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Carnaval Meio artístico comenta proibição de gêneros musicais no carnaval de Pernambuco Brega, swingueira, arrocha, funk, sertanejo, pagode estilizado, forró eletrônico e forró estilizado ficaram de fora da convocatória

Por: Isabelle Barros

Por: Larissa Lins - Diario de Pernambuco

Publicado em: 28/12/2016 10:17 Atualizado em: 28/12/2016 12:04

Convocatória afeta o carnaval do estado, mas prefeituras têm liberdade de contratar outras atrações. Foto: Ricardo Fernandes/DP
Convocatória afeta o carnaval do estado, mas prefeituras têm liberdade de contratar outras atrações. Foto: Ricardo Fernandes/DP

Brega, swingueira, arrocha, funk, sertanejo, pagode estilizado, forró eletrônico e forró estilizado foram “barrados” na convocatória da Secretaria de Cultura de Pernambuco e da Empresa Pernambucana de Turismo (Empetur) e estão fora do Carnaval apoiado pelo Governo do Estado em 2017. Divulgado ontem, o edital determina quais gêneros musicais estão aptos a integrar a programação multicultural do próximo ano: cultura popular (40% dos recursos), música de tradição carnavalesca (30% dos recursos), grupos e artistas da música popular brasileira (20%) e orquestras de frevo (10%) serão os grupos responsáveis pela animação da festa.

Confira o roteiro de shows do Divirta-se


Gêneros como axé e rock, além do pop, pop rock nacional e forró tradicional, estão liberados, enquadrados na categoria MPB - “desde que, para esta última categoria [forró], ligados à tradição junina ou que tenham a tradição junina como fonte de pesquisa no trabalho a ser apresentado", determina o texto. A convocatória estará com inscrições abertas entre os dias 4 e 12 de janeiro de 2017.

A decisão dividiu opiniões entre artistas e produtores culturais locais, embora não deva “banir” os gêneros musicais preteridos da grade do carnaval do Recife, já que as prefeituras têm autonomia para contratar artistas de quaisquer segmentos para suas grades. Cidades do interior, mais dependentes do aporte financeiro do governo estadual para a realização da festa, devem ser as mais afetadas. Bandas dos gêneros musicais deixados de fora já haviam sido contratadas em anos anteriores.

“Damos um apoio expressivo, mas não determinante, a mais de 50 cidades pernambucanas. Não estamos discriminando gêneros musicais nem fazendo juízo de valor, mas vamos privilegiar a música que é menos tocada nas rádios. É uma opção política do Estado", declarou o secretário de Cultura de Pernambuco, Marcelino Granja. Segundo ele, as mudanças na política de produção dos ciclos festivos no estado eram esperadas: “Havia uma reclamação de quem fazia cultura. No Carnaval e no São João, só se contratam artistas pernambucanos ou ‘pernambucanizados’ há dois anos. Desde o ano passado já havia essa ênfase, com o intuito de priorizar a cultura popular da terra”, explicou.

De acordo com o gestor público, esse apoio se traduz em números que atestariam uma aproximação maior do Governo do Estado com a cultura popular. "Em 2016, aplicamos 4% dos recursos para orquestras e vamos subir para 10%. Já o aporte para a cultura popular vai subir de 20% para 30% e, no caso das músicas de tradição carnavalesca, como samba e frevo, o valor passa de 30% para 40%. A MPB vai ficar com os mesmos 20% do ano passado. É preciso frisar que as prefeituras podem continuar contratando quem elas quiserem, até porque elas gastam mais do que o Governo, especialmente em Recife, Olinda, Pesqueira e Bezerros".

>> A OPINIÃO DELES

Michelle Melo se sentiu desrespeitada pela medida. Foto: Golarrolê/Divulgação
Michelle Melo se sentiu desrespeitada pela medida. Foto: Golarrolê/Divulgação
Michele Melo, cantora

“Não trabalho no Carnaval, é uma opção desde que me tornei dona do meu próprio destino. A decisão do governo é absurda, um total desrespeito. Vários artistas locais esperam essa época para fazer um caixa. Por mais que as pessoas não aceitem ou finjam que não aceitem, nós somos a maior empresa pernambucana gerando empregos diretos e indiretos. Geramos renda para o vendedor de cachorro quente, para o instrumentista no palco. Por que eu não sou cultura? Se a nossa música toca todos os dias, em todas as classes, por que eu não sou cultura? As pessoas precisam deixar de ser hipócritas. Essa decisão é preconceituosa. As bandas de brega ainda tocam frevo. Por que o brega não pode ser tocado?”

Renato Phaelante, produtor, escritor e pesquisador fonográfico
“Eu acho que, já que estamos em crise, a hora é essa para reafirmar o folclore da região. [A decisão] indica um fortalecimento dos gêneros de raiz e da multiplicidade do nosso folclore, da nossa música popular. Fará com que essas manifestações sejam mais vistas pelo povo. O que é popular? É o que o povo fabrica e invoca para si. Nosso Carnaval tem por caracteristica o frevo de bloco, frevo canção, samba. São coisas nossas, genuínas. Esses gêneros criados pela mídia são passageiros e o Carnaval não pode ser passageiro. Essas músicas já têm seu lugar na mídia durante todo o ano. Não devem tomar também as datas festivas de tradição popular, como Carnaval ou São João. Essa será uma boa oportunidade de valorizar a prata da casa, a música popular brasileira”.

O sambista Paulo Perdigão defende soberania da preferência popular. Foto: Paulo Paiva/DP
O sambista Paulo Perdigão defende soberania da preferência popular. Foto: Paulo Paiva/DP
Paulo Perdigão, sambista

“É uma questão delicada. Eu sempre fui contra os bregas que exploram a questão da sexualidade, que objetificam o corpo da mulher, essa coisa do ‘novinha, vem para cá’. Mas não sou contra o artista fazer brega, brega romântico, sou contra apologias à criminalidade, desvios de conduta. Eu acho que essas músicas são da vontade popular, elas consomem isso, elas gostam disso. Acho que devemos respeitar essa preferência. Acho que deveria ser criado um fórum e essa decisão deveria ser debatida entre a própria classe artística, produtores, o segmento musical como um todo. Mas acho que o forró eletrônico, estilizado também é cultura popular, não deve ser banido.”

Paulo André Pires, produtor cultural e idealizador do Abril Pro Rock
"Concordo totalmente com esse caminho. Essa é uma decisão que eu acho que passa não somente pela questão da identidade, mas da segurança. Eu defendo muito essa coisa da cultura, da identidade. Acho que o carnaval entrou num processo de transformação em pop. Esse formato “festival de musica pop”, além de contribuir para acabar com a cultura do carnaval, ele estimula a violência. As atrações não podem ser definidas no gabinete. O estado deve subsidiar a cultura, a popular em primeiro lugar. O que deve ser valorizado é o trabalho dos artistas da terra, os da tradição popular. Bastou o fundador do Galo da Madrugada morrer para desvirtuarem o bloco. Colocaram Calypso, por exemplo, dizendo que é o que o povo quer. Homenagearam Chico Science sem Nação Zumbi tocar. As coisas estão perdendo o sentido, a razão.

Wilamys Freitas, produtor da banda de brega Torpedo
“Não estávamos acompanhando esse desdobramento, fomos pegos de surpresa. Acho que essa decisão é um erro. Estamos criando uma cultura séria no nosso Estado e isso deveria ser mostrado. A banda tocou no interior em 2015, pela convocatária do Governo de Pernambuco, e foi uma boa experiência. Pretendíamos apresentar uma proposta esse ano, se tivéssemos uma oportunidade. Isso vai repercutir mal dentro dos gêneros que foram barrados”.

Para o músico China, o poder público deveria acertar as contas com os artistas. Foto: Paloma Amorim/Divulgação
Para o músico China, o poder público deveria acertar as contas com os artistas. Foto: Paloma Amorim/Divulgação
China, músico

“Eu acho que antes do Governo dizer quem vai tocar e quem deve deixar de tocar, deveria se preocupar em pagar em dia. Essa coisa de escolher estilos que vão tocar no carnaval é só a ponta do iceberg. Não participo do carnaval pernambucano há quatro anos por não concordar com esse tipo de postura do Governo, isso é desrespeitoso com o artista. Eles deveriam estar mais preocupados com a organização das contas, com os artistas receberem direitinho do que decidir qual estilo musical vai tocar ou não. Falar de estilo musical num carnaval que tem a marca da multiculturalidade é até meio estranho...”

Wagner Farias, conhecido como Waguinho, cantor da Banda Santroppê
"Não sei qual foi, de fato, a justificativa do Governo. Não sei se eles vão diminuir as contratações e dar preferência a bandas de Carnaval. Se for dessa forma, acho que a decisão foi correta, mesmo se essas bandas não absorverem a demanda da época. Se o Governo simplesmente contratar artistas de fora, aí acho ruim. O Governo tem de prestigiar a cultura pernambucana e artistas como Almir Rouche e Alceu Valença. Fico triste em ver bandas maiores ou cantores que tocam em Pernambuco nesse período e nem se dão ao trabalho de escolher um repertório adequado para o Carnaval".

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