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Literatura Temática sombria escrita com leveza: livro infantil O Dia em que a Morte Sambou é lançado nesse domingo Autor do exemplar é egípcio e a ilustradora, espanhola. Para completar a diversidade cultural, evento conta com teatro de sombras e exposição

Por: Bárbara Valdez

Publicado em: 26/11/2016 13:00 Atualizado em: 26/11/2016 13:09

Na história, Seu Bio e a Morte dançam em par ao som do samba. Foto: Arquivo pessoal/Divulgação
Na história, Seu Bio e a Morte dançam em par ao som do samba. Foto: Arquivo pessoal/Divulgação

Dois parceiros numa dança inusitada. De um lado Seu Bio, velho brincante cheio de alegria, e como par a dona Morte, com sua foice e um vestido florido. O dia em que a morte sambou apresenta uma narrativa leve, voltada ao público infantil, sobre um tema que quase sempre se mostra sombrio e triste: o fim da vida. O exemplar, escrito pelo egípcio Habib Zahra e com ilustrações da sua mulher, a espanhola Valeria Rey Soto, será lançado nesse domingo (27), na Livraria Cultura do Paço Alfândega, a partir das 17h. Na ocasião haverá ainda teatro de sombras e abertura de uma exposição com dez ilustrações. Tudo gratuito.

O enredo do livro, que será vendido a R$ 34, se passa no interior de Pernambuco, nas cidades da Zona da Mata, e acompanha o velho Seu Bio, que trasborda alegria e vontade de viver, mesmo já tendo uma idade avançada. Intrigada pelo homem, a Morte resolve lhe fazer uma visita, mas até ela se deixa contagiar pela festa que envolve a história. De acordo com Habib, a proposta do texto é desmistificar o medo que se tem de morrer e ao mesmo tempo desconstruir a ideia de que pessoas mais velhas são sempre carrancudas e sem disposição para se divertir. "Queria quebrar esse tabu de que a alegria é só da juventude e quem está na terceira idade é mal-humorado. Isso é algo socialmente construído e precisa mudar", contou o autor em entrevista ao Viver.

Livro tem capa dura e ilustrações feitas em aquarela. Foto: Arquivo pessoal/Divulgação
Livro tem capa dura e ilustrações feitas em aquarela. Foto: Arquivo pessoal/Divulgação

A ideia para o livro surgiu durante viagens que Habib fez à Zona da Mata canavieira, onde, de acordo com ele, os mais velhos são bastante ativos, brincam com os netos e estão sempre com os amigos nas ruas. Assim, junto com Valéria, que deu imagem e cor ao texto, o trabalho foi ganhando forma.

Essa é a terceira publicação do casal, que se dedica a exemplares voltados para a literatura infantojuvenil. Em 2012, eles lançaram O burro errante e dois anos depois, O último golpe do lobo mal, releitura da clássica fábula Um lobo em pele de cordeiro, atribuída a Esopo. Habib afirma que sempre gostou de escrever para crianças: "é uma maneira mais límpida de se expressar e o conteúdo fica mais aparente", explica.

O dia em que a morte sambou
demorou cerca de um ano e meio para ser concluído e foi financiado pelo Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura). A publicação é independente e voltada para crianças a partir de 7 anos (leitura autônoma). Mesmo tendo como foco os pequenos, Valeria e Habib afirmam que os adultos também vão aproveitar a leitura, pois o texto busca trazer uma reflexão para todas as idades.

Para deixar a aventura de Seu Bio mais lúdica, no dia do lançamento a narrativa será encenada com um teatro de sombras e música ao vivo, tocada por Valéria com violino e escaleta, em ritmos que vão do maracatu rural a canções ciganas. O autor afirma que sempre gostou da junção entre artes cênicas e literatura – sua última publicação também seguiu esse estilo -, porém é a primeira vez que faz uso do trabalho com sombras. Para complementar, na ocasião será lançada uma exposição com algumas das ilustrações finais do livro, que vão ficar expostas durante um mês, no mezanino da Livraria Cultura.

Habib vive no Brasil desde 2005 e escreve suas histórias num português fluente. Conheceu Valeria em Olinda, dois anos depois, e desde então vivem na cidade, junto com o filho Miguel, de cinco anos. O casal espera uma boa recepção do público em relação ao livro. Além do lançamento no domingo, eles vão apresentar O dia em que a morte sambou nA Casa do Cachorro Preto, em Olinda, e na Biblioteca Amigos da Leitura, no Alto José Bonifácio, nos dias 11 e 17 de dezembro, respectivamente. Nos dois momentos os exemplares vão estar disponíveis para venda e haverá teatro de sombras.

"Olhos nos olhos, entrelaçado, o casal saiu rodopiando pelas ladeiras da cidade como se fosse um corpo só. Dançou nas ruas, nos becos, entre os cachorros adormecidos da praça. Dançou na beira do rio, no mirante da Sé, em todos os lugares por onde o velho dançarino gostava de passear". (O dia em que a morte sambou)

SERVIÇO
Lançamento do livro O dia em que a morte sambou (com teatro de sombras e exposição de desenhos)
Quando: 27 de novembro, às 17h. 
Onde: Livraria Cultura (Rua Madre de Deus, s/n, Recife Antigo)
Quanto: Gratuito (preço do livro R$ 34)
Informações: 2102-4033

Habib Zahra, à esquerda, e Valeria Rey Soto começaram a trabalhar com literatura infantojuvenil em 2012. Foto: Marina Mahmood/Reprodução
Habib Zahra, à esquerda, e Valeria Rey Soto começaram a trabalhar com literatura infantojuvenil em 2012. Foto: Marina Mahmood/Reprodução


Entrevista // Habib Zahra

Para a sociedade em geral, a morte ainda é um tabu. Como foi construir uma narrativa infantil tomando como base essa temática?
Quis abordar o tema exatamente por essa barreira que ainda temos com a ideia da morte. As pessoas têm medo de falar sobre o assunto e para mim isso não é saudável. Nós queremos pensar que somos imortais e que a morte é um vilão a ser erradicado. Então fiquei pensando nisso e quis trazer uma morte que tem leveza e que pode ser inserida dentro de um contexto alegre. As crianças precisam entender que a vida é extraordinária e para isso elas também têm que ver a morte como algo extraordinário.

O dia em que a morte sambou é seu terceiro livro. Para a concepção da história, você utilizou referências da cultura egípcia – bastante conhecida no imaginário popular pela época dos faraós, com as múmias e até o Livro dos mortos - como aconteceu na publicação de O burro errante (2012)? 
Na verdade as pessoas têm uma ideia errada do que é o Egito. A cultura faraônica foi há milhares de anos e no cotidiano da população de hoje praticamente não resta nada desse universo. O que existe é a manutenção do imaginário para os turistas. O tema da morte é considerado atualmente um grande tabu no país, com em vários outros locais pelo mundo. No início do ano fiz uma viagem ao Cairo e ouvi de uma editora que um livro sobre morte não seria bem visto por lá, seja pelas escolas, pelos pais ou pelas próprias crianças.

Você ressalta que no livro texto e ilustração são igualmente importantes. Como foi o trabalho junto com Valéria desses dois pontos? 
Primeiro eu escrevi o texto e em seguida Valéria começou a criar as imagens da história, mas isso não foi algo estático. Muitas vezes mudei passagens narrativas, porque elas não ficariam bem na ilustração e, em outros momentos, Valéria precisou refazer a sequência dos desenhos quando eu acrescentava algum trecho novo. Nós debatemos muito e isso fez com que o resultado final fosse bem apurado.

A Morte é retratada numa alegre mistura sombria: corpo de esqueleto e vestido florido. Foto: Arquivo pessoal/Divulgação
A Morte é retratada numa alegre mistura sombria: corpo de esqueleto e vestido florido. Foto: Arquivo pessoal/Divulgação


A morte ilustrada

Com inspiração na cultura mexicana, a Morte é caracterizada como uma velha senhora, mas no livro não há espaço para manto negro ou tristeza. Valeria Rey Soto, artista plástica formada em Belas Artes pela Universidade de Salamanca, na Espanha, deu à personagem vestido florido e cores vibrantes, optando por um traço leve e com tons desenvolvidos em aquarela. O trabalho plástico segue a linha dos livros anteriores ilustrados pela artista.

Em entrevista ao Viver, Valeria afirma que queria trazer a ideia de morte como algo fantástico, com uma presença grande dentro da vida: “desenhei a personagem sendo muito mais alta que Seu Bio, exatamente para transmitir isso dela ser algo imponente, mas quis também que ela passasse uma imagem bonita”, afirma. A figura final mantém a ideia do sombrio, com o esqueleto, mas traz ludicidade, pela roupagem em que é apresentada.

Para acompanhar a narrativa, que é contagiada pela alegria de Seu Bio, a Morte começa com uma aparência um tanto carrancuda, com o corpo encurvado, mas logo se torna leve e sai sambando pelas páginas.

Compreendendo o tema da morte na literatura infantojuvenil

Ainda hoje a ideia da morte é vista como um tabu pela sociedade. Dentro desse cenário, a literatura torna-se um fio condutor para debater e fazer refletir sobre o assunto, principalmente com as crianças. Até o início do século XX, as histórias que chegavam ao Brasil e tinham o tema no enredo vinham de traduções estrangeiras ou eram escritas por educadores com uma função pedagógica, sempre tendo uma lição de moral.

De maneira sombria, os contos de fadas são algumas das primeiras narrativas infantojuvenis em que a morte se faz presente. Neles, o conteúdo muitas vezes era quase adulto - devido ao fato da criança ser vista como um ser em miniatura e não alguém ainda em desenvolvimento - e bastante cruel. Um exemplo é o conto do Barba Azul, repassado ao público por Charles Perrault, que assassinava suas esposas e mantinha os corpos pendurados num dos quartos do seu castelo.

A partir da década de 1970, os livros sobre luto e a ideia do fim da vida tornaram-se mais leves. De acordo com a mestre em Educação e especialista em literatura infantojuvenil Nelma Azevedo o motivo está relacionado ao contexto histórico e mudanças sociais. "Atualmente a morte é apresenta nos textos como um momento de passagem, impossível de controlar, mas que não deve ser temido", explica.

Dentro da literatura brasileira, alguns dos livros que também trabalham o tema são Menina Nina (Melhoramentos, 2012), de Ziraldo, Corda bamba (Casa Lygia Bojunga, 2003), escrito por Lygia Bojunga, e Contos de enganar a morte (Ática, 2003), de Ricardo Azevedo.

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