• Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no Google Plus Enviar por whatsapp Enviar por e-mail Mais
Talento precoce Pernambucano de 11 anos surpreende ao lançar livro de 255 páginas Arthur Basílio Pereira publicou O credo Lane pela editora Livrinho de Papel Finíssimo

Por: Karoline Rodrigues - Diario de Pernambuco

Publicado em: 20/10/2013 08:30 Atualizado em: 18/10/2013 20:27

O escritor-mirim inventou título, deu nome aos personagens e ainda idealizou a ilustração da capa e do resto das páginas. Foto: Blenda Souto Maior/DP/D.A Press.
O escritor-mirim inventou título, deu nome aos personagens e ainda idealizou a ilustração da capa e do resto das páginas. Foto: Blenda Souto Maior/DP/D.A Press.

Sentado em uma poltrona no canto da sala de estar, Arthur Basílio Pereira assiste concentrado a um documentário no canal pago Discovery Chanel no apartamento onde mora, na Madalena, no Recife. O menino de apenas 11 anos mantém uma rotina de hábitos e comportamento incomuns para uma criança. Admirador de carros antigos, fã dos Beatles e músico (leia-se: toca bateria, teclado, guitarra, baixo…), ainda encontra tempo (e habilidade) para escrever. É autor de uma história inusitada que virou um bloco de papel de 255 páginas publicado pela Editora Livrinho de Papel Finissímo na Bienal de Pernambuco deste ano, O credo Lane. O escritor-mirim inventou título, deu nome aos personagens e ainda idealizou a ilustração da capa e do resto das páginas.


A queda pela escrita surgiu bem antes. Filho dos bancários Lucivânia e Valdir Pereira, Arthur assustou a mãe quando, aos 8 anos, apareceu com uma redação de seis páginas que havia feito para uma tarefa do colégio. “Nunca havia procurado um psicólogo, mas, desta vez, eu fui mostrar o texto para uma amiga que trabalha na área e ela ficou impressionada. Sempre observei os talentos de Arthur. Desde cedo, ele se mostrava apto a aprender rápido e começou a ler muito”, declarou a mãe.
A redação motivou a criança a escrever a primeira história sozinho. Sentado na cadeira amarela de rodinhas do quarto, o garoto conversa como gente grande. “Não mostrei o livro a ninguém porque eu não queria que ficassem dando ‘pitaco’. ‘Ah, faça isso, faça aquilo.’ Mesmo que a ideia fosse boa, queria escrever sozinho”, confessa Arthur. De acordo com ele, a ideia para o enredo da história foi inspirado em O vendedor de sonhos, do psiquiatra e escritor de livros mais ligados à auto-ajuda Augusto Cury. “O meu livro preferido dele é O colecionador de lágrimas, que não está aqui”, diz, ao tirar da cabeceira da cama o exemplar de um dos livros do escritor.

Ao contrário do que possa ser típico para uma criança escrever, a obra de Arthur passa longe de ser uma reunião de contos ou de histórias com temáticas infantis. A trajetória do protagonista Tom Marcel envolve conflitos políticos, debates de temas como humildade, respeito e caminhada em busca de justiça. Os termos e as construções textuais usados pelo garoto flertam com uma narrativa madura. Há frases complexas e recheadas de ensinamentos intelectuais e interpretativas.

Do alto da janela do seu quarto, no 20º andar, se mostra antenado com temas sociais. E utiliza frases de Nelson Rodrigues para comentar os protestos na cidade. “Eu não queria ir para os protestos, porque, como disse Nelson Rodrigues, o brasileiro adora reclamar, mas, na hora de melhorar, bom, quem nunca furou um sinal vermelho?”.
Arthur coleciona miniaturas de carrinhos clássicos (especial o modelo amarelo do Ford Crown Victoria que adquiriu em Nova York), já se apresentou em vários teatros do Recife e ainda tem tempo para jogar no Xbox de vez em quando. Nas prateleiras, expõe um altar com imagens de santos, um boneco do mestre Yoda, de Stars Wars, e uma foto onde aparece ao lado do avô falecido recentemente. A cabeceira da sua cama é repleta de gibis e brinquedos, já não usados. Sina de uma vida dividida entre a infância e os primeiros passos na literatura.

Depoimentos

"O livro de Arthur chegou à editora através do projeto Publique-se, na Bienal. Editar a história dele foi um desafio porque buscamos preservar a narrativa original. Respeitamos o modo como escreveu. Queríamos vê-lo mesmo como criança. No mundo da tecnologia, é incomum ver uma criança lendo um livro, quem dera escrevendo. No Recife, só conheço Arthur e uma criança autista (Diogo Calife), que escreveu e desenhou o próprio livro.”

Leta Vasconcelos - editora da Livrinho de Papel Finíssimo

"Com certeza, é um talento precoce, pessoa privilegiada. Mais crianças devem se sentir aptas a escrever diante de exemplos como esse. A partir do momento em que o pai ou a mãe mostram a criança a importância da leitura, ela se sentirá disponível a escrever mais. Não conheço o caso de Arthur pessoalmente, mas tenho certeza de que ele teve esse estímulo.”

Fátima Quintas
, presidente da Academia Pernambucana de Letras

Leia um trecho do livro:


“Admito que não é uma besteira ser um intelectual pensador. Muitos dizem que é perda de tempo, enquanto muitos dominam empresas, cidades, estabelecimentos, e até um viaduto, enquanto um fica pensando, explicando, com o punho apoiando a parte inferior do seu queixo.
Desde que nasci, ou melhor, de que aprendi a viver com fé, assisti meu pai fazendo ações de um intelectual, rezar, pensar, meditar, contemplar. Isso é ser um mestre. É velejar no universo de ternura e calma e entrar em contato com o Transcendente. Ser intelectual é viver uma vocação de honra que fica na mente por toda a sua vida. Ser intelectual é apreciar a vida de uma forma exótica. Ser intelectual é saber viver sem tabu, viver na paz para sempre. Ser intelectual é aceitar o seu destino e segui-lo. Ser intelectual é procurar ser o que a pessoa é.”



Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.