abrimos com cinco espetáculos, de segunda a segunda. Foi muito bacana, deu um boom na produção cultural independente da cidade. O problema é que os contratos eram feitos de seis em seis meses. Por isso, nunca pude ter patrocínio por aquele espaço. Desde que entrei no Armazém, queriam transformar o porto na Estação Docas, de Belém, e a megalomania finalmente está tomando conta desse projeto. Eu batalhava muito com a administração do porto e sempre me disseram que aquele seria um espaço cultural. Fechei em 2011, porque pediram o local e o Armazém estava em péssimo estado. Em março entreguei o lugar e tudo o que levei foi uma mesa e duas cadeiras. Meus 11 anos serviram para eu fincar no Bairro do Recife a certeza de ter um espaço cultural, de respeitar a essência artística daquele lugar. Toda vez que passo por lá, sinto uma tristeza. Quem tem dinheiro compra tudo, só não compra a alma do Armazém 14. E penso: será que perdi 11 anos da minha vida? Isso mexe muito comigo, porque foi um sonho que não era pra mim, era pra cidade”.

Paula de Renor, administradora do Teatro Armazém 14 de 2000 a 2011



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