• Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no Google Plus Enviar por whatsapp Enviar por e-mail Mais
Exposição Cadáveres e órgãos humanos conservados compõem mostra em cartaz no Recife Evento já despertou polêmica em países como Venezuela, onde foi proibido pelo presidente Hugo Chávez

Por: Fellipe Torres - Diario de Pernambuco

Publicado em: 16/02/2016 09:00 Atualizado em: 16/02/2016 11:24

Exposição "O Fantastico Corpo Humano". Foto: Francisco Lorentz / Divulgação
Exposição "O Fantastico Corpo Humano". Foto: Francisco Lorentz / Divulgação

Na virada do século 19 para o 20, um dos pontos turísticos mais bizarros de toda a Europa era o necrotério de Paris. Aberto ao público de domingo a domingo, o local chegava a receber até 40 mil visitantes em um único dia. Para a historiadora norte-americana Vanessa Schwartz, autora de O cinema e a invenção da vida moderna, tal espetáculo – público e gratuito – corroborava a ideia da “vida vivenciada como um show”. A morte, portanto, era vista como um “espetáculo voyeur”. Embora as visitações públicas ao necrotério parisiense tenham sido encerradas em 1907, o fascínio por defuntos não arrefeceu. Mais de um século depois, exposições de grande porte rodam o mundo e atraem milhões de espectadores, como é o caso da mostra O fantástico corpo humano, em cartaz a partir de quarta-feira (17), no Shopping RioMar, no Pina.

Recife é a sétima capital brasileira a receber a atração, já vista por mais de 20 milhões de pessoas e considerada o maior laboratório de anatomia itinerante do mundo. Diferente do caráter unicamente mórbido da França de antigamente, a exibição de cadáveres moderna está mais ligada à ciência e ao aprendizado. Afinal, junto aos mais de 150 órgãos humanos reais e de alguns defuntos quase completos, há cartazes, fichas catalográficas e até o apoio de monitores com formações em educação física, enfermagem, entre outras especialidades. Durante a curta passagem na capital pernambucana, a expectativa é de receber ao menos 60 mil pessoas. Mesmo antes da conclusão da montagem das peças museológicas, ontem, 5 mil estudantes pernambucanos já tinham a visita agendada.



“A mostra tem um objetivo informativo e didático. Não encaramos como puro entretenimento. Tanto, que a cada capital percorrida, transmitimos informações relevantes sobre o corpo humano para cerca de 20 mil alunos. O público leigo tem interesse de conhecer o próprio corpo”, diz a coordenadora nacional da exposição, Ruth Carvalho. Em um espaço de 800 metros quadrados, as galerias são divididas de acordo com os sistemas do corpo – nervoso, respiratório, digestivo, cardiovascular e reprodutivo. Também há espaços dedicados à vida fetal e à medicina moderna.

“São cadáveres? São, mas não estão aqui para mostrar a morte, e sim como nós somos, a riqueza de detalhes do corpo humano, a harmonia de tudo”. Ao visitar a exposição, a reação mais comum, segundo a organizadora, é a de encantamento (ao invés de um suposto asco ou do medo). “A gente vê uma propagação de sentimentos. Casais se abraçam, mães beijam os filhos, grávidas se emocionam ao verem os fetos. As pessoas vão sendo conquistadas e cada um sai daqui achando uma coisa mais bonita”. Vez ou outra há casos de estudantes passando mal, embora os responsáveis pela mostra costumam atribuir à ansiedade da excursão escolar.

Uma curiosidade é a frequente comparação entre órgãos saudáveis e doentes (são ressaltadas as consequências do câncer de mama e cólon, da cirrose hepática e osteoporose), algo particularmente impactante no caso dos pulmões (um normal e outro de um fumante). Nesse ponto da exposição, foi acrescentada uma “bossa” de caráter antitabagista. Uma grande caixa de acrílico estimula as pessoas a jogarem fora, ali mesmo, as carteiras de cigarro. “É uma apologia à vida”, gaba-se Carvalho. 

Exposição "O Fantastico Corpo Humano". Foto: Francisco Lorentz / Divulgação
Exposição "O Fantastico Corpo Humano". Foto: Francisco Lorentz / Divulgação


CENSURA MACABRA
Segundo os organizadores da exposição, muita gente desiste de visitar o espaço quando está um pouco antes da entrada, com medo. Em 2009, quando a mostra internacional estava nos preparativos para aportar em Caracas, o público venezuelano sequer teve condições de decidir. Isso porque o presidente
Hugo Chávez proibiu a exibição dos corpos e mandou confiscar todo o material. “Estamos em meio a algo macabro. São corpos humanos. Corpos humanos! Este é um sinal realmente claro da enorme decomposição moral que atinge nosso planeta”, disse. A coordenadora nacional da mostra, Ruth Carvalho, considera o episódio um caso isolado, ligado a “questões religiosas e políticas”, e bem diferente da realidade encontrada nas capitais brasileiras.
 
Exposição "O Fantastico Corpo Humano". Foto: Francisco Lorentz / Divulgação
Exposição "O Fantastico Corpo Humano". Foto: Francisco Lorentz / Divulgação


MADE IN CHINA
Como a técnica usada para preservar e realçar os detalhes dos órgãos e corpos é proibida em quase todo o mundo, os defuntos da mostra são da China, país onde a plastinação é permitida. Criado em 1977 pelo artista e cientista alemão Gunther von Hagens, o procedimento embalsama, disseca o cadáver e retira os líquidos e gorduras corporais, para, em seguida, substitui-los por resinas elásticas e coloridas de silicone (ou outro polímero). Comparado por especialistas à fossilização mineral, o processo de plastinização mantém os corpos inodoros e bem conservados.
Na mostra itinerante em cartaz no Recife, os órgãos são protegidos por caixas de acrílico (algumas cheias de água, para realçar o colorido dos polímeros). Já os cadáveres ficam expostos para interação, tal como bonecos de cera. Um dos cuidados especiais é a temperatura do local, mantida sempre por volta dos 22 graus celsius para evitar mofo.
 
SERVIÇO
Exposição O fantástico corpo humano
Quando: a partir de quarta-feira (17). De segunda a sábado, das 14h às 21h, e domingos e feriados, das 12h às 19h
Onde: Shopping RioMar (Avenida República do Líbano, 251, Pina)
Quanto: R$ 20 (meia) e R$ 40 nos dias de semana e R$ 25 e R$ 50 nos fins de semana
Informações: 4141-1476



Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.