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Homenagem Ícone do manguebeat, Chico Science completaria 50 anos neste domingo No aniversário de nascimento de Francisco Assis de França, o Viver inicia uma série de reportagens sobre o garoto de Rio Doce cujo talento é reverenciado no Brasil e no exterior

Por: Larissa Lins - Diario de Pernambuco

Por: Luiza Maia - Diario de Pernambuco

Publicado em: 13/03/2016 08:57 Atualizado em: 13/03/2016 15:57

À frente da Nação Zumbi, Chico cantou no festival Abril Pro Rock em 1994. Foto: Gil Vicente/DP
À frente da Nação Zumbi, Chico cantou no festival Abril Pro Rock em 1994. Foto: Gil Vicente/DP

Os caranguejos visitavam as casas e os quintais dos moradores da Rua Girassol. Na casa 83, morava o garoto Francisco de Assis França, em Rio Doce, Olinda. Caçula entre os quatro filhos de Dona Rita e Seu Francisco, nasceu há exatos 50 anos, no dia 13 de março de 1966. Veio ao mundo no Hospital dos Evangélicos, na Jaqueira. Da maternidade, Chico foi levado de barco, nos braços da mãe, para a casa da família, em Santo Amaro. "Tinha táxi na frente da maternidade, mas não peguei. Atravessei o rio com ele no barco e peguei o táxi no outro lado. Acho que foi uma intuição divina", revela Dona Rita, saudosa e cheia de orgulho, entre fotografias, vinis e objetos guardados do filho, morto em trágico acidente de carro no dia 2 de fevereiro de 1997.

A relação de Francisco com os manguezais e o fascínio pelo complexo ecossistema escolhido para batizar o movimento musical liderado por ele floresceram em Rio Doce, para onde se mudou aos 4 anos. Ao fim da rua onde morava, os garotos brincavam de catar caranguejo para comer ou arrecadar dinheiro para festas. Asmático, ia escondido da mãe, o dia inteiro à máquina de costura, apesar da proibição. "Ele tinha os amigos de andar de bicicleta, brincar no mangue, pião, perna de pau, bola de gude, carrinho de rolimã. Ele era um garoto levado. Era mais livre, porque os caçulas são mais soltos", revela a irmã Goretti França, 54 anos, com quem Chico morava quando morreu.

Chapéu de palha era um dos itens obrigatórios do figurino. Foto: Gil Vicente/DP
Chapéu de palha era um dos itens obrigatórios do figurino. Foto: Gil Vicente/DP
Apaixonado por cinema, levava para casa recortes de película de filme recolhidos ao fim das sessões no Cine São Luiz, na Boa Vista. A família era toda amante da música. O pai tocava tamborim amadoramente e gostava das “músicas de antigamente”. Os irmãos mais velhos apreciavam MPB nordestina, como Alceu Valença, Fagner, Novos Baianos. A Chico, cabia introduzir em casa novos sons. O ecletismo conduzia as descobertas, impulsionadas pelas revistas especializadas como a Bis, compradas no aeroporto, único ponto de vendas: black music, hip hop, jazz, blues e punk estavam entre os gêneros prediletos.

Adolescente, passou a frequentar as rodas de break, nas quais conheceu o também b-boy Jorge [Du Peixe], futuro parceiro musical. Garoto de periferia, estudante de escola pública até o fim do ensino primário, foi transferido para o Colégio Bairro Novo, onde surgiu a primeira banda liderada pelo então Chico Vulgo, a Orla Orbe, de 1987. O currículo do grupo tem menos de 20 apresentações, mas inclui a primeira gravação de A cidade. O embrião da Nação Zumbi foi a Loustal, segundo conjunto de Chico, criado em meio à tentativa de movimentar a cena cultural encabeçada por jovens fanáticos por música. O nome denotava outra paixão: os quadrinhos. Loustal era o ilustrador francês por trás de publicações como Cyclone e Rock and folk, encartadas no fim dos anos 1970 e devoradas por Chico entre ensaios.

Nos corredores da Empresa Municipal de Informática (Emprel), onde trabalhava, conheceu o contínuo Gilmar Bolla8, percussionista do bloco Lamento Negro. "Um dia, batendo papo, me perguntou o que eu gostava de ouvir. Descobrimos muitos gostos parecidos. Falei sobre a Lamento, os ensaios de samba-reggae na periferia, as aulas de capoeira e de percussão. E ele achou aquilo interessante", recorda. No sábado seguinte, Chico conhecia o grupo, no Daruê Malungo, cuja sede era na comunidade Chão de Estrelas, em Peixinhos.

Nação Zumbi foi o primeiro grupo de rock pernambucano a carregar referências regionais e atrair a atenção internacionalmente. Foto: Clemilson Campos/DP
Nação Zumbi foi o primeiro grupo de rock pernambucano a carregar referências regionais e atrair a atenção internacionalmente. Foto: Clemilson Campos/DP
Poucas semanas depois, Chico incorporou a batucada da Lamento Negro à sonoridade punk da Loustal, apesar do estranhamento inicial provocado nos integrantes, de ambos os lados. Os ensaios eram guiados pelo improviso e pela fusão dos ritmos. Mesmo com parco domínio dos instrumentos, conduzia os arranjos com batuques e sons emitidos com a boca. A alcunha Chico Science foi adotada sob inspiração do apelido de um tio sabichão do jornalista Renato L, segundo o próprio "ministro da comunicação" do movimento manguebeat, do qual foi ícone absoluto. A justificativa surgiu depois, conduzida pela alquimia intuitiva para misturar rock às sonoridades de afoxés, caboclinhos, escolas de samba e maracatus. Inspirado pelo legado histórico de Zumbi dos Palmares - ícones como Josué de Castro e Mestre Salustiano também foram reverenciados nas letras -, surgiu o nome da banda com a qual marcou a música brasileira: Chico Science & Nação Zumbi.

Science emprestaria a liderança e voz à Nação Zumbi por somente dois discos, lançados até no Japão. A carreira meteórica alcançou palcos internacionais a partir de 1995, quando a banda tocou no Central Park, nos EUA, e rumou à Europa. Pela primeira vez, um grupo de rock carregava, com as raízes regionais na bagagem e nos figurinos, o nome do estado aos holofotes da indústria musical e às manchetes da crítica especializada. Ele participou pela última vez de uma festa da turma em 1º de fevereiro de 1997, um dia antes do acidente de carro com o qual perdeu a vida. Na prévia do bloco Enquanto Isso na Sala da Justiça, no Centro de Cultura Luiz Freire, reencontrou amigos distantes devido à intensa agenda de shows. 

Chico conduziu os caranguejos com cérebro ao mundo e ao âmago da cultura pernambucana. Deixou uma filha, batizada Louise Taynã, e um legado repassado às gerações seguintes. Com chapéu de palha coquinho, óculos de segunda mão e camiseta de malha, impulsiona, quase 20 anos após a trágica morte, os sonhadores por um mundo melhor: "Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar".


Trajetória do mangueboy

 (Foto: Dona Rita/Acervo pessoal)
1966
Nasce Francisco de Assis França Caldas Brandão, no dia 13 de março de 1966, no Hospital dos Evangélicos, na Jaqueira. O nome é uma homenagem ao pai (Francisco) e a São Francisco de Assis e, na fase adulta, daria lugar a alcunha Chico Science, como ficou conhecido internacionalmente.

1987
Ainda conhecido como Chico França, forma a primeira banda, Orla Orbe, em Rio Doce, composta por ele nos vocais, Lúcio Maia (guitarra solo), Helder (baixo), Vinícius (bateria), Fernando (guitarra). Na época, conhece Aninha, mãe da única filha, Louise Taynã, para quem dedicou a música Continuação, nunca lançada.

 (Foto: Dona Rita/Acervo pessoal)
1989
Funda a Loustal, grupo cujo repertório mescla o rock dos anos 1960, soul music, hip hop e funk. Lúcio Maia (guitarra) e Dengue (baixo) integram o conjunto, com o qual fez a primeira gravação de Etnia, uma das faixas de Afrociberdelia. 

1991
A partir da convivência com Gilmar Bolla8 na Emprel, o bloco de samba reggae Lamento Negro, do qual Gilmar fazia parte, junta-se à Loustal. A reunião de artistas daria início, em poucos meses, ao projeto Chico Science e Nação Zumbi.

1992
Chico faz show marcante nos fundos da Galeria Joana D’Arc, no Pina, Zona Sul do Recife, em festa de Natal alternativa. A apresentação marca, para os engajados com a cena mangue, uma mudança no comportamento do público: a popularidade cresce e o nicho restrito de fãs ganha novos adeptos.

1993
Show da CSNZ no primeiro Abril Pro Rock desperta interesse de gravadoras nacionais. Em junho, a banda viaja de ônibus de linha para São Paulo e Belo Horizonte, junto com a Mundo Livre S/A. Chico previu, entre amigos e familiares, que viajaria "por baixo" e voltaria "por cima". Na capital paulista, durante almoços de negócios, o grupo pedia que embrulhassem as sobras para o jantar, dada a escassez de recursos. A Nação assina contrato com a Sony Music.

1994
Primeiro disco de estúdio do grupo, Da lama ao caos é lançado. As 14 faixas (uma de Fred Zeroquatro e as outras autorais) foram gravadas no estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro. Chico lançaria em vida somente um disco além deste, Afrociberdelia, em 1996.

1995
Chico Science e Nação Zumbi iniciam a primeira turnê internacional. A estreia é no Central Park, em Nova York, durante o festival Summerstage, em junho. O grupo abre o show para Gilberto Gil, a pedido do próprio, com quem Chico canta na ocasião, e conhece David Byrne. Quatro países europeus são visitados.

1996
A segunda turnê dura 17 dias e inclui Estados Unidos e 17 cidades na Europa, Chegam a tocar com nomes como Beck e Nick Cave. Chico se encanta pela Europa e, entre amigos, ventila a possibilidade de fixar residência no continente. Em setembro, sobe ao palco do Clube Português e faz seu último show com a Nação Zumbi na capital pernambucana, na turnê de Afrociberdelia. Em dezembro, comanda o último show, no Canecão, no Rio.

1997
Aos 30 anos, Chico Science morre em acidente de carro, em 2 de fevereiro. O veículo se choca contra poste, na região do Complexo de Salgadinho, enquanto ele dirige do Recife em direção a Olinda. Science está sozinho em um Uno branco e é socorrido ao Hospital da Restauração, onde dá entrada sem vida. Canta pela última vez no Baile dos Artistas, no Clube Português, a convite de Antônio Nóbrega, com quem se apresentaria em trio elétrico com o bloco Na Pancada do Ganzá, no dia 3 de fevereiro.




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