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Negritude Consciência negra: quando a cor da pele define quem aparece na literatura Na semana da Consciência Negra, o Viver inicia série de reportagens sobre o paradoxo da invisibilidade de escritores negros no Brasil - e em Pernambuco -, país formado sobretudo por afrodescendentes. A lacuna espelha tratamento dado à população enquanto autores internacionais viram best-sellers ao garantir a voz para a realidade onde vivemos

Por: Fellipe Torres - Diario de Pernambuco

Publicado em: 16/11/2015 21:25 Atualizado em: 17/11/2015 19:15

Arte/DP
Arte/DP

O pernambucano Joaquim Nabuco não se sentia confortável quando classificavam o maior nome da literatura brasileira como negro ou mulato. Considerava pejorativo. Machado de Assis, contudo, não só tinha características afrodescendentes como era filho de ex-escravos e viveu parte da vida no regime escravocrata. Ainda assim, a grandiosidade da obra o alçou a um patamar inimaginável para a época. Mais de um século depois, a negritude permanece associada à falta de chances na sociedade e, por conseguinte, na literatura. Segundo pesquisa conduzida no ano passado pelo sociólogo Carlos Costa Ribeiro, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos/UERJ, quanto mais escura a cor da pele, menos renda, menos educação, menos oportunidades.

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Em contraponto ao cenário nacional, novos autores de origem africana de países como Zimbábue (NoViolet Bulawayo), Serra Leoa (Ishmael Beah), Nigéria (Helen Oyeyemi), Etiópia (Dinaw Mengestu) ganham espaços generosos nos mercados editoriais do mundo, em especial o dos EUA. São, em média, jovens, habitam grandes cidades e falam e escrevem em inglês.

Vários dos temas escolhidos para a produção ficcional são duros, de foro íntimo, como o bullying e a exploração sexual dentro de casa (caso de Sapphire, autora de Preciosa). Em outros momentos, ganha nuances mais visíveis em quaisquer ambientes, como a desigualdade entre gêneros (Alice Walker, com A cor púrpura) - best-sellers adaptados em filmes homônimos.

A abertura do mercado, sobretudo no caso dos mais jovens, é fenômeno com força própria, mas impulsionado por organizações internacionais como o African Writers Trust, cujo objetivo é colaborar para escritores de origem africana acontecerem no mercado. O grupo é liderado por Helon Habili, nigeriano radicado nos EUA, autor do best-seller Oil on water, sobre exploração predatória do petróleo. 

“Conto a história real de empresas que destroem o meio ambiente para ganhar dinheiro, bilhões de dólares. As pessoas vivem nesse ambiente e não conseguem mais pescar, se alimentar, ter água”. Helon não pretende abandonar as temáticas sociais e políticas, e já prepara romance sobre a violência promovida pela organização terrorista Boko Haram na Nigéria. “Sou muito interessado em politica. Sinto que há muita injustiça no mundo, especialmente contra os pobres. Gosto de falar de tudo isso”. A denúncia social também é tema de Beasts of no nation (Feras sem pátria, tradução livre), escrita por Uzodinma Iweala, em 2005, e transformada em filme pelo Netflix, em 2015. O livro-filme expõe as mazelas associadas ao recrutamento de crianças como soldados - assunto explorado em Muito longe de casa, autobiografia narrada por Ishamel, em 2008. São vivências com poder de transferir para as obras realidades nas quais ser negro é fator decisivo entre a vida e a morte.

Enquanto isso, no Brasil, a publicação de autores negros se dá apenas por pequenas editoras, com baixo alcance e sem muita repercussão. No livro Literatura brasileira contemporânea: um território contestado (Horizonte, R$ 49,91), a doutora em letras e professora da Universidade de Brasília Regina Dalcastagnè define o perfil do escritor médio brasileiro. É homem, branco, de classe média, morador do Rio de Janeiro ou de São Paulo, professor ou jornalista. Em 15 anos, ela analisou 258 romances nacionais publicados por três grandes grupos editoriais, e apontou prevalência de 93,9% de autores brancos, de 1990 a 2004. Ampliada a pesquisa para alcançar obras editadas até 2014, o número subiu para 97,5%. Quanto aos personagens, negros são quase sempre marginais.

“O autor negro de destaque realmente não existe nos nossos dias, só aqueles de periferia, marginais, cujas atitudes são de engajamento e a literatura é arma”, diz o doutor em letras Janilto Andrade, professor da Universidade Católica de Pernambuco. Ele cita como exemplo pernambucano o poeta Miró da Muribeca.

Já o crítico Thiago Corrêa, mestre em teoria literária pela UFPE, menciona Paulo Lins, autor de Cidade de Deus - obra adaptada em filme homônimo - como exceção. “No caso dele, foi um projeto surgido na universidade, incentivado no ambiente acadêmico. Isso que falta”. A problemática da educação, opina Thiago, ainda é pouco atenuada pelas cotas universitárias. “É um problema estrutural da sociedade. A quantidade de negros nas universidades é pequena. Muitos também têm condição social difícil, e estão mais preocupados em sobreviver do que em pensar no mundo, em produzir literatura”.

Para o também professor da Universidade Católica Robson Teles, doutor em letras pela UFPB, as cotas são uma “atitude desesperada e imediatista” de resolver a questão. Serão precisos, estima, de 30 a 50 anos para a abertura gerar um reconhecimento significativo. “Vai demorar para isso ser digerido e institucionalizado de maneira natural. É um processo lento e não se restringe à literatura.”

Teles frisa o fato de só na década de 2000 ter havido uma protagonista negra em novela da Globo, vivida por Thaís Araújo. Há poucas semanas, a atriz passou a ser discriminada na internet com comentários racistas. “É muito recente a questão da abertura dos negros pela famigerada Lei Áurea, história fantasiosa e romântica. Tem a ver com a falta de espaço, mesmo. O negro ficou livre da senzala mas continua refém de um açoite social”, diz Teles.

Crédito: Acervo Pessoal
Crédito: Acervo Pessoal


Entrevista >> Regina Dalcastagnè, pesquisadora - “Como falar em literatura brasileira sem o negro?”

Como avalia o resultado da sua pesquisa a respeito da prevalência de 97,5% de autores brancos no Brasil?
A situação piorou muito. O número varia em relação ao último divulgado (93,9%, em 2013), mas pouca coisa mudou. Sobre a pesquisa, é preciso tomar cuidado porque trata somente dos romances editados em grandes editoras. Nesse caso específico, vemos que o negro não está presente, tem dificuldade de entrada, o que não quer dizer que não tenhamos excelentes escritores negros produzindo no Brasil. Há muitos bons poetas. Mesmo que eu fosse procurar poetas negros nas grandes editoras, eles não estariam lá, porque publicam em editoras pequenas ou aquelas que só editam autores negros.

O que explica a ausência?
Não sei o que acontece, se é racismo dos editores... Talvez não. O racismo é da sociedade brasileira, e isso vai penetrando em todos os âmbitos. Acham que escritores negros não são interessantes, não vendem... Quando penso em um nome como Conceição Evaristo, uma autora super respeitada e conhecida, acho impressionante que ela só publique por pequenas editoras.

E a predileção pela poesia, como se explica?
Há um incentivo para que autores negros publiquem coisas menores, porque vai ser mais fácil. Geralmente o negro passa por dificuldades maiores, até pela situação financeira, e para quem trabalha o dia todo é mais fácil escrever um poema do que se preparar para produzir um grande romance. É uma questão de tempo disponível, mesmo. Um branco, a depender, pode passar o dia todo escrevendo.

A escolaridade não tem papel importante nisso?
Sim. A literatura precisa do domínio da linguagem, então precisa de estudo, mas o domínio da língua é diferente da música - tem analfabeto que compõe, por exemplo. Na literatura, a ferramenta é o texto, não tem como fugir disso. Durante muito tempo no Brasil, tivemos negros proibidos nas escolas. Então voltamos para os dias de hoje, e vemos a situação econômica de muitos, a dificuldade maior de continuar na escola, pois as pessoas trabalham.

Parte dos escritores negros abraçam questões políticas e sociais. Há motivo especial?
Há a questão politica, de espaço de discurso. Como podemos falar que temos uma literatura brasileira, se quando vou ler romances praticamente não existe negro representado nem como autor nem como personagem dentro da obra? Não há representação literária. Quando surge um escritor negro ele está livre para escrever sobre o que quiser, mas sente a necessidade de incluir a questão negra, pois é uma responsabilidade que recai sobre ele. É como se fosse uma obrigação justamente sobre a ausência. Claro, não quer dizer que não tenhamos negros falando sobre amor, trabalho, vida. É importante conhecer a vivência das pessoas, o modo como vivem e se relacionam difere muito, e isso é trazido para a literatura. Trazer outras experiências sobre o negro, para a gente conhecer, vivenciar, pois isso só enriquece a nossa experiência, entender o jeito do outro, o jeito de ver o mundo. Ter acesso a outras histórias interessantes. Até para dizer que conhece a própria história.

E a representação do personagem negro na literatura?
Quando você cria um personagem literário você tem que criar um modo de viver. É questão estética e política. Em geral, os personagens negros são parecidos, têm problemas semelhantes. É uma grande homogeneidade. Só surgem personagens diferentes quando são criados por negros. Brancos podem escrever sobres negros, claro, o contrário também, mas a verdade é que cada um só fala do mundo que conhece.

>>> Negros do passado


Garra de Solano

O poeta recifense Solano Trindade (1908-1974) era, antes de tudo, ativista em prol da raça negra. Assunto majoritário de sua poética, foi tema de parte da obra. Dedicou-se por muitos anos a promover a cultura de origem africana, seja na literatura, no teatro ou na música. Idealizou o primeiro Congresso Afro-brasileiro em Pernambuco. Deixou poucos livros, entre eles, Cantares ao meu povo (1963).

Sou negro

Sou negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh’alma recebeu o batismo dos tambores
atabaques, gongôs 
e agogôs

Contaram-me 
que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço
plantaram cana 
pro senhor 
de engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu (…)

Miséria de Carolina
Nascida em Minas Gerais, Carolina de Jesus (1914-1977) teve uma vida inteira de privações em meio à pobreza. Frequentou pouco a escola, o suficiente para aprender a ler e escrever. Ao se mudar para São Paulo, foi catadora de papelão. A partir da publicação do diário de memórias, Quarto de despejo (1960), passou a ser lida como autora com forte conteúdo politico. 

Quarto de despejo
Deixei o leito às 4 horas para escrever. (...) Fui no Arnaldo buscar o leite e o pão. Quando retornava encontrei o senhor Ismael com uma faca de 30 centimetros mais ou menos. Disse-me que estava a espera do Binidito e do Miguel para matá-los, que êles lhe expancaram quando êle estava embriagado.

Lhe aconselhei a não brigar, que o crime não trás vantagens a ninguem, apenas deturpa a vida. Senti o cheiro do alcool, disisti. Sei que os ébrios não atende. (...)

Luta de Patrocínio
José do Patrocínio (1853-1905) foi uma das figuras mais importantes dos movimentos abolicionista e republicano do país. Criou a Guarda Negra, composta por escravos e ex-escravos. Publicou o jornal satírico Os ferrões e livros de teor político. Virou próximo de figuras como o pernambucano Joaquim Nabuco.

Os retirantes
Quando chegou a casa, o seu coração de misantropo sangrava como as veias de um estóico dentro do banho suicida. Os movimentos automáticos traiam a inconsciência do delírio; as pupilas negras nas córneas avermelhadas lembravam manchas de gangrena e pareciam querer saltar das órbitas. Estouvado e brutal atirou com o chapéu sobre a mesa; bateu com as janelas, e pisando forte e compassadamente, pôs-se a passear com uma regularidade de pêndulo. A mobília pobre de jacarandá lustrado, com o seu canapé forrado de sola, parecia ter medo. A mesa grande, no meio da sala, como que recuava diante dos seus passos. Um pequeno, que vinha sempre ajudá-lo a despir-se, entrou e, sem ousar interrogá-lo, saiu deixando um castiçal sobre a mesa. (...)


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