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Auto-retrato Augusto de Campos fala sobre as experimentações que o consagraram O poeta recentemente foi reconhecido com o Prêmio Pablo Neruda

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 02/08/2015 09:27 Atualizado em:

Aos 84 anos, o poeta, tradutor, ensaísta e crítico de literatura e música Augusto de Campos é uma das referências mais importantes da poesia brasileira moderna. Com o irmão Haroldo de Campos e o amigo Décio Pignatari, assinou poemas concretos e um manifesto batizado de Plano Piloto da Poesia Concreta, homenagem a Brasília, cujos monumentos de linhas sinuosas ilustravam a proposta do grupo paulista.

Augusto de Campos é o primeiro poeta brasileiro a receber o Prêmio Iberoamericano de Poesia Pablo Neruda, do Conselho Nacional de Cultura e Artes do Chile. O reconhecimento veio em junho deste ano e é considerado raro pelo poeta que sempre explorou novas linguagens e formatos que tendem a ser assimilados com certa dificuldade pelo grande público. Mesmo mostrando que palavras e imagens são tão importantes quanto a rima, Augusto de Campos diz “minha poesia não foi feita para prêmios”.

Quando Caetano Veloso recebeu estrepitosa vaia em um Festival Internacional da Canção de 1968, ao interpretar É proibido proibir, Campos criou o poema-manifesto “Viva a vaia” em solidariedade ao compositor baiano. No entanto, espera que a escolha repercuta na valorização da poesia, que hoje vê como marginalizada. Modesto, comenta a premiação: “Se o prêmio servir a esse propósito, ficarei feliz. A valorização ao meu nome é o que menos me interessa.”

Ao Diversão&Arte, Augusto de Campos falou sobre a importância da poesia, que pode nascer de formas inusitadas e surpreendentes, do lixo ao luxo. Evocou a amizade com Décio Pignatari e as intervenções do trio que se formou, com o irmão Haroldo de Campos, para fazer poesia. Os irmãos, aliás, eram chamados por Oswald de Andrade de “firma de poesia”. Subversão, poesia digital, novas tecnologias, relação com Brasília e medo são outros temas que o poeta aborda em entrevista, por e-mail.

Brasília
O próprio nome Plano Piloto da poesia concreta, que adotamos no manifesto de 1958, já é uma homenagem ao precedente Plano Piloto de Brasília. O projeto da cidade, conduzido por Lucio Costa e Niemeyer, era para nós um símbolo da arte nova numa época em que muitos o questionavam acerbamente. Brasília fez parte do nosso imaginário construtivista e modernizante dos anos 1950. Em Brasília, vivem um filho querido e sua família, mulher e neta, também muito queridos. Em minhas constantes vindas à cidade, vim a fazer parte da sua própria vida literária, quando alguns intelectuais da cidade, Luis Turiba e outros, criaram a revista experimental Bric-a-Brac. Num restaurante da cidade, os meus amigos do círculo de poetas chegaram a me proclamar “cidadão brasiliense”.

O que contém poesia
Comecei a escrever na adolescência. Em 1948, aos 17 anos, tive o primeiro poema publicado na imprensa por iniciativa de Mário da Silva Brito, amigo de Oswald de Andrade. Nesse mesmo ano, conheci Décio Pignatari. Passamos a nos encontrar semanalmente, ele, meu irmão, Haroldo, e eu, e a pensar poesia juntos. Daí, surgiram os nossos primeiros livros. Esse inter-relacionamento amistoso e literário entre poetas foi fundamental para o meu desenvolvimento. Poesia pode-se extrair de tudo e das coisas mais aparentemente não poéticas. Até da cloaca e do lixo, como em Beba Coca-Cola, de Décio, e no meu Luxo. Mas, para mim, não vem de espanto algum, vem da pergunta sem resposta que é a própria existência e da inconformidade com as normas de expressão convencionais.

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