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Cinema Cineasta faz documentários sobre Ronaldo Correia de Brito e José Luiz Passos Curtas-metragens biográficos fazem parte do projeto Writers made in Brazil

Publicado em: 27/10/2014 07:00 Atualizado em:

Foto: Eduardo Montes-Bradley/Reprodução montesbradleyphoto.com e Editora Alfaguara/divulgação
Foto: Eduardo Montes-Bradley/Reprodução montesbradleyphoto.com e Editora Alfaguara/divulgação


Argentino radicado nos Estados Unidos, o cineasta Eduardo Montes-Bradley grava em Pernambuco, nesta segunda e terça-feira (27 e 28/10), imagens de apoio para documentários sobre os escritores José Luiz Passos e Ronaldo Correia de Brito. Os curtas-metragens biográficos fazem parte do projeto Writers made in Brazil, que já rendeu perfis sobre Adriana Lisboa, Carola Saavedra, Luiz Rufatto e Milton Hatoum. 

No ano passado, quando o cineasta gravou entrevista com Ronaldo Correia de Brito, a repórter do Viver Luiza Maia repercutiu os detalhes do documentário. Leia, abaixo, matéria publicada em julho de 2013:  
 
Eduardo Montes-Bradley e Ronaldo. Foto: Reprodução do Facebook/Ronaldo Correia de Brito
Eduardo Montes-Bradley e Ronaldo. Foto: Reprodução do Facebook/Ronaldo Correia de Brito


As assombrações da infância do escritor Ronaldo Correia de Brito chamaram a atenção do documentarista Eduardo Montes-Bradley, nascido na Argentina e radicado nos Estados Unidos desde a década de 1970. Os medos da noite, do escuro e até do barulho dos pássaros em Saboeiro (CE) devem nortear o documentário Correia de Brito, gravado no Recife, onde vive desde os tempos da faculdade de medicina.

“Eu acho que vivi uma infância assombrada. E eu acho que minha literatura é assombrada. Há sempre o quadro de um morto na parede, uma morte que nos espreita, nos olha, nos vigia, como que a dizer que estamos sendo esperados”, conta o autor de Galileia, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, em 2009, em uma das cenas registradas.

O filme integrará o catálogo do Heritage film project, da norte-americana Alexander Street Press, e deve ser distribuído para 1.200 universidades em diversos países do mundo. A proposta de Montes-Bradley, diretor de mais de 60 filmes e de Samba no pé, incluído na programação do Festival do Rio, em 2005, é apresentar a vida e literatura dos escritores, mas sem análises sobre a obra ou opiniões de críticos e editores. Os brasileiros são Adriana Lisboa, Carola Saavedra, Milton Ratoum e Luiz Ruffato.

“Quero ir adentro. Eu faço uma pintura, um retrato. Não tenho interesse sobre o que os escritores pensam sobre a própria obra, nem faço entrevistas. Se você deixa os autores falarem, afloram as alegrias, tristezas, lágrimas”, explica, a respeito do conceito dos projetos. Com Ronaldo, a estratégia deu certo. Os registros audiovisuais mostram confissões e leituras com forte carga dramática de alguns textos, uma verdadeira interpretação cênica captada pelas lentes de Montes-Bradley, com a ajuda do estudante de litearatura russa Maximilian Gordon, que não entende português. “Falar para alguém que não entende a língua, de certa forma, inspirou Ronaldo a ampliar os gestos, para tentar passar a mensagem através de outras formas”, acredita o documentarista.

Homem cruzando pontes, de Retratos imorais, foi o primeiro conto de Ronaldo a chegar às mãos do documentarista. E já o conquistou. “Fiquei um pouco paranoico com a ideia dos caranguejos. É um conto de terror, quase borgeano (referência ao argentino Jorge Luis Borges)”, compara. Recife traz recordações afetivas, por ser a terra natal de três primas, atualmente residentes em Brasília, São Paulo e Holanda. A ligação com a literatura brasileira é bem mais antiga, desde o auto-exílio de três meses, em 1974, antes de seguir para os Estados Unidos.

A Argentina enfrentava a ditadura de Juan Domingo Perón e Montes-Bradley foi preso duas vezes antes de sair do país. “Os meus filmes tinham tom político, mas, naquela época, tudo tinha. Na Argentina, cortaram meu cabelo grande no meio da rua. Em São Paulo, assim que cheguei, vi um travesti na Boca do Lixo. Isso era impossível lá”, recorda. “A Argentina foi, é e ainda será por muito tempo fascista”, critica.

As diferenças culturais do Brasil ainda chamam a atenção do visitante, que esteve no Rio de Janeiro para entrevistas com Carola Saavedra antes de chegar ao Recife. “Eu vi massas nos protestos, massas no futebol e muita novela com gente chorando. Nunca vi gente chorar assim na minha vida, nem os sobreviventes de Auschwitz (campo de concentração nazista na Alemanha de Adolf Hitler). Chora quando está feliz, triste, rico, pobre, quando compra carro, quando vende carro”, ironiza. Mas a principal crítica se dirige à relação do brasileiro com o corpo e à busca frívola pela beleza, especialmente a feminina. “Pobre da mulher que não é bonita no Brasil”, sentencia.



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