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Moda Moda: Por que o uso do turbante despertou polêmica sobre apropriação cultural A história do adereço e sua simbologia ajudam a destrinchar as razões para refletir antes de usá-lo como acessório fashion

Por: Aline Ramos

Por: Larissa Lins - Diario de Pernambuco

Publicado em: 15/02/2017 09:06 Atualizado em: 10/04/2017 21:18

Os turbantes simbolizam a resistência da mulher negra e têm ligação estreita com rituais religiosos de matriz africana. Foto: Thiago Santos/DP
Os turbantes simbolizam a resistência da mulher negra e têm ligação estreita com rituais religiosos de matriz africana. Foto: Thiago Santos/DP

Acessório-desejo para compor produções casuais e também na moda praia ou símbolo da resistência e do empoderamento da mulher negra? Os turbantes e sua utilização causam polêmica nos últimos tempos, mas sua história e simbologia ajudam a entender os motivos das discussões. Segundo o livro História ilustrada do vestuário (Publifolha, R$ 94,90), de Melissa Leventon, há referências sobre o uso do adereço entre homens e mulheres, em diferentes épocas, por diversas etnias e com vários significados. O turbante podia indicar a origem, tribo ou casta da pessoa, identificar a religião ou a posição social.

O turbante consiste em uma grande tira de pano enrolada sobre a cabeça, e de uso muito comum na Índia, no Bangladesh, no Paquistão, no Afeganistão, no Oriente Médio, no Norte da África, no Leste da África, no Sul da Ásia e em algumas regiões da Jamaica. A origem deste acessório é desconhecida, mas sabe-se que já era usado no Oriente muito antes do surgimento do islamismo. Os sikhs, que não são nem muçulmanos e nem árabes, constituem a maioria das pessoas que usam turbantes no mundo ocidental. O atavio também é comum nas religiões tradicionais africanas, afro-americanas e afro-brasileiras, podendo ser de vários tipos e cores.

Enquanto acessório fashion, o uso dos turbantes deve ser consciente e requer conhecimento de seu significado. Foto: Thiago Santos/DP
Enquanto acessório fashion, o uso dos turbantes deve ser consciente e requer conhecimento de seu significado. Foto: Thiago Santos/DP
A Europa também aderiu ao ornato, primeiramente entre marinheiros e navegadores. No entanto, no século 18, o turbante tornou-se item de moda para as francesas. Feito com grande quantidade de tecidos leves arranjados cuidadosamente na cabeça das damas, o enfeite foi sucesso até meados do século 19. No Brasil, o atavio chegou pelas mãos dos africanos que eram trazidos como escravos. As mucamas usavam turbantes nas cabeças não como trajes da “moda”, até porque, havia uma série de restrições legais e econômicas que limitavam as suas escolhas.

Por volta de 1920, o costureiro francês Paul Poiret trouxe de volta ao cenário fashion, os turbantes. A moda, porém, se popularizou no final dos anos 30, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Em tempos difíceis, o acessório foi um excelente aliado para disfarçar cabelos mal cuidados. Muitas atrizes de Hollywood apareceram retratadas com glamorosos turbantes entre os anos 20 e 40. No Brasil, a atriz e cantora Carmen Miranda adotou o enfeite no seu figurino. Nos anos 60, o ornamento ressurgiu como símbolo da cultura negra, nos movimentos que lutavam pelos direitos civis.

>> O SÍMBOLO DE RESISTÊNCIA E A APROPRIAÇÃO CULTURAL


Símbolo da cultura negra e diretamente associado a rituais religiosos de matriz africana, o uso do turbante está - ou deveria estar - vinculado a uma reflexão madura, antes histórica do que estética, sobretudo por parte de mulheres brancas. Ferramenta de proteção em festas e cerimônias do candomblé, o adereço tem, ainda, a função de "modelar" cabelos crespos e "coroar" mulheres negras.

Há diferentes amarrações para os turbantes e lenços, com efeitos e funções diferentes. Foto: Thiago Santos/DP
Há diferentes amarrações para os turbantes e lenços, com efeitos e funções diferentes. Foto: Thiago Santos/DP
"Chamadas de 'macumbeiras' quando enfeitadas com seus turbantes, essas mulheres foram rechaçadas esteticamente durante séculos. Não se pode esperar que assistam à apropriação cultural desse símbolo, que é cultural e religioso, sem que manifestem seu ponto de vista", explica a produtora cultural e ativista pernambucana Dandara Pagu, líder do coletivo feminista Vaca Profana. Por apropriação cultural, vale ressaltar, entende-se o uso de turbantes por mulheres brancas sem o conhecimento de suas raízes - especialmente as fincadas nas tradições africanas - e significado. O tema, problematizado em fóruns de discussão em todo o mundo, ecoa mais fortemente nos últimos anos, quando os turbantes atraem os holofotes em coleções de moda internacionais - a maior parte deles desfilados, em passarelas e editoriais, por modelos caucasianas.

Dandara, que ministra oficinas regulares no Recife sobre o uso de turbantes, entende que o adereço requer o mesmo respeito dedicado a outros elementos religiosos: "Não se usa um terço ou escapulário sem consciência do que aquele símbolo significa. Não se pode usá-los simplesmente por usar. O mesmo deve ocorrer com os turbantes, usados no candomblé para proteger o centro da cabeça, o Orí (cabeça)", pondera. Ela tenta desviar, entretanto, de radicalismos: acredita que as mulheres brancas, ao compreenderem a simbologia associada ao adorno, podem usá-lo se continuarem a sentir afinidade com o que ele expressa. Muitas delas, ela reforça, abrem mão da peça ao identificar falta de vínculo com suas raízes e acepções.

>> REFLEXÕES IMPORTANTES ANTES DE USAR

- O turbante não é uma peça tão indispensável quanto calças ou sapatos. É possível – e mais responsável – abrir mão de seu uso em caso de desconhecer suas raízes e simbologias.

- Amarrações – com lenços ou cortes de tecido – são diferentes de turbantes. Podem ser uma alternativa ao uso destes últimos.

- Nos anos 20, mulheres brancas em altas posições sociais usavam turbantes. Tomá-las por referência estética não desqualifica o significado cultural e religioso da peça.

- Para mulheres brancas que usem turbantes, é preciso – além de conhecer os significados e história por trás do adereço – reconhecer os privilégios conferidos pela indústria da moda e pelas sociedades ao longo da história às mulheres caucasianas, e entender o acessório como fonte de empoderamento das mulheres negras, antes de se apropriar dele.

Dandara destrincha as raízes dos turbantes e opina sobre a questão da apropriação cultural. Foto: Thiago Santos/DP
Dandara destrincha as raízes dos turbantes e opina sobre a questão da apropriação cultural. Foto: Thiago Santos/DP
>> TRÊS PERGUNTAS: Dandara Pagu, produtora cultural e ativista feminista


Qual a relação dos turbantes com as religiões africanas?
O objetivo é cobrir a cabeça. No candomblé, chamamos de Orí o centro da cabeça, a chamada "moleira", que é um ponto central, um chacra pelo qual entra tudo de bom e de ruim que atinge você. Mesmo dentro de uma lógica menos religiosa, mais científica, quando o cérebro morre, o seu corpo não funciona mais, a vida já não existe. Daí, inferimos que é no centro da cabeça que está a vida, o controle de tudo. É na cabeça que o ser começa. O turbante está ali para proteger essa região tão importante, em festas e cerimônias religiosas.

Há uma grande polêmica em torno do uso do turbante por mulheres brancas. Você poderia comentar um pouco o assunto?

O que se reclama, hoje, é que o turbante é uma indumentária religiosa, e, além disso, é um acessório associado à afirmação da mulher negra. Quando apenas mulheres negras usavam turbantes, isso era pejorativo. As mulheres negras eram chamadas de macumbeiras, eram motivo de gozação. E quando a mulher branca se apropria dos turbantes, aquele acessório vira algo interessante, bonito, da moda. Por que? É uma injustiça. Além da ideia de ser usado para rituais religiosos, proteção espiritual, ele pode simbolizar uma coroa. A ideia de que as mulheres brancas começaram a usar por usar, sem consciência do que se trata, é que é problemática. É, além de um desrespeito a uma tradição religiosa, uma apropriação cultural irresponsável.

O que pensa a respeito?

Na minha opinião, bem particularmente, considerando a forma como eu lido com o mundo, com a moda, com a cultura negra, eu acho que o mais importante é cada pessoa saber o que está usando. O errado é usar um acessório de carga simbólica simplesmente por estética, sem qualquer conhecimento do que se trata. Se você não conhece esse símbolo, se não sabe do que se trata, não deveria usar. Por se tratar de um símbolo religioso, como qualquer outro símbolo religioso, requer respeito. Ou você usa de forma consciente ou não usa. Mas, se depois de entender as origens do turbante, para que ele serve, o cunho religioso associado a ele, você ainda se sente à vontade para usá-lo, então tudo bem. Use. Se você, mulher branca, sabe que é uma fonte de empoderamento de uma mulher negra, que sempre foi rechaçada esteticamente ao longo da história, e ainda sente admiração e vontade de usar o turbante, então tudo bem. Acho importante ter em mente que o fato de ter sido discriminada não deve me levar a discriminar ninguém. Ou isso vira uma bola de neve sem fim: o oprimido deixando de ser oprimido e agindo, ainda que motivado por séculos e séculos de injustiça, de modo semelhante ao opressor.

>> FICHA TÉCNICA

Produção: Aline Ramos / Larissa Lins
Fotos: Thiago Santos
Modelo: Elionai Fonsêca
Maquiagem: Jane Silva - Galeria de Maquiagem / (81) 3090-6600
Roupas: Rainha da Cocada / (81) 9 9589-7876
Acessórios: Trocando em Miúdos / (81) 3269 7766

>> A MODELO

Elionai Fonsêca tem 19 anos e atua como modelo há cerca de um ano. Uma de suas preocupações ao exercer a atividade é priorizar trabalhos ligados à valorização da estética negra e do empoderamento feminino. Elionai conhece a origem religiosa e cultural dos turbantes, também usados por sua mãe, mulher negra e de religião de raíz africana. Sente que o adereço valoriza a beleza negra e lança nova luz sobre a estética afro, antes rejeitada pela indústria da moda.

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