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Teatro Teatro de bonecos, objetos e formas animadas têm produção escassa para adultos No Brasil, gêneros são associados ao universo infantil; Em Pernambuco, atores e diretores começam a montar peças desses estilo para um público mais velho

Por: Isabelle Barros

Publicado em: 01/10/2016 14:07 Atualizado em: 01/10/2016 15:00

Sebastião Simão Filho vai reestrear espetáculo de teatro de bonecos voltado para adultos. Crédito: Peu Ricardo/D.P./D.A.Press
Sebastião Simão Filho vai reestrear espetáculo de teatro de bonecos voltado para adultos. Crédito: Peu Ricardo/D.P./D.A.Press
Dógenes D. Lima estreou, este ano, o espetáculo de teatro de objetos O mascate, a pé-rapada e os forasteiros, com classificação indicativa de 16 anos. Crédito: Toni Rodrigues/Divulgação
Dógenes D. Lima estreou, este ano, o espetáculo de teatro de objetos O mascate, a pé-rapada e os forasteiros, com classificação indicativa de 16 anos. Crédito: Toni Rodrigues/Divulgação


Transferir sentimentos, emoções e ações dos seres humanos, para bonecos ou objetos inanimados é uma faceta do crescimento que o tempo transformou em um dos tesouros mais antigos e valiosos do teatro. Nos palcos locais e nacionais, no entanto, as narrativas de teatro de bonecos, de objetos ou formas animadas são vistas de forma mais frequente em espetáculos para crianças, que sabem capitalizar a aposta no encanto lúdico dessas figuras. Muitas vezes, isso deixa em segundo plano a capacidade que esses objetos têm de falar para um público de faixa etária maior, com cenas que podem ter, por exemplo, sexo e morte violenta. Como fazer um teatro de bonecos ou de formas animadas para adultos e, ao mesmo tempo, driblar a ideia de que esse tipo de teatro é coisa de criança?

Quem está disposto a responder essa pergunta se torna a exceção que confirma a regra. Foi assim com o ator e dramaturgo Diógenes D. Lima, cujo espetáculo mais recente, O mascate, a pé-rapada e os forasteiros, estreou este ano. A história de Recife e Olinda é contada de uma maneira picante e bem-humorada em um espetáculo de teatro para objetos no qual a classificação indicativa é de 16 anos, com direito até a cena de sexo. Enquanto esteve em cartaz, a montagem foi uma opção singular dentro do conjunto de peças da cidade. “Descobri uma forma encantadora e mais simples de se fazer teatro do que com atores. Montei a história, os personagens, as cenas, e chamei Marcondes Lima para fazer a supervisão artística. Ao mesmo tempo, é muito difícil achar o tom e fazer a plateia esquecer que há um manipulador”, avalia Diógenes.

A ideia, segundo ele, veio a partir de uma oficina realizada em 2011, no Festival Internacional de Teatro de Objetos, com o espanhol Jaime Santos. A própria noção de teatro de objetos é recente, tem cerca de 40 anos. “Com ele, aprendi que existe uma liturgia, um bailado para esse tipo de teatro. Precisei, por exemplo, pesquisar o barulho do plástico para criar a personalidade de um personagem com esse material em sua composição. O melhor de tudo foi ver a reação das pessoas. Faço teatro desde 1999 e nunca tinha visto alguém rever uma peça minha como aconteceu agora. As pessoas gostaram da novidade e de ver uma história contada com picardia”.

Se Diógenes aproveita uma técnica contemporânea para falar de uma situação muito pernambucana, o escritor Osman Lins, nascido em Vitória de Santo Antão, traz a mesma essência, por outro caminho, ao escrever o texto O mistério das figuras de barro. A cultura popular se tornou uma matriz para uma dramaturgia refinada, feita para adultos e criada para ser encenada como teatro de bonecos. Nela, o mamulengo é uma grande influência, mas a temática traz momentos espinhosos de adultério e suicídio.


A obra foi montada em 2013 e será remontada até o fim deste ano pelo ator, diretor e bonequeiro Sebastião Simão Filho, que diz perceber ainda um ranço contra essa linguagem teatral. “Aqui, o público realmente acha que teatro de bonecos é para crianças e os próprios artistas não têm muita estima por ele a ponto de adotá-lo. O boneco é capaz de expressar sentimentos como nós não conseguimos. O ator está a serviço do boneco e não o contrário. As pessoas julgam ser uma arte ‘fácil’ e essa é a origem de todos os preconceitos. Infelizmente, ainda não atingimos um grande refinamento técnico nisso, salvo algumas exceções como o Mão Molenga e o Mamulengo Só-Riso”.

A publicitária Lina Rosa Vieira, idealizadora e curadora dos festivais Sesi Bonecos do Mundo e FITO - Festival Internacional de Teatro de Objetos, toca em outro ponto importante: o acesso do público a formas diversas de teatro. “Quando o acesso é democratizado, as pessoas dão mais importância. Às vezes, a plateia estranha, mas essa sensação é importante, porque, assim, se descobrem coisas novas. Como curadora, procuro espetáculos voltados para o diálogo com a criança presente em todo ser humano, independentemente da idade. Com relação às formas animadas em geral, ainda há uma primeira associação com o teatro para crianças porque se associa o boneco ao brinquedo. A nossa ideia é mostrar, por exemplo, que o teatro de bonecos não é apenas uma manifestação folclórica, mas tem um lado mais contemporâneo. Ele chega ao Brasil destinado ao público adulto, a partir da catequese jesuíta”.

Fábio Caio, integrante do Mão Molenga, em atividade há 30 anos, também analisa, a seu modo, a aceitação do teatro de formas animadas. “É preciso desconstruir essa ideia, que observo muito, de que esse tipo de linguagem é dedicada ao público infantil. Ele é universal. Nem o desenho animado é só para crianças. Em 30 anos de grupo, sempre incluímos camadas para adultos em nossas peças. Em 1991, fizemos um espetáculo chamado Sem nome, baseados nas pinturas do holandês Hieronymus Bosch. Fizemos outras experiências pela vida noturna da cidade, ainda que, posteriormente, nosso trabalho tenha ficado mais voltado a um teatro para todas as idades”. Para o ator e bonequeiro, é este o poder do teatro com manipulação, seja de bonecos, objetos ou formas animadas: falar de qualquer assunto para qualquer idade.

O MAMULENGO COMO TEATRO DE SUBVERSÃO

Se, nos palcos pernambucanos, o teatro com elementos manipulados não é tão comum, isso é bem diferente nas artes cênicas de matriz popular, com o mamulengo, eleito como Patrimônio Imaterial do Brasil. A importância dele também é social, como uma manifestação cultural que também adota a crítica social como um de seus pilares. Tradicionalmente, as apresentações são feitas na rua, para todas as idades, mas há um limite. “É um teatro popular que não tem a ver com criança e, às vezes, certas passagens só são feitas à noite, quando não tem crianças presentes”, lembra Fábio Caio, cujo grupo Mão Molenga encenou o espetáculo Babau, baseado nessa herança pernambucana.

TEATRO DE BONECOS PARA TODAS AS IDADES NO BRASIL

GIRAMUNDO
O grupo mineiro, criado em 1970, veio ao Recife em maio deste ano com três espetáculos: Baú de fundo fundo, Pedro e o lobo e Orixás. O Giramundo - um dos grupos de teatro de bonecos mais importantes do mundo - fez espetáculo tanto voltados para crianças quanto voltados para adultos.

SOBREVENTO
O Sobrevento é um grupo fundado em São Paulo, no ano de 1986, que investiga a linguagem teatral por meio do teatro de animação. Em seu repertório, estão tanto espetáculos voltados para o público infantil quanto obras voltadas para o público adulto. Um exemplo é Beckett, trabalho que uniu em uma só peça três textos do dramaturgo irlandês. Na descrição da peça, o Sobrevento resume sua missão. “Um boneco é mais que um boneco. E mais que um homem. É um símbolo da humanidade, do gênero humano”.

MAMULENGO SÓ-RISO
O Mamulengo Só-Riso foi criado por Fernando Augusto, Luiz Maurício Carvalheira e Nilson de Moura em 1975, em Olinda, e foi reconhecido no Brasil e no Exterior pela excelência no trabalho teatral a partir da linguagem essencialmente nordestina do mamulengo. Posteriormente, o grupo criou o Museu do Mamulengo e o Centro de Produção Cultural Mamulengo Só-Riso, coma função de difundir essa arte.

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