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Despedida Morre o artista plástico pernambucano Gilvan Samico Xilogravurista tinha 85 anos e é um dos maiores nomes da arte brasileira

Publicado em: 25/11/2013 12:05 Atualizado em: 26/11/2013 17:42

Samico era um dos maiores gravuristas do Brasil. Foto: Lais Telles/Esp. DP/D.A Press/Arquivo
Samico era um dos maiores gravuristas do Brasil. Foto: Lais Telles/Esp. DP/D.A Press/Arquivo
Morreu nesta segunda-feira (25) o artista plástico pernambucano Gilvan Samico, aos 85 anos de idade. Nos últimos anos, ele lutava contra um câncer e foi internado diversas vezes no Recife e em São Paulo para fazer tratamentos. O velório será realizado no cemitério Morada da Paz, a partir das 15h, e a cremação está marcada para as 21h.

Samico era um dos maiores gravuristas do Brasil. Sua técnica principal era a xilogravura, que ele desenvolvia com maestria e precisão. Sua obra já foi tema de retrospectivas em alguns dos maiores museus do Brasil. O Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães, no Recife, é a instituição que tem o maior número de obras suas.

Leia entrevista concedida por Gilvan Samico ao Diario de Pernambuco em 2008:

Além da referência do folclore nordestino, tem gente que identifica nas suas gravuras elementos de artesanato marajoara, gravura japonesa, mandalas tibetanas e pinturas egípcias. Essas influências existem?

Se há, não é intencional. Acho que é uma coisa interior. Eu trabalho hoje de tal forma que dificilmente você pode conhecer a lenda e identificar aquela origem cultural. Eu não faço um trabalho de ilustração. Estou me baseando numa lenda para construir um novo mundo. Em A caça, por exemplo, a figura principal originalmente era um esquimó. Mas eu não conseguiria enxergar um esquimó dentro de minha gravura. Então eu tirei a roupa dele e o transformei em um homem que pode ser de qualquer cultura. Uma situação corriqueira, como uma conversa com uma pessoa qualquer, pode dar origem a uma gravura que vai ser interpretada pelos outros por seus significados históricos e mitológicos, mas minha intenção era apenas contar uma história simples que me agradou e resolvi desdobrar. Por outro lado, quem conhece determinadas lendas pode também não conseguir enxergá-las na minha gravura, de tanto que eu modifico. Eu não posso ser chamado de judeu apenas por desenhar uma estrela de seis pontas. Existe um gravador cearense cujas figuras lembram desenhos egípcios, apesar de retratarem Padre Cícero e Lampião, mas ele dificilmente se inspirou nos egípcios.

A cultura nordestina está em toda a sua obra até hoje ou as referências regionais já estão mais indiretas?

O cordel e a gravura popular foram apenas um caminho, um mote, sugerido por Ariano Suassuna há mais de 40 anos. Eu já contei isso várias vezes. Eu vinha fazendo uma gravura muito carregada de preto, muito noturna, e ele me disse que o Nordeste era cheio de gravadores populares que valorizavam a luz, enquanto eu não parecia satisfeito com o caminho que eu estava tomando. Certos elementos que estão presentes na minha obra fazem parte do imaginário nordestino, mas estão em outras culturas também, em cada uma com um significado, como as criaturas bestiais e as próprias estrelas.

Como você define quando um espaço da gravura merece ficar todo preto, sem ser preenchido por desenhos ou ornamentos?

O espaço completamente preto é uma coisa mais geral, diferente de quando tem coisas em cima dele. É um espaço que vale por ele mesmo. Está vazio, mas é a forma que vai fazer ele virar uma coisa. Podia ser um preto qualquer, mas há uma forma que tem autonomia, que não deixa de ser uma figura, uma estrutura que cria um todo. Ele tem movimentos que fazem assim... (gesticula com as mãos). Às vezes fico tentando a preencher com figuras ou texturas, mas é melhor não botar.

Nas suas gravuras, existem figuras que funcionam como um centro em torno do qual giram todos os elementos?

Em um quadro como A Via Láctea (versão vertical), o centro pode estar na estrela ou no círculo, mas eu acho que, na verdade, meu trabalho, de vários anos pra cá, tem um eixo central. Então, mesmo quando a composição não é simetricamente rigorosa, aí você encontra um eixo central. Ele geralmente é vertical. Não tenho praticamente nehuma gravura com um eixo horizontal. Eu poderia desenvolver várias explicações para isso, afinal, nós, seres humanos, somos quase simétricos. A cabeça está no meio do corpo e o nariz está no meio da cabeça. Fui levado para a simetria porque verifiquei que meu trabalho sempre tinha um silêncio, uma ausência de movimento. As coisas estavam como se estivessem paradas. Descobri que era uma coisa minha. Aí, devagar, eu fui caminhando para essa coisa. Quando uma coisa é simétrica, ela estabelece uma ausência maior de movimento, pois um lado está em perfeito equilíbrio com o outro, sem distúrbios. O movimento é criado por quem vê o quadro, que pode perceber alguma dinâmica que dê sensação de movimento.

Existe muita diferença entre desenhar criaturas fantásticas e animais reais?

Como eu não estou fazendo abstrações, procuro fazer o mínimo para que as pessoas entendam qual é aquele bicho, me valendo de uma forma conhecida. Mas, se você reparar, talvez você não consiga identificar qual é a espécie específica de pássaro que aparece em determinado quadro. Isso não me interessa. Se ficar parecido, ótimo, não tenho nada contra, mas, quando eu estou fazendo, não me preocupo em ser tão fiel à natureza. Quando faço um dragão, não sei com que cara ele vai ficar. Em A espada e o dragão, ele ficou com cara de cachorro, mas eu só vi isso depois de pronto.

O quadro Rumores de guerra em tempo de paz foi feito em 2001, ano em que ocorreram os ataques de 11 de setembro, pouco antes do início da Guerra do Iraque. Você é influenciado por acontecimentos do mundo contemporâneo?

Rapaz... Aquilo foi uma coisa curiosa. Esse quadro foi uma invenção da minha cabeça, não veio nada de fora. Botei um título que é coerente dentro do que a imagem mostra. Não recebi nenhum aviso mágico ou algo assim. Coincidentemente, eu fiz essa gravura em julho e em setembro aconteceu aquilo em Nova York. Célida, minha mulher, me perguntou se eu estava adivinhando as coisas (risos)... Eu não faço reportagem. Tem artistas, inclusive gravadores populares, que fazem isso, retratam os fatos.

Você tem feito pinturas?

Eu insisto um pouco, mas nunca fiz uma exposição de pintura. Mando apenas para exposições coletivas. Minha pintura não tem muita aceitação. Quase nenhuma. Uma ou outra pessoa perdida me considera um bom pintor. Eu sei que eu não deveria me influenciar por essas opiniões, mas, lá dentro, eu sinto um mal-estar, pois eu gosto de agradar as pessoas. Tem gente que diz que minhas pinturas são reproduções de minhas gravuras. Mas será que elas seriam vistas como pinturas se eu não fosse mais famoso como gravador? Isso é tudo preconceito. Munch, por exemplo, fazia uma pintura e uma gravura com a mesma imagem.

Você concorda com quem diz que a gravura brasileira da metade do século 20 era pouco brasileira?

Me atribuem essa coisa de fazer gravura com características brasileiras, não é? Eu conheci muitos gravadores que também se interessaram pela gravura popular do Nordeste, mas eu tenho a impressão de que apenas eu sobrevivi. A maior parte não conseguiu desenvolver essa aproximação. Alguns tinham a fantasia popular, mas ainda carregavam demais o expressionismo goeldiano. Goeldi marcou uma época. O expressionismo tomou conta da gravura, principalmente da xilogravura. Se o camarada não seguisse Goeldi, ele não era gravador, a não ser que seguisse outro campo, como a abstração ou o cunho social.

Como você escolhe o tipo de madeira e de papel?

Eu escolho madeiras duras e que não tenham tantas fibras. Por mais que você lixe, as fibras permanecem e formam uma trama quando você imprime a tinta no papel, uma fantasia da madeira. Há gravadores que recorrem a esse efeito, pois isso cria uma mistura entre duas fantasias. Pode ficar interessante, mas não foi você que criou. Eu já usei esse recurso, mas na minha gravura atual não posso misturar minha fantasia com a da madeira. Uma vez, usei uma matriz de cedro, que dá muito isso. Quando tirei a cópia, apareceu aquele raiado todo. Chamei a gravura de Mãe d'água, pois ficou parecendo água. Já o papel tem influência em tudo, até em um livro sem figuras. Cada tipo tem uma qualidade, uma maciez. Eu uso um papel japonês. Às vezes uso papel sulfite para fazer testes, mas fica completamente diferente. Já cheguei a desistir de gravuras que poderiam ficar boas porque cometi o erro de testar no papel errado, sem me dar conta que o erro era o próprio papel.

Diversos especialistas identificam marcos em sua obra, como a gravura Suzana no banho. Nesse sentido, você acha que algumas peças são mais importantes que outras?

Isso é uma coisa curiosa porque às vezes eu sinto saudade de um tipo de gravura que eu fazia antes e hoje em dia não consigo mais. Elas tinham um outro sabor. Quando você começa a ficar sofisticado, é difícil voltar. Tem gente que só gosta das gravuras daquela época, mas é um processo que eu não tenho controle. Há quem ache que eu piorei, mas é uma questão de gosto, pois talvez essas pessoas não tenham visto o tempo passar. Quando fiz Suzana no banho, Luzia entre feras e A luta dos anjos, eu inaugurei um outro ciclo do fazer. Eu não queria ficar atrelado ao cordel para o resto da vida. Eu realmente me afastei. 

Confira vídeo com o artista


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