Poesia Poeta Miró da Muribeca comemora renascimento com novo livro, "aDeus" Nova obra poética mostra como o abismo humano pode regurgitar uma força criativa espelhada na literatura

Por: Fellipe Torres - Diario de Pernambuco

Publicado em: 06/08/2015 09:30 Atualizado em: 06/08/2015 11:20

 


"A solidão fez com que eu esquecesse de mim" conta Miró da Muribeca. Foto: Blenda Souto Maior/DP/D.A Press
"A solidão fez com que eu esquecesse de mim" conta Miró da Muribeca. Foto: Blenda Souto Maior/DP/D.A Press
Existe uma alquimia complexa na essência de toda expressão artística capaz de transformar sofrimento em alegria e beleza. Mas só consegue tal feito - defende o poeta e crítico de arte Ferreira Gullar - quem conhece de fato a dor e pode senti-la na carne. Não significa apontar as aflições como origem de todas as obras relevantes, mas de reconhecer o potencial criativo a partir da agonia, do martírio, do tormento. O pernambucano João Flávio Cordeiro Silva, vulgo Miró da Muribeca, pode não conhecer a teoria do erudito imortal da Academia Brasileira de Letras, mas, com certeza, entende o mecanismo da criação. É a praia dele e a de muitos outros escritores cujas obras são forjadas em meio a situações delicadas.

Nesta quinta-feira (06), dia do seu aniversário de 55 anos, Miró comemora um renascimento. Celebra a vida com o lançamento do livro aDeus (Mariposa Cartonera, R$ 20), cuja tônica é fruto do estado de degradação pelo qual passava desde 2012, quando enfrentou a morte da mãe, de 87 anos. O episódio o impulsionou ao alcoolismo desenfreado, até sofrer um colapso, no mês passado, no prédio onde morava sozinho (o edifício já não era habitado por mais ninguém, após serem diagnosticados problemas estruturais). Socorrido, ele recebeu orientações médicas para largar a bebida, ou morreria.

“A solidão fez com que eu esquecesse de mim. Escrevi os poemas muito antes de ir para o hospital, mas eles têm tudo a ver com o que eu estava passando, a loucura do álcool. O título já existia. Só não sabia se era mesmo um adeus à minha poesia ou se um questionamento - há Deus?”, reflete Miró. Com ajuda de amigos, ele deixou a Muribeca e se mudou para a Rua da Alegria, no Centro do Recife. Rodeado de bares, garante ter deixado de beber. Senta nas mesas e pede um copo de água.

O poeta diz ter “cortado o cordão umbilical” com o passado. O título do novo livro, afinal, é um “adeus ao bêbado que declamava com cheiro de álcool”. Nos 33 textos selecionados pelo editor Wellington de Mello, as críticas sociais pelas quais Miró costuma ser lembrado estão presentes, mas a relação (ou a falta dela) com o transcendental é o principal questionamento. As reflexões sobre a existência são recorrentes, quase sempre com um tom pessimista. Além da nova obra inédita, Miró planeja retomar a escrita e ministrar oficinas sobre o nascimento dos poemas. “Preciso seguir em frente com isso, porque não sei fazer outra coisa. Vivo da minha poesia desde 1985. Hoje sou um cronista da neurose e da alegria da cidade”.

Serviço
Lançamento de aDeus, de Miró
Quando: Quinta-feira (06), às 19h
Onde: Bar Mamulengo (Rua da Guia, 91, Bairro do Recife).

>>> escritores salvos pelas letras
Crédito: Acervo pessoal
Crédito: Acervo pessoal
História de filme
Escritor e ativista social nascido em São Paulo, Alessandro Buzo encontrou na literatura uma maneira de se livrar do uso de drogas pesadas. O relacionamento com o mundo das letras começou quando ele abriu um sebo. Posteriormente, no ano 2000, publicou o primeiro livro, O trem - baseado em fatos reais. Hoje é cineasta, repórter e tem cinco obras publicadas.

Poesia entre mendigos
Natural de Manaus, Diego Moraes fugiu de casa na adolescência, quando os pais tinham brigas intermináveis. Logo se viciou em cocaína e crack. Em São Paulo, viveu um ano nas ruas, período em que escreveu o primeiro livro. De volta ao Amazonas, com ajuda da família, encontrou-se na literatura. Com três obras lançadas, é o idealizador da Flipobre. 

Diário de um detento
Após uma vida de crimes nas ruas de São Paulo, incluindo homicídio, Luiz Alberto Mendes foi condenado a 31 anos e dez meses de prisão. Aproveitou o tempo encarcerado no Complexo Penitenciário do Carandiru para ler vorazmente obras de autores como Érico Veríssimo. Começou a escrever ainda dentro da prisão. Tem cinco livros publicados e é colunista da Revista Trip.  

Foto: Camilo Soares/divulgação
Foto: Camilo Soares/divulgação


Entrevista Miró >>>
No novo livro, você está a todo momento fazendo referências ou questionando Deus. Qual a sua relação com o sagrado?
Minha mãe, Dona Joaquina, era espírita kardecista. Ela morreu aos 87 anos. Por muito tempo, ela curava pessoas doentes que iam até minha casa com a perna inchada ou com outros problemas. Me lembro muito bem, eu com 25, 26 anos, e ela recebendo  ao pessoas. Por causa disso, sou adepto do espiritismo, mas não sou agarrado a nenhuma religião, não tenho nenhuma ligação forte. Não tenho certeza em relação a Deus. Às vezes ainda vou para o centro espírita. Recentemente, quando estive no hospital, amigos de lá foram me visitar e disseram que minha mãe mandou uma mensagem pra rezarem por mim. 

Você estava há três anos sem lançar livros inéditos e há um bom tempo sem escrever nada. Depois do lançamento deste livro em edição artesanal, tem novos projetos?
Sim, pretendo fazer mais livros, procurar patrocinador. Agora que deixei de beber, que foi a principal decisão, quero colocar mais poesias no mundo. Estou passando por um momento de vida nova, saí da vida do álcool. Vivo de poesia desde 1985, então preciso continuar assim pois não sei fazer outra coisa. Quero me apresentar nos lugares. Tenho um projeto de uma oficina chama Como  nasce um poema, que vai ter duração de uma hora e meia. Se der tudo certo, vou conversar com o pessoal da periferia, na Várzea. Também já apareceu um convite para ir pra São Paulo em breve. 

Como foi que você foi parar no hospital?
Eu apaguei em casa, estava muito mal. Quem me socorreu foi Wilson Freire. Achei que ia embora naquele dia. Tive alucinações, cheguei a ver um jacaré, tive delírios como nunca antes. Fiquei vomitando muito. Me deram soro. No hospital, fiquei no meio de vários doentes, e percebi que somente eu podia andar. Estava todo mundo com doença séria, com câncer. Então eu sabia que tinha uma chance. Quero ser aquele Miró que escreve, que é brincalhão, alegre. Estou cortando o cordão umbilical com o Miró de antes. 

Quando foi que começou essa fase ruim em sua vida, que culminou na internação
Desde que minha mãe morreu, em 2012, acho que esqueci de mim. Eu morava sozinho com ela, e, depois disso, fiquei sozinho. Entrei no álcool para valer. Era uma solidão tremenda, pois não tenho irmão, não tenho primo, então minha vida era sair para os bares. Dei tudo dentro de casa, o fogão, a geladeira. Minha televisão queimou, eu só ouvia o rádio.Saía de casa às 6h30 da manhã e começava  na cerveja, na caninha... Não tinha motivo para nada. O que me salvou, segundo o médico, é que eu não continuava bebendo de noite. Mas era um problema, pois só bebia álccol, não comia nada, nem um ovo, nem arroz com feijão. Chegou ao ponto de das pessoas da Muribeca se negarem a me vender bebida, dizendo que não me queriam ver morrer. Agora sento nos bares e bebo água. 

Como sua vida mudou nos últimos meses?
Tive que dar adeus ao Miró bebum. Eu falei que o hospital era um inferno,e o médico disse que se eu não parasse de beber, não ia nem para aquele inferno de novo... Ia passar direto, morrer. Isso está mudando a minha vida, porque eu não tinha coragem nem de pegar um ônibus. Não entrava em um loja para comprar um sapato, nem nada. Esses dias eu fui numa loja e perguntei o preço de uma alpercata (não uso sapato porque tenho joanetes no pé). O vendedor disse que era R$ 74. Na hora pensei quanto pagava a Seu Geraldo no fim da semana, quanto gastava de álcool. Era mais de R$ 80. Também comprei uma bata, roupas novas. De manhã, saio para comprar frutas, uva, mamão, banana, laranja, e sempre que vou gastar dinheiro penso no preço da cerveja.

Poesias de Miró >>> 
Passagem
há um transtorno agora na Terra

aonde vai parar tudo isso eu não sei

mas sei que daqui a pouco 

meu corpo vai embora numa rodoviária sem fim

a Terra vai pegar fogo

dessa vez vai ser diferente

não vai ter água

nem extintor de incêndio

nem Noé com sua barca

vai ter celular com quatro gigas

todo mundo vai embora elegante

e Deus no shopping

só olhando

 

Carnaval
Deus largado pelas ruas do Recife

não sabe se dança frevo 

ou vai atrás do maracatu

será que Deus também tem dúvidas?

nas ruas 

igrejas do povo

Deus deixa beijar

usar a roupa que quiser

são quatro dias 

que Deus não tá nem aí

aí, na quarta-feira de cinza

Deus de ressaca

perdoa quase todo mundo



Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.