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Artes visuais J. Borges ganha exposição na Caixa Cultural em homenagem a seus 80 anos Xilogravurista e cordelista de Bezerros fez dez obras exclusivas para a mostra, cujo tema é sua própria vida

Por: Isabelle Barros

Publicado em: 20/12/2016 15:23 Atualizado em: 20/12/2016 16:28

Artista popular mostra xilogravuras sobre sua vida e a curadoria também selecionou um apanhado de obras representativas de sua trajetória. Crédito: Xirumba Amorim/Divulgação
Artista popular mostra xilogravuras sobre sua vida e a curadoria também selecionou um apanhado de obras representativas de sua trajetória. Crédito: Xirumba Amorim/Divulgação

O artista popular J. Borges, filho ilustre de Bezerros, no Agreste de Pernambuco, é guardião notável de um saber que traz embutido si o significado da palavra Nordeste. Seja pela literatura de cordel, seja pela xilogravura, José Francisco Borges é um exímio contador de histórias, que adora as feiras do interior a ponto de considerá-las as melhores festas do mundo. Elevado à condição de mestre, o artista completou oito décadas de vida recebendo homenagens, e uma delas é a exposição J. Borges 80 anos, cuja abertura acontece nesta terça, justamente no dia do seu aniversário de 81 anos. A mostra exibe 30 xilogravuras, sendo dez inéditas, e também traz trabalhos de seus filhos, no segundo andar da Caixa Cultural Recife. A iniciativa já passou por Salvador e está em negociação para ocupar outras unidades culturais da Caixa pelo país.

O xilogravurista vai sair de Bezerros direto para prestigiar a abertura da exposição e fala sobre os fatores mais importantes para a sua trajetória. “O povo protege o artista. Acho que as pessoas gostam do meu trabalho porque eu falo sobre o Nordeste. Eu ja vi coisas bonitas, ja rodei o mundo todo, mas eu prefiro falar sobre o Nordeste em meus cordeis e minhas gravuras. A região mudou muito, mas eu acompanho mais a tradição”.

A mostra tem a curadoria do artista visual José Carlos Viana e de Marcelle Farias e traz três áreas definidas: um apanhado de xilogravuras cujas matrizes já existiam, uma área apenas com cordeis e um espaço destinado às dez gravuras inéditas encomendadas especialmente para mostrar passagens da vida de J. Borges. O trabalho de dois de seus filhos, Pablo Borges e Bacaro Borges, está representado com uma gravura cada. A família inteira se envolve com o trabalho do patriarca e domina as várias etapas do processo, garantindo, assim, a passagem do ofício entre gerações.

As imagens exclusivas para a mostra foram realizadas a partir das impressões do próprio J. Borges, segundo os curadores. As gravuras, todas coloridas, trazem sua visão particular sobre infância, adolescência e chama a atenção a reiteração de sua ligação com o campo, onde trabalhou no plantio de algodão e de cana-de-açúcar. A vida na mata e Serviços do campo estão entre as obras criadas. Além disso, a alegria em interagir com as pessoas e conhecer novas possibilidades para o reconhecimento de seu trabalho estão expressas em obras como Vendendo Bolas Dançando e Bebendo e Viagens a trabalho. As matrizes de madeira também estão à mostra. “Conversamos sobre possíveis temas, mas não dirigimos nada. Ele é muito inteligente, um poeta antes de se descobrir gravador. Em sua aldeia, ele vê o universo inteiro”, constata José Carlos Viana.

O talento e a abordagem dos mitos e costumes do interior do Nordeste está expresso nas xilogravuras de J. Borges realizadas ao longo dos anos, muitas por encomenda. O sacro e o profano estão unidos na mitologia pessoal do gravurista e cordelista, que entalhou matrizes e imprimiu gravuras sobre o Carnaval, a onça - ser mítico tão admirado por outros nomes importantes da cultura local, como Ariano Suassuna - e os santos. J. Borges também se permite transgressões junto à iconografia religiosa tradicional: em uma das gravuras da Caixa Cultural ele expõe, de forma bem-humorada, uma Santa Ceia apenas com mulheres e com pinga em vez de vinho.

A ligação umbilical do artista com o cordel também é lembrada com a seleção de dezenas de folhetos, com histórias criadas tanto pelo próprio J. Borges quanto por terceiros e ilustradas por ele. Os temas vão desde clássicos do gênero e histórias fantásticas, como a do Pavão Misterioso, São Saruê e a Chegada da Prostituta no Céu, quanto de assuntos mais terrenos, como flatulência. “Ele ainda faz muitos cordeis. As feiras são muito vivas no interior e essas histórias são espalhadas por lá, além das encomendas recebidas por ele”, afirma José Carlos Viana.

MAIS J.BORGES

+PATRIMÔNIO VIVO
O cordelista e xilogravurista foi um dos primeiros artistas populares pernambucanos agraciados com o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, em 2006. No mesmo ano, ele abre o Memorial Jota Borges, em Bezerros, onde funciona seu ateliê, galeria e loja.

OFICINA
Nos dias 17, 18 e 19 de janeiro, um dos filhos do artista, Bacaro Borges, vai ministrar oficinas gratuitas de xilogravura para interessados a partir dos 14 anos. O pai, J. Borges, deve observar a oficina no primeiro dia. As aulas acontecem das 9h às 12h e das 13h às 17h. São três turmas de 25 participantes cada e as inscrições devem ser feitas entre os dias 9 e 15 de janeiro pelo e-mail gentearteirape@gmail.com

DOCUMENTÁRIO
A exposição também vai apresentar um vídeo, dirigido por Eduardo Homem, da TV Viva, no qual o xilogravurista é acompanhado em um dos lugares onde mais gosta de estar, a Feira de Bezerros, e em seu ateliê, onde o público pode ver de forma mais didática o processo de feitura das gravuras.

SERVIÇO
Exposição J. Borges 80 anos
Abertura: Hoje, às 19h
Onde: Caixa Cultural Recife - Avenida Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife
Visitação: Terça a sábado, das 10h às 20h; domingo, das 10h às 17h, até 12 de fevereiro de 2017
Entrada gratuita
Informações: 3425-1915

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