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Da lama ao caos Saiba como foi a gravação do primeiro álbum da Chico Science & Nação Zumbi Comemorando 20 anos de lançado neste mês de abril, álbum é considerado um clássico da música brasileira

Por: Camila Souza

Por: Raquel Lima - Diario de Pernambuco

Publicado em: 30/03/2014 10:00 Atualizado em: 31/03/2014 11:33

A banda usava a geografia da cidade como inspiração. Crédito: Fred Jordão/ Arquivo DP
A banda usava a geografia da cidade como inspiração. Crédito: Fred Jordão/ Arquivo DP

O produtor paulista Pena Schmidt foi pioneiro em enxergar o potencial da Chico Science & Nação Zumbi. O contrato da sua pequena gravadora, a Tinnitus, foi o primeiro a chegar nas mãos de Francisco de Assis França (1966-1997). Certamente, ele não sabia que os cerca de 15 músicos que subiam aos palcos improvisados no Recife e em Olinda gestavam a que seria uma das maiores bandas da música brasileira. E que o álbum que tentava bancar seria considerado, décadas depois pelos críticos da revista Rolling Stone Brasil, um dos 100 mais importantes da história, na 13ª posição.

A Tinnitus não fechou com a CSNZ. Enquanto pesava prós e contras, a banda recebeu um contrato de R$ 40 mil pelo selo Chaos, da Sony Music. E semanas depois, em outubro de 1993, começava a criação de Da lama ao caos - que completa 20 anos de lançado neste mês de abril. A troca de assinaturas com a gravadora garantiu um adiantamento em dinheiro importante. Foi com ele que o guitarrista Lúcio Maia e o contrabaixista Dengue compraram os primeiros bons instrumentos. E não foi a única mudança.

A Nação Zumbi que, a cada show, tinha um músico diferente do Lamento Negro, grupo de Peixinhos, em Olinda, foi reduzida à primeira formação oficial: Jorge Du Peixe, Gilmar Bola 8 e Gira, nas alfaias, Canhoto, no caixa, e Toca Ogan, na percussão. Liderada por Chico, a banda hospedou-se em um apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro, e encarou - por um mês - uma rotina de 12 horas, de segunda a sábado, no estúdio Nas Nuvens.

Assista ao clipe de A cidade, um dos clássicos do álbum



O produtor dos sonhos da CSNZ era o guitarrista norte-americano Arto Lindsay, mas a Sony escalou o contrabaixista Liminha, dos Mutantes, dono do Nas Nuvens. “Arto representava a cultura pop e conhecia bem o linguajar de Pernambuco, por ter morado em Garanhuns. Mas Liminha acrescentou o que Arto não poderia, pela experiência em estúdio. Soube tirar leite de pedra”, opina Dengue.

“Eles chegaram verdes, mas muito compenetrados”, lembra Liminha. “Era um som diferente, deu muito trabalho. Quando fui masterizar o álbum, em Los Angeles, o engenheiro de som sentiu falta da bateria, mas esse era um diferencial”, conta o produtor. Apesar da inexperiência e de contratempos, como Lúcio ter contraído caxumba durante as gravações, o clima no estúdio era leve.

Seis meses depois, em 9 de abril de 1994, a banda apresentava o disco na segunda edição do Abril Pro Rock. “A Sony Music veio em peso e distribuímos LPs e CDs para o público. Na segunda-feira após o festival, embarcamos para o Sudeste para participar de programas de TV, de Faustão a Jô Soares”, acrescenta o produtor Paulo André Pires, empresário da banda à época. E nessa viagem, ao apresentar as 14 faixas de Da lama ao caos, Chico Science & Nação Zumbi sacramentou o Manguebeat e começou a “desorganizar” a música brasileira.

Entrevista >>> Liminha, produtor do álbum

 (Facebook/Reprodução)
Como foi o primeiro contato com a banda?
O pessoal da Sony me falou da CSNZ. Disseram que tinha um som interessante e me mandaram uma fita. Ouvi e gostei, embora fosse mal gravada. A primeira impressão foi a de que Chico fazia algo paralelo ao álbum Selvagem (1986), de Os Paralamas do Sucesso. Hebert assumiu toda a brasilidade ali, com uma junção de rock inglês e ritmos daqui. Chico veio para desencadear isso com mais força.

Foi um desafio produzir o álbum?
A ideia era muito boa, o conteúdo também. Mas eles não tinham experiência de estúdio. Era uma pedra bruta a ser polida. Por outro lado, eram muito compenetrados e profissionais. Deram o sangue para fazer o disco. E cresceram na gravação. Estou certo disso. O problema é que, quando você os via ao vivo, os tambores e os gestos tornavam tudo muito maior do que realmente era. Minha missão foi fazer aquilo tocar direito em um caixa de som menor.

E como você lidou com as críticas pós-lançamento?
Diziam que o disco era menor. Ao vivo, a banda era maior. Mas aí é que está. Não tinham imagens para dividir a atenção. Quando conversei com Alexandre Kassin (produtor do novo e sexto álbum de estúdio da Nação, após a morte de Chico), ele disse “os tambores não têm som”. Porra! Ainda bem que alguém percebeu. Tive a maior dificuldade para tirar som daquilo. Não tinham grave, mas gostei do resultado. Tenho o maior orgulho de ter trabalhado com Chico. Para mim, ele está no mesmo patamar de Gilberto Gil, Titãs. O CD está no meu cartão de visita.

Celebração
A Sony Music não vai relançar Da lama ao caos, mas a banda - que representa o Brasil no Lollapalooza - fará shows comemorativos em São Paulo.

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