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Televisão O Recife assombrado do início do século 20 vira série de TV com atores de Império Prevista para maio deste ano, "Assombrações" tem o dramaturgo Newton Moreno entre os roteiristas e a Flávia Lacerda como diretora, ambos pernambucanos

Por: Fernanda Guerra - Diario de Pernambuco

Publicado em: 25/02/2015 10:30 Atualizado em: 25/02/2015 10:55

O cenário da série fará uma releitura do Recife do século passado - Foto: Museu da Cidade do Recife/Divulgação (Museu da Cidade do Recife/Divulgação)
O cenário da série fará uma releitura do Recife do século passado - Foto: Museu da Cidade do Recife/Divulgação


Algumas pausas entre as frequentes produções ambientadas no eixo Rio-São Paulo permitem à teledramaturgia brasileira penetrar no universo nordestino, a exemplo de obras consagradas como o clássico O auto da Compadecida (2000) e Amores roubados (2014), da safra recente. Em 2015, a atmosfera recifense estará na tevê. Ao lado das roteiristas Claudia Gomes e Julia Spadaccini, o dramaturgo pernambucano Newton Moreno desenvolve a série Assombrações, prevista para maio na TV Globo.

“São tantos ‘brasis’ em um Brasil só. É bonito e saudável ver que tudo isso tenha representação na tevê e que o grande público possa ter acesso”, opina o autor. As produções conectadas com o Nordeste são as que mais despertam o interesse do dramaturgo. As gravações da atração, dirigida pela também pernambucana Flávia Lacerda (Louco por elas; Clandestinos: O sonho começou) e com redação final de Claudio Paiva, começam no fim deste mês. Com cinco capítulos, a série se passa no Recife do início do século 20.

Melodrama sobrenatural, Assombrações narra a história de uma família amaldiçoada que vive em sobrados pernambucanos. Vinganças, cicatrizes do passado e injustiças misturam dois mundos na série, que vai mesclar o clima fantástico com características regionais. No elenco, estão atores como Jackson Antunes (Império), Tonico Pereira (A grande família), Letícia Sabatella (Sessão de terapia) e Marina Ruy Barbosa (Império). “A gente propõe no texto uma aproximação com o sotaque pernambucano, mas acho que não será carregado. Terá o charme do nosso jeito de falar, mas não será tão intenso”, antecipa Newton.

Letícia Sabatella, Marina Ruy Barbosa e Aramis Trindade estão entre os atores do elenco - Fotos: TV Globo e Manuela Scarpa/Divulgação  (Fotos: TV Globo e Manuela Scarpa/Divulgação)
Letícia Sabatella, Marina Ruy Barbosa e Aramis Trindade estão entre os atores do elenco - Fotos: TV Globo e Manuela Scarpa/Divulgação


Além do roteirista e da diretora, os pernambucanos Aramis Trindade, Gheusa Sena, Livia Falcão e Paulo de Pontes, que fará uma participação, também estão no elenco. Apesar de se tratar de uma série ambientada no século passado, terá uma linguagem atemporal. “O figurino é inspirado na época, mas revisitado, tanto no desenho como no material”, exemplifica Flávia. A trilha sonora será contemporânea, com produção musical do pernambucano Juliano Holanda.

Para a criação do cenário no Projac, a produção buscou referências de lugares da cidade, como a Rua do Bom Jesus e as pontes da Boa Vista e Duarte Coelho. “É uma releitura do Recife, inspirada na arquitetura da cidade dos anos 1900, expressionista e soturna. Talvez as pessoas nem reconheçam”, adianta a diretora Flávia Lacerda. De acordo com a equipe, o Recife retratado será “a esmo, menos populoso, mais de sombras e mal iluminado”.

Como o trabalho está sendo escrito a seis mãos, diferentes referências se fundem, desde melodramas clássicos a produções mais sombrias. No caso de Newton - autor da adaptação teatral Assombrações do Recife Velho - , as inspirações passam pela literatura, nas obras de Gilberto Freyre, Edgar Allan Poe e Emily Brontë, e pelo cinema, na filmografia de Bette Davis. Uma tendência na TV estrangeira, com produções como Resurrection e Les revenants, Assombrações pode atrair mais investimento para seriados de suspense na TV aberta.

Newton Moreno assina roteiro ao lado de Claudia Gomes e Julia Spadaccini - Foto: Alex Riberio/Divulgação (Foto: Alex Riberio/Divulgação)
Newton Moreno assina roteiro ao lado de Claudia Gomes e Julia Spadaccini - Foto: Alex Riberio/Divulgação


Entrevista >> Newton Moreno

“Vemos os mortos como cicatrizes”

Como está sendo a experiência de escrever para a tevê?
Tinha feito colaboração para A grande família em 2013, mas esta é a primeira experiência de um projeto gestado desde de o começo. Tem sido uma pós-graduação conviver com os outros roteiristas. Eles têm me educado para a nova linguagem, a formatação, as características. Eu confio muito na palavra, na sua soberania, tenho me sensibilizado mais para a natureza de roteiro audiovisual.

No cinema, o terror é bastante explorado, e a tevê passa a se aproximar mais do formato. Como o sobrenatural será trabalhado na série?

As histórias de terror sempre fascinaram. Há algo  de nossos medos inconscientes que se revela através do imaginário fantástico. No caso deste projeto, nós vemos estes mortos como cicatrizes de um passado de culpas. De qualquer forma, ao se aproximar do mistério, pensamos sobre o tema da morte, como nos preparamos, o que pensamos de nossa finitude.

>>De assustar

O Recife do início do século 20:
A iluminação pública precária e a natureza da cultura patriarcal canavieira contribuíram para o lado sombrio do período. À época, as pessoas não queriam se distanciar fisicamente dos mortos. “Os antigos parentes eram enterrados na própria casa. As pessoas resistiam a enterrar os mortos em cemitérios”, descreve o jornalista e pesquisador Roberto Beltrão, em referência à aproximação dos dois mundos, um dos assuntos explorados em Assombrações.

Novas visões
Perto do fim do século 19, a Igreja Católica desencorajava o contato com os mortos. A aparição de novas correntes, como a doutrina espírita Kardecismo, possibilitou outras formas de se relacionar com o sobrenatural. O pensamento positivista abordava a comunicação com os espíritos e contribuiu para o clima de assombração. Ainda de acordo com Roberto Beltrão, isso abriu espaço para figuras como videntes e cartomantes.

Suspense na TV paga
 O escritor norte-americano Edgar Allan Poe é referência na literatura, no cinema e na televisão. A teledramaturgia brasileira passou, mais recentemente, a explorar o segmento. Na TV paga, a série Contos do Edgar, de Fernando Meirelles, foi exibida pelo canal Fox em 2013. “A TV brasileira percebeu o filão do terror, do sobrenatural, que ainda pertuba o homem contemporâneo”, destaca Roberto Beltrão.

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