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Homenagem Há 64 anos, Albert Camus desembarcava no Recife Centenário de nascimento do escritor é lembrado nesta quinta-feira (7/11)

Por: Paulo Goethe - Diario de Pernambuco

Publicado em: 06/11/2013 16:00 Atualizado em: 06/11/2013 17:31

Crédito: Christiano Mascaro/Paulo Goethe
Crédito: Christiano Mascaro/Paulo Goethe
“Positivamente, gosto de Recife, Florença dos Trópicos, entre suas  florestas de coqueiros, suas montanhas vermelhas, suas praias brancas”. O estrangeiro, mesmo cansado, com febre e gripe, anotava em seu caderno, na data de 21 de julho, o fim de mais um dia longe de casa, apesar de sempre sentir-se estranho em qualquer parte do mundo. Há 64 anos, Albert Camus registrava suas andanças por Pernambuco,  textos que depois resultaram em cinco páginas do seu Diário de viagem, pequeno livro revelador do pensamento íntimo do homem que, se vivo fosse, festejaria reticentemente seus 100 anos de nascimento.

O escritor e filósofo que veio ao mundo em Mondovi, na Argélia, em 7 de novembro de 1913, já era famoso quando veio ao Brasil para um ciclo de conferências. Voltou para a França com uma revolta pelas desigualdades sociais que viu, um enfado pelos “intelectuais” que encontrou pelo caminho e uma saudade dos lugares e da gente que não tinha tempo para dar valor aos livros, porque viver era mais urgente. Ele morreu em 4 de janeiro de 1960 em um acidente de carro em Villeblevin (sul da França), que suspeita-se agora ter sido provocado por agentes da KGB.
Crédito: Christiano Mascaro/Paulo Goethe
Crédito: Christiano Mascaro/Paulo Goethe

Camus permaneceu apenas dois dias em Pernambuco. Desembarcou de avião, vindo do Rio de Janeiro, por volta das 13h do dia 21 de julho de 1949. Resfriado, torna-se um refém do calor. Recebido por três franceses, percebe que todos têm mais de 1,8 m de altura. “Estamos bem representados”, registra depois em seu diário, um exemplo da ironia seca que era mestre.

Levado para o Grande Hotel, no Centro do Recife, onde hoje funciona o Fórum Thomaz de Aquino, não consegue descansar. Quatro horas depois, é arrastado para um city tour. Aníbal Fernandes, o diretor de redação do Diario de Pernambuco, “o mais antigo jornal da América do Sul”, ressalta Camus, é quem encabeça o grupo que o guia na visita à parte histórica do Recife, nos bairros de Santo Antônio e São José.
Crédito: Christiano Mascaro/Paulo Goethe
Crédito: Christiano Mascaro/Paulo Goethe

O escritor gosta das “igrejas coloniais admiráveis”, das “ruas calçadas com grandes pedras pontiagudas”, da Capela Dourada e do Pátio de São Pedro. Sobre este último lugar, observa que a igreja está “completamente escurecida pela fumaça dos torrefadores. Está literalmente patinada de café”. Depois de jantar no hotel, Camus parte para uma conferência na Faculdade de Direito do Recife, para uma centena de pessoas “que, ao saírem, têm um ar de muito cansadas”.

No dia seguinte, mesmo com febre e gripe, espera no hotel “por três intelectuais que fazem questão de me ver. Dois simpáticos”. É levado para Olinda, onde se encanta pelo Convento de São Francisco. Depois de uma almoço na casa do cônsul, passeia à beira-mar em Boa Viagem, onde vê florestas de coqueiros e jangadas. Às 17h, participa de uma mesa-redonda na Agremiação Cultural Franco-Brasileira, que aguenta “graças a dois uísques”.

Crédito: Christiano Mascaro/Paulo Goethe
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O mais verdadeiro estrangeiro


Na sua última noite no Recife, Albert Camus é o convidado de honra de um espetáculo de bumba-meu-boi, que classifica no seu Diário de viagem como “macumba-chique”. Ele usa quase uma página para descrever o “balé grotesco” e a saudação que recebeu no final: “Viva o señor Camus e os cem reis do Oriente!”. Por volta das 23h, regressa para o hotel. No dia seguinte, às 9h, Salvador é seu novo destino.

No dia 23 de julho, o Diario de Pernambuco trazia mais detalhes da festa do bumba-meu-boi na reportagem Um espetáculo tipicamente popular para Albert Camus. O evento teve lugar no pátio de diversões da Cerâmica de Apipucos, pertencente ao empresário Baby Salgado. O repórter descreve que o bumba-meu-boi “constitui sempre um espetáculo divertido para um estrangeiro de gosto e que ame o se chama povo”. O folguedo seria “um magote de sujeitos, sempre acompanhados de gente”, observado com atenção pelo escritor convidado.

Crédito: Christiano Mascaro/Paulo Goethe
Crédito: Christiano Mascaro/Paulo Goethe

Segundo a reportagem, a todo momento Camus dizia: “é extraordinário, é inesquecível” e teria até demonstrado interesse em obter bibliografia sobre o bumba-meu-boi. Ele também teria gostado do Xangô de Pai Apolinário, que se apresentou em seguida.  “Camus ficou particularmente impressionado com todo aquele espetáculo tipicamente popular e disse que levava de tudo uma recordação inesquecível. Veio ao Brasil para isso mesmo. Não veio para ver avenidas nem arranha-céus, nem hotéis de luxo”, encerrava o texto do Diario.

Na verdade, o folguedo para o francês teria sido uma dica do sociólogo Gilberto Freyre, que do Rio telegrafou a um amigo pedindo que convocasse o pintor Lula Cardoso Aires, o poeta Ascenso Ferreira e o seu pupilo Edson Nery da Fonseca para dar assistência à celebridade. “Preparem um bom maracatu, que Camus gosta disso, ele não é muito ‘acadêmico’”, teria alertado Freyre.
Crédito: Christiano Mascaro/Paulo Goethe
Crédito: Christiano Mascaro/Paulo Goethe

No dia 22 de julho, a reportagem do Diario Camus amaria ficar no Recife só por causa do pateo de São Pedro descreve como o escritor teria se engraçado com a parte antiga do Recife. “Ele disse que gostava de andar pelas ruas centrais das cidades que visitava”, anotou o repórter. Camus adorou mesmo foi o Pátio de São Pedro. “Disse que valia a pena ter vindo ao Recife só para ver a igreja e o pátio. Um morador da Praça acercou-se e disse que o pátio teria de ficar assim mesmo, sem ninguém mexer. Ia ser feita uma avenida nova, mas não se tocaria nas casas velhas. Gostou de saber disso e disse que amaria ficar no Recife só por causa do Pátio de São Pedro”, continua o texto do jornal.

A avenida foi construída décadas mais tarde. O Recife que Camus mudou e, em alguns lugares ficou irreconhecível. Até mesmo para os estrangeiros.

“Vaidades terríveis”

Professor aposentado de Literatura Francesa da Universidade Federal de Pernambuco e ocupante da cadeira número 2 da Academia Pernambucana de Letras (APL), Lucilo Varejão Neto afirma que a passagem de Albert Camus pelo Brasil não chegou a influenciar o escritor nas obras que publicou depois de 1949. Somente em um conto, La pierre qui pousse (A pedra que brota), integrante do livro O exílio e o reino (1957), ele usaria alguns elementos de candomblé.

Sobre a passagem de Camus no Recife, Lucilo Varejão Neto destaca que a capital pernambucana realmente encantou o francês, apesar das “vaidades terríveis” que ele teve que enfrentar. “Na primeira conferência que ele iria fazer por aqui, os intelectuais locais fizeram tantos discursos e falaram tanto que ele nem retirou o que havia escrito do bolso. Disse que já haviam falado tudo por ele”, revela Lucilo. O conteúdo de Roman et révolte continua sendo um mistério para os pesquisadores.

Em parceria com o jornalista Marcus Prado, Lucilo Varejão Neto pretende lançar, até agosto, um e-book reunindo todo o material publicado nos jornais de época sobre a visita de Camus a Pernambuco, além de textos inéditos sobre o escritor. Marcus Prado ficou encarregado das fotos dos lugares visitados por Camus.

“Camus tem uma obra riquíssima, é um dos mais lidos do mundo. Sua obra se propõe a responder ao questionamento básico: a existência no sentido da trajetória humana no mundo”, defende Lucilo. Segundo ele, a APL programa uma série de conferências para lembrar o escritor no seu centenário de nascimento.

A editora Record, detentora dos direitos de Albert Camus no Brasil, já comercializou 290 mil exemplares de 11 livros em catálogo.

Em números

290 mil
livros de Albert Camus já foram vendidos no Brasil

115 mil
cópias foram de O estrangeiro (1942)

55 mil
exemplares foram de A peste (1947)



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