• Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no Google Plus Enviar por whatsapp Enviar por e-mail Mais
Jogo Como funciona a roda de capoeira? Entenda A arte foi considerada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) patrimônio cultural imaterial da humanidade

Por: Isabelle Barros

Publicado em: 27/11/2014 10:11 Atualizado em: 28/11/2014 09:03


Marcha da Capoeira, ocorrida em novembro, reuniu capoeiristas que caminharam do Marco Zero, no Bairo do Recife, ate o Patio do Carmo. Crédito: Blenda Souto Maior/DP/D.A Press
Marcha da Capoeira, ocorrida em novembro, reuniu capoeiristas que caminharam do Marco Zero, no Bairo do Recife, ate o Patio do Carmo. Crédito: Blenda Souto Maior/DP/D.A Press

O espaço singular que a capoeira ocupa na cultura brasileira vem do caráter múltiplo. Dança, canto, jogo, esporte, símbolo de resistência, tudo isso está na essência, que agora alcança um novo patamar de reconhecimento internacional. A roda de capoeira foi considerada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) patrimônio cultural imaterial da humanidade, honraria já concedida ao frevo, ao samba de roda do Recôncavo Baiano, ao Círio de Nazaré e à arte Kusiwa de pintura corporal, no Amapá.

O reconhecimento demonstra a mudança de olhar que a capoeira recebeu ao longo do século 20 e no início do 21. De forma de expressão afro-brasileira coibida ao longo do Brasil Colônia e do Império por senhores de engenho e, posteriormente, pela polícia, ela se tornou embaixadora do Brasil no exterior, com presença em 150 países. A difusão da língua portuguesa pelo mundo, o interesse em conhecer o país e a preservação da cultura afro-brasileira estão entre os benefícios da capoeira, cujas raízes históricas se ligam principalmente ao Rio de Janeiro, a Salvador e ao Recife, que receberam, ao longo da história, número incontável de africanos escravizados.

Entre os capoeiristas pernambucanos, a concessão do título foi recebida com um misto de otimismo e cautela. "Acho que a visão sobre a manifestação cultural vai mudar para melhor, pois as pessoas terão mais curiosidade e acesso à cultura da capoeiragem. Mesmo assim, acho que o preconceito não vai deixar de existir, pois ainda está arraigado no contexto social do Brasil", afirma Gilson José de Santana, o Mestre Meia-Noite, professor de dança, de capoeira e fundador do Centro de Educação e Cultura Daruê Malungo.

A necessidade de organização dos praticantes é outro ponto tocado por Pedro Luís  Silva, o Mestre Peu, da Associação Nossa Capoeira e organizador da Marcha da Capoeira, cuja 4ª edição foi há uma semana, no Dia da Consciência Negra. "Quando comecei, no início dos anos 1970, éramos discriminados e fazíamos apresentações na rua para sobreviver. Os grupos eram contados a dedo. Faltava informação, e a polícia chegava a acabar com as rodas. Éramos pobres, mas resistimos. A capoeira se globalizou e foi aceita pelo ambiente acadêmico. Mas ainda estamos sem força política. O poder público ainda não viu o potencial dessa manifestação".

Crédito: Bernardo Dantas/ DP/D.A Press
Crédito: Bernardo Dantas/ DP/D.A Press
A capoeira, por sinal, tem relação umbilical com outro patrimônio: o frevo. No fim do século 19, os capoeiristas, conhecidos como “brabos”, se afirmavam na saída das bandas militares pelo Recife. Ao acompanhar a música com guarda-chuvas e navalhas na mão, furavam os instrumentos, brigavam entre si, às vezes até morrer, e, ao mesmo tempo, criavam o embrião do passo do frevo a partir dos movimentos da capoeira.

Com a criação dos clubes pedestres e o fortalecimento do carnaval no século 1920, a relação entre dança e luta se intensificou até ser coibida pela polícia por volta dos anos 1930. "Pernambuco guardou a memória histórica de um jogo mais agressivo, ligado à marginalidade, mas, a partir dos anos 1960, a capoeira retornou com a influência da Bahia, mais ligada ao jogo, redefinindo a forma de fazer capoeira por aqui", diz José Olímpio Ferreira da Silva, o Mestre Corisco, do Chapéu de Couro, na ativa há 31 anos.

Para ele, o título deve ser visto a partir das próprias raízes da manifestação cultural. "Na ginga, temos sempre um pé na frente e outro atrás. Vamos ficar no aguardo. Pode ser uma estratégia política. Mas o reconhecimento é um acerto, pois a capoeira pode transformar o ser humano para melhor".

Para jogar: entenda a roda de capoeira

COMO É A roda é aberta pelo mestre com uma ladainha, cântico que pode estar relacionado a fato histórico ou vivência dos capoeiristas. Quem joga permanece agachado ao pé do berimbau antes de ir ao meio da roda, que segue com o jogo livre entre dois oponentes.

MESTRE Quem abre a roda e comanda as atividades. Toca, canta e orienta os participantes, impedindo o jogo se ele estiver mais agressivo. A posição só é conquistada após anos de prática e exige, além da excelência nas técnicas de luta da capoeira, o respeito profundo e admiração de todos os participantes.

CONTRAMESTRE O contramestre é um assistente do mestre e o ajuda a gerir a roda. A nomenclatura está relacionada ao jargão náutico, já que muitos capoeiristas também serviram à marinha.

INSTRUMENTOS Ajudam a dar ritmo ao jogo e marcar o tempo. O berimbau é o instrumento mais importante, tocado pelo mestre. Há instrumentos de percussão, como o pandeiro e o atabaque, composto por tambores de pele de animal usados para marcar o ritmo do jogo. Ainda: agogô, feito de ferro, o reco-reco, cujo som é produzido pela raspagem do instrumento, e o caxixi, pequena cesta de vime que o tocador de berimbau usa como cocalho.

Assista ao vídeo Roda de capoeira



Incentivo

Antes do título da Unesco, a roda de capoeira e o ofício dos mestres de capoeira já haviam sido reconhecidos como patrimônio cultural brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2008. Constam no Livro de Registro das Formas de Expressão e no Livro de Registro dos Saberes da instituição. O órgão vê chance de incentivo à dança com o título. No dossiê à Unesco, orçou em R$ 2 milhões as ações para preservar e difundir a prática.

Para saber mais

Dicionário de Capoeira de Mano Lima
(Conhecimento Editora, 2007) reúne 1,6 mil verbetes associados à expressão. Estão registrados nomes de capoeiristas, nomenclaturas de movimentos, gírias, além de fotografias e uma filmografia recomendada.

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.