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Artes visuais Obra de Lula Cardoso Ayres ganha exposição retrospectiva na Caixa Cultural Obra vasta do multiartista inclui quadros, fotografias, caricaturas, peças de design gráfico e cenários para espetáculos

Por: Isabelle Barros

Publicado em: 14/06/2017 10:52 Atualizado em: 14/06/2017 11:30

Artista viveu entre 1910 e 1987 e foi amigo de nomes como Gilberto Freyre e Cândido Portinari. Crédito: Coleção Lula Cardoso Ayres Filho/Divulgação
Artista viveu entre 1910 e 1987 e foi amigo de nomes como Gilberto Freyre e Cândido Portinari. Crédito: Coleção Lula Cardoso Ayres Filho/Divulgação


O artista pernambucano Lula Cardoso Ayres (1910-1987) viveu mais do que parecia caber em uma vida só. Sua trajetória se definiu justamente pelo desapego sobre as linguagens e suportes escolhidos para dar vazão ao seu talento. Entre suas atividades, foi ilustrador, cartazista, cenógrafo, pintor, fotógrafo, artista gráfico, caricaturista e ceramista. Uma obra vasta como essa pedia uma exposição retrospectiva, que acontece a partir da quarta, 15 de junho, na Caixa Cultural Recife, sob o nome de Lula Cardoso Ayres: arte, região e tempo. A iniciativa acontece justamente quando se completam 30 anos de falecimento do multiartista.

Amigo de nomes como Gilberto Freyre e Cândido Portinari, a multiplicidade de interesses de Lula levou a curadoria a dividir os 208 itens da coleção em nove categorias distintas, que abrangem a produção desde os anos 20 até os anos 80. Além das obras propriamente ditas, há artigos de jornal, correspondências e peças de cerâmica de Porfírio Faustino, um dos inspiradores do pernambucano. “Esta exposição é a mais importante do que todas as feitas no Instituto Lula Cardoso Ayres, fundado por mim e fechado em 2007. Em termos acadêmicos, é o que sempre quis fazer. A mostra deve resultar em mais pesquisas sobre as obras de meu pai”, opina Lula Cardoso Ayres Filho, guardião da obra do pai e detentor de aproximadamente 70% do acervo exposto na Caixa Cultural. O resto veio de colecionadores particulares e instituições públicas como a Fundação Joaquim Nabuco e a Fundação Gilberto Freyre, realizadora da mostra.

Confira o roteiro de exposições no Divirta-se

Mesmo para quem conhece a obra do artista, a exposição reserva surpresas, entre elas o primeiro trabalho dito artístico de Lula Cardoso Ayres, feito aos 11 anos, em 1921. É uma caricatura dele mesmo, na qual se espelha a influência do primo Emílio Cardoso Ayres, importante caricaturista da época. A excelência incomum no traço para um garoto de sua idade já anunciavam o artista que ele viria a ser. A passagem por Paris e pelo Rio de Janeiro, nos anos 20, impulsionaram sua criação ao colocá-lo em contato com as vanguardas artísticas da época.

Em sua pintura - talvez seu suporte mais conhecido - Lula Cardoso Ayres passeou entre o figurativo e o abstrato. Sua pesquisa artística não se estendida apenas à estética, mas invadia aspectos técnicos. Ele fazia, por exemplo, as próprias tintas. “A exposição traz um lado didático, pois talvez ele seja o mais completo artista visual brasileiro. A ideia era torná-la a mais representativa possível. Em sua ausência, também procuramos trazer seu legado pelos estudos de suas obras, não apenas por seus trabalhos prontos. O trabalho dele não se construiu da noite para o dia”, pontua Jamile Barbosa, cocuradora junto com Clarissa Diniz e Eduardo Dimitrov.

As fotografias e pinturas de Lula Cardoso Ayres também refletem o quanto ele entrou em contato com manifestações culturais regionais, como o bumba-meu-boi e o maracatu, além de acompanhar de perto o cotidiano do trabalho rural por ter vindo de família de senhores de engenho. Além dessas facetas pernambucanas, também há material que explicita uma relação ainda pouco conhecida entre o artista e a etnia indígena Fulni-ô, de Águas Belas, inspiração para mais fotos e quadros. A mostra também relembra o papel de Lula como ilustrador do clássico Assombrações do Recife Velho, de Gilberto Freyre, cuja primeira edição foi lançada em 1955. “Ele já tinha percorrido essa temática antes, ainda nos anos 40. A atenção ao sobrenatural ainda existe hoje, imagine naquela época”, aponta Jamille.

Mesmo após ter andado por centros irradiadores de arte em sua juventude, Lula se voltou para a reivindicação de um repertório local de imagens, feito a partir de sua vivência em Pernambuco, de onde não saiu mais. Mesmo sua produção essencialmente gráfica, composta por embalagens, rótulos e cartazes, era criada tendo essa baliza em mente. Ao documentar e refletir sobre seu tempo, Lula Cardoso Ayres deu origem a uma obra ainda atual, sensação reforçada por um depoimento afetivo de seu filho. “Após 30 anos, é como se meu pai ainda estivesse vivo”.

PROGRAMAÇÃO PARALELA
A exposição também vai contar com uma série de três debates a partir do legado deixado por Lula, sempre às 19h, com entrada gratuita. O primeiro acontece no dia 19 de julho, sobre os desafios do artista moderno, com Wilton de Souza e José Cláudio. No mesmo dia, haverá lançamento de livro com fotografias do artista editado pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe). Já no dia 1° de agosto, a discussão será feita a partir do tema Regionalismo como opção, regionalismo como prisão, com Anco Márcio Tenório Vieira e Eduardo Dimitrov. Já no dia 22 de agosto, o tema da conversa será Lula Cardoso Ayres, entre figuração e abstração.

SERVIÇO
Exposição retrospectiva Lula Cardoso Ayres: arte, região, tempo
Abertura: Hoje, às 19h
Onde: Caixa Cultural Recife - Avenida Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife
Visitação: De terça a sábado, das 10h às 20h; domingos, das 10h às 17h
Entrada gratuita
Informações: 3425-1915



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