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Entrevista » Novo secretário de Economia Criativa do Minc fala sobre a dependência exagerada de editais Confira entrevista na íntegra com Marcos André Carvalho

Publicação: 01/10/2013 07:30 Atualização:

Carioca Marcos André Carvalho é o novo secretário do Ministério da Cultura
Carioca Marcos André Carvalho é o novo secretário do Ministério da Cultura
Desenvolver ações eficazes de sustentabilidade para a área artística. Essa é a tarefa do novo secretário de Economia Criativa do Ministério da Cultura (MinC), Marcos André Carvalho. Em entrevista ao Correio/Diario, o gestor público, empreendedor cultural, músico e diretor artístico carioca falou sobre medidas para acabar com a dependência exagerada de editais e leis de incentivo para o fomento de produções culturais e também medidas para dar prioridade aos grupos populares, hoje excluídos pela burocracia.

ENTREVISTA >> Marcos André Carvalho

Existem mitos em relação a sustentabilidade artística?
Há um preconceito da classe artística e cultural em relação às ferramentas de gestão de empreendimentos. Existe um mito que pensar em sustentabilidade, em planejamento estratégico, macula a pureza do ato criativo, como se o artista tivesse que estar isolado em uma bolha, sem contato com questões materiais e econômicas. A gente sabe que isso é um purismo. São preconceitos que a gente quer ajudar a desfazer.

E isso é prejudicial…
Eu acho que isso estrangula muito a capacidade de sobrevivência dos produtores culturais, dos artistas, das instituições privadas, ONGs e pequenas empresas. A maior parte dos programas é focada no fortalecimento dessas instituições. Dois terços do mercado cultural brasileiro é informal e a chance de um grupo sobreviver se mantendo na informalidade é pequena. Quando um grupo se formaliza, mesmo assim a taxa de mortalidade das empresas é de 80%, imagina a taxa de mortalidade dos grupos informais. Nós queremos, obviamente, respeitando a sutileza e delicadeza do campo cultural, que é um campo sensível, oferecer mecanismos de fomento apropriados, que não firam a criação, espontaneidade e liberdade de pensamento.

Mas o artista brasileiro está preparado para se auto-sustentar?
O governo tem que perceber o movimento mundial de políticas públicas para a economia criativa e entender a cultura como um dos principais vetores de desenvolvimento econômico e social de um país. Acho que o MinC, com a criação da Secretaria de Economia Criativa, é pioneiro ao apontar nessa direção. Imediatamente, diversos ministérios começaram a perceber que a discussão estava dominando a pauta e começaram a se aproximar do ministério para trabalhar de forma integrada. Nossa responsabilidade é apontar nortes para essas instituições públicas e privadas, de reconhecimento do papel estratégico disso, explicar quais são os setores que mais crescem e geram empregos no mundo. E que o artista não pode ser mais visto como aquele desocupado que não deu para nada na vida e virou artista. Não, agora o artista é o centro de um movimento, de uma nova economia baseada na era do conhecimento. A gente não está discutindo uma nova economia, somente, mas uma nova sociedade que é baseada no conhecimento que é um bem inesgotável.

A dependência de editais cria uma relação complicada entre o artista e o Estado?
Os empreendedores têm que conhecer também outros mecanismos que enriqueçam essas opções contribuindo para sustentabilidade. Acho que a gente tem que colocar projetos em prática porque eles vão acabar com mitos e as pessoas vão entender o que é economia criativa. Quando a gente fala disso, está pensando políticas para fortalecer os setores.

Há alguma coisa sendo feita para acabar com a burocracia, com os vícios e com a exclusão dos artistas populares?
Sim, por meio das incubadoras de Brasil Criativo. São espaços de fortalecimento de empreendimentos nascentes. Nós estamos fazendo uma adequação dos modelos de incubadoras dos parques tecnológicos para o meio cultural. Hoje em dia o mercado cultural vive na lógica do projeto, são os escravos dos editais e leis de incentivo, que dopam o empreendedor cultural. Eles ficam viciados nessas duas fontes de financiamento. São fontes complicadas porque o edital trabalha com a lógica de projeto temporário. Isso gera uma descontinuidade que estrangula a capacidade de o empreendimento crescer. Dentro da lógica das incubadoras criativas, a peça, por exemplo, que a pessoa apresenta para concorrer não é um projeto, mas um plano estratégico. Então, para concorrer, é preciso ter uma estratégia de três anos. É preciso pensar a médio e longo prazo e isso significa sair da lógica de editais e leis de incentivo.

Quais são os mecanismos de fomento que existem?
 Por que não o crédito não reembolsável? Por que tudo tem que ser fomento a fundo perdido? Alguns produtores precisam de fomento a fundo perdido, outros podem acessar linhas de crédito. A taxa de retorno de microcrédito é imensa. Por que a gente não pode pensar num cenário de crédito e microcrédito para economia criativa? Existem fundos privados que apoiam a cultura, já tem investidores que querem investir. A gente quer acabar com a imagem do produtor cultural sempre com o pires na mão.

Não seria uma função do Estado o subsídio à cultura?
A gente acredita que o Estado, a cultura e a arte é são subsidiadas no mundo inteiro. Existem os grupos populares de patrimônio imaterial que não têm uma inserção no mercado. Existe a experimentação que é fundamental. Essas iniciativas o Estado tem obrigação de fomentar.

Há um preconceito quando se toca no assunto economia criativa. Por quê?
 Eu acredito que exista falta de conhecimento sobre o que é o assunto e sobre o próprio sentido da palavra “economia”. Alguns produtores culturais populares traduzem a palavra economia como se fosse sinônimo de capitalismo selvagem e também como se economia criativa fosse priorizar os grandes nomes das indústria cultural. E não é verdade. A essência da palavra tem a ver com o mínimo necessário para que a coisa aconteça. A Secretaria de Economia Criativa tem a prioridade de fomentar e potencializar os pequenos e médios empreendimentos criativos do país. Essa é a função pública de um ministério. Não quer dizer que não tenhamos que pensar políticas para grandes empresas, no sentido de reconhecer que elas também são geradoras de emprego e renda. Mas, com certeza, o nosso público prioritário são os pequenos e médios empreendedores de instituições sem e com fins lucrativos. Na verdade, a gente tem que pensar isso como um bolo em diversas camadas. Não podemos focar em uma camada específica, temos que focar em todas as camadas.

Como os resultados dos pontos de cultura são medidos?
Isso está na rua. Existe um senso comum dentro da sociedade civil, das comunidades populares, urbanas e rurais, pelo país inteiro, existe um consenso de que o programa teve um impacto muito forte no desenvolvimento das comunidades. Os grupos culturais comunitários espalhados pelo Brasil inteiro relatam o benefício e eu tive a oportunidade de vivenciar essa experiência no Rio de Janeiro, meu estado.
 
Existe referência de pontos de cultura em outros países?
Existem vários países que hoje estão estudando essa nossa metodologia de reconhecer essas comunidades como produtoras de cultura, não somente como consumidoras de cultura. Políticas públicas dos Estados Unidos e da Europa visam muito dar acesso à população de baixa renda aos grandes equipamentos das exposições, aos shows, aos museus. Ou seja, uma postura muito passiva de público, de formação de plateia. Nossa política é muito moderna, no sentido que reconhecemos o que é feito dentro das comunidades, pelos próprios agentes populares, fazedores de cultura. Grupos que fizeram muito sem apoio nenhum são capazes de fazer muito mais com recurso. Mas no terceiro eixo, o econômico, o ex-ministro Gilberto Gil fez uma autocrítica de que ele não conseguiu chegar lá, de implementar políticas para economia criativa, que potencializasse esses setores como estratégicos para o desenvolvimento do país.

E nas ações de economia criativa no Brasil, é seguido algum exemplo internacional?
A primeira nação a implementar políticas de economia criativa foi a Austrália, depois a Inglaterra criou um comitê intersetorial reunindo gestores públicos, empresários dos setores criativos. Começaram a enxergar a cultura como um eixo transversal de desenvolvimento econômico do país e não só uma matéria restrita ao MinC. Os setores culturais passaram a ser enxergados como estratégicos por outros ministérios. Esse trabalho foi feito por diversos países na Europa, na Oceania e a China, hoje, tem a economia criativa como um dos eixos estratégicos do país, eles já entenderam isso.

Como funciona a lógica da economia criativa em relação aos patrimônios materiais e imateriais?

A gente tem no Brasil uma das diversidades culturais mais ricas do mundo. Talvez sejamos o país que tenha a maior quantidade de línguas indígenas. A gente possui uma riqueza absurda de patrimônios imateriais. É um valor inacreditável que o Brasil tem, porém ele ainda é pouco utilizado porque as políticas de cultura não conseguiam chegar a esses grupos. A marca do ministro Gilberto Gil foi conseguir chegar a esses grupos e essa gestão da ministra Marta Suplicy tem estratégias muito eficientes. Por exemplo, os equipamentos culturais, dos Centros de Artes e Esportes Unificados (Ceus’s) que serão inaugurados em 2014.

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