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AQUARELAS Exposição marca 200 anos da Missão Artística Francesa com obras de Debret e traça retrato da escravidão no Brasil Composta por 83 obras do pintor francês, mostra apresenta uma crônica do período de transição entre colônia e império vivenciado pelo Brasil no início do século XIX

Por: Alef Pontes

Publicado em: 02/02/2017 08:20 Atualizado em: 02/02/2017 19:16

A aquarela "Carregadores de Café A Caminho da Cidade", de 1826, é uma das 79 gravuras da exposição. Crédito: IRB/Divulgação
A aquarela "Carregadores de Café A Caminho da Cidade", de 1826, é uma das 79 gravuras da exposição. Crédito: IRB/Divulgação
 
 
A partir desta quarta-feira (2), o Instituto Ricardo Brennand recebe um importante registro da história colonial do Brasil e de sua segregação de classes no início do século XIX, com a abertura da mostra Debret e a Missão Artística Francesa no Brasil: 200 anos. Marcando dois séculos da chegada do artista francês Jean-Baptiste Debret, responsável por um extenso registro historiográfico do país, a exposição apresenta um retrato de cenas do cotidiano monárquico no Brasil em 83 obras, entre aquarelas, textos e uma rara pintura a óleo do autor.

Confira o roteiro de exposições no Divirta-se
 
Convidado pela coroa portuguesa para ingressar na Missão Artística Francesa - grupo de pintores europeus que tinham como objetivo fundar a Escolas de Belas Artes na colônia -, em 1816, Debret foi um dos principais responsáveis por criar imagens da modernização e transição da monarquia para o império. Durante os 15 anos em que ficou no Rio de Janeiro, então capital do país, o artista realizou mais de 800 aquarelas sobre a vida cotidiana no Brasil, que tiveram um recorte posteriormente publicado em livro.
 
A mostra, quejá foi exibida no Museu da Chácara do Céu (RJ) e na Maison de l'Amérique Latine (Paris), chega ao Recife com um recorte especial de 79 gravuras em aquarela, os três volumes do livro Viagem pitoresca e história ao Brasil - pertencentes aos Museus Castro Maya (RJ) -, e uma rara pintura a óleo do francês: Mercado de Escravos de Valongo, do acervo permanente do colecionador Ricardo Brennand.
 
Segundo o curador da mostra, o filósofo e sociólogo francês Jacques Leenhardt, a seleção das obras foi realizada com o objetivo de restituir o processo intelectual, político e histórico do trabalho de Debret, de acordo com seus próprios comentários tecidos em registros dos anos em que esteve no Brasil. "Além de obras que eram realizadas sob encomenda para a corte portuguesa, Debret tinha o interesse pessoal de sentir e representar a energia desse povo no Rio de Janeiro, uma cidade que se transformava com a chegada da corte", conta Leenhardt.
 
Debret buscou documentar as relações entre as diferentes classes sociais no Rio de Janeiro da época. Nesta gravura de 1827, uma família pobre recolhendo o produto do trabalho de uma negra.  Crédito: IRB/Divulgação
Debret buscou documentar as relações entre as diferentes classes sociais no Rio de Janeiro da época. Nesta gravura de 1827, uma família pobre recolhendo o produto do trabalho de uma negra. Crédito: IRB/Divulgação
 
 
A exposição é realizada na Pinacoteca do Instituto e segue a ordem da Viagem pitoresca e histórica ao Brasil, dividindo as obras selecionadas por temáticas, de acordo com os três volumes originais do livro, publicado entre 1834 e 1839. O primeiro tomo da obra é dedicado à cultura indígena, com o título de A casta selvagem, no qual o artista retrata a desconfiança dos nativos em relação ao homem branco, sempre associados à ideia de tirania.
 
Na segunda parte, A indústria do colono brasileiro, o artista documenta como a violência da escravidão marcou todas as instâncias da vida no Rio de Janeiro, então capital da colônia, e retrata os negros como os verdadeiros pilares para a construção do império. "Debret sempre enfatiza a importância das culturas próprias dos índios e africanos, mesmo quando destroçadas. Do ponto de vista dele, é a partir das capacidades técnicas do homem africano que se podia construir a nação", narra o curador.
 
Este questionamento crítico é bastante visível nas obras: a figura do homem branco nunca é retratada em situação de trabalho, por exemplo. Cabia ao negro assumir as funções de arquiteto, construtor, barbeiro, sapateiro, carregador, entre outras. Responsável por relançar Viagem pitoresca e histórica ao Brasil em volume único no ano passado, Leenhardt conta que, em seus relatos, "Debret sempre comenta o fato de quem trabalhava no Brasil era o escravo. Neste aspecto, ele podia ser considerado antirracista".
 
Diferente do primeiro capítulo, que foi aceito com louvor pelo império após a publicação, o segundo volume foi rechaçado pela nobreza da época, conta Leenhardt: "O retrato da violência sofrida pelo homem negro no Brasil foi completamente rejeitado pelo Império. A obra foi tratada como caricatura, porque se negavam a acreditar que os negros representados 'magros como esqueletos' nas gravuras representassem a realidade do Brasil".
 
Mercado de Escravos de Valongo (1822) é uma das raras pinturas de óleo sobre tela conhecidas de Debret. Crédito: IRB/Divulgação
Mercado de Escravos de Valongo (1822) é uma das raras pinturas de óleo sobre tela conhecidas de Debret. Crédito: IRB/Divulgação
 
 
No terceiro recorte, as aquarelas tratam da vida cotidiana do Rio de Janeiro e de sua corte. No livro, que também faz parte da exposição, todas as imagens são acompanhadas por comentários detalhados do autor, nos quais ele documenta os aspectos que constituíam a sociedade brasileira no início do século 19, período de transição da colônia portuguesa em império brasileiro.

Segundo Hugo Vieira, historiador e pesquisador consultor do IRB, a exposição tem como maior mérito realizar "uma desnaturalização da visão 'romancesca' que foi colocada na nossa história". "As gravuras de Debret trazem a missão educacional de formar cidadãos através da desconstrução do mito da democracia racial que é contada por parte de nossa historiografia", defende. 
 
Debret e a missão artística francesa no Brasil: 200 anos fica em exposição para o público de 3 de fevereiro a 2 de abril, com visitações de terça-feira a domingo, das 13h às 17h. A reedição moderna de Viagem pitoresca e histórica ao Brasil, lançada por Jacques Leenhardt com a junção dos três volumes, textos do autor traduzidos e uma introdução sobre o processo de esquecimento e redescoberta de Debret, ficará à venda no IRB por R$ 250. 

SERVIÇO
Exposição Debret e a missão artística francesa no Brasil: 200 anos
Onde: Pinacoteca do Instituto Ricardo Brennand (Rua Mário Campelo, 700, Várzea)
Abertura: 2 de fevereiro (para convidados) e 3 de fevereiro, para o público
Visitação: até 2 de abril, de terça a domingo, das 13h às 17h
Quanto: R$ 25 e R$ 12 (meia)
Informações: 2121-0352

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