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Literatura Troca de correspondências entre poetas vira livro Poeta Alagoano Geraldino Brasil e o colombiano Jaime Jamarillo Escobar trocaram 145 cartas, de 1979 a 1995

Por: Fellipe Torres - Diario de Pernambuco

Publicado em: 13/08/2013 09:48 Atualizado em: 13/08/2013 10:38

Poeta Alagoano Geraldino Brasil e o colombiano Jaime Jamarillo Escobar. Foto: Acervo Pessoal de Beatriz Brenner/Divulgação
Poeta Alagoano Geraldino Brasil e o colombiano Jaime Jamarillo Escobar. Foto: Acervo Pessoal de Beatriz Brenner/Divulgação


Era o culpado pelo próprio anonimato. Alagoano radicado em Pernambuco por várias décadas, o poeta Geraldino Brasil (1926-1996) nunca foi chegado à convivência com outros escritores, “uns falsos”, na opinião dele. Escrevia para as próprias gavetas ou lançava livros sem alarde, em edições mal cuidadas. Com o isolamento, o caminho natural seria o ostracismo, não fosse carta recebida em 1979 de remetente desconhecido. Nela, o poeta colombiano Jaime Jaramillo Escobar dizia ter em mãos um de seus livros e, embora a capa fosse feia, os textos eram tão bons que ele não só desejava traduzir para o castelhano, como já havia começado a fazê-lo.

Esse foi o começo de uma extensa troca de correspondências entre os autores (145 cartas, de 1979 a 1995), e de um repentino e avassalador reconhecimento do brasileiro em países vizinhos. Dois fatos nos dão a dimensão desse fenômeno - um de seus maiores fãs era o então presidente da Colômbia, Belisario Betancur, cujos discursos eram inspirados nas poesias do alagoano. Não demorou muito e o escriba morador do Recife foi elevado pelos leitores ao patamar de “santo”. Enquanto continuava desconhecido por aqui, era chamado de “San Geraldino” em terras porto-riquenhas.

A amizade entre Jaime e Geraldo Lopes (seu nome de batismo) se manteve por 16 anos, sempre com um toque retrô. Falavam-se apenas por intermédio dos correios; nunca se conheceram pessoalmente. As conversas datilografadas ou manuscritas eram sobre política, religião, morte, as realidades dos dois países, o fazer poético, as obras de Fernando Pessoa, Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade. O bate-papo tornou-se rotina na casa de Geraldino. Em carta de 25 de maio de 1980, ele comenta: “Quando voltei ao meio-dia, minha filha, Beatriz, me recebeu com um volume, e (…) disse: - papai, Jaime”.

Alguns anos depois da morte do poeta alagoano (1996), a filha entrou em contato (dessa vez por e-mail) com o confidente do pai para dizer que escreveria um livro, espécie de biografia de Geraldino baseada naquelas cartas. Para sua surpresa, Jaime Escobar já havia feito o mesmo, e lançado na Colômbia a obra Cartas con Geraldino Brasil. O fato motivou a escritora formada em arquitetura a dar continuidade ao projeto, em andamento há três anos.  

Com lançamento previsto apenas para 2014, a obra (Um lugar no tempo) vai compilar trechos das cartas montados como se fossem uma conversa entre os escritores. “Precisei de 17 anos de preparação psicológica para escrever esse livro”, confessa Beatriz, cujo local de trabalho é a mesa da sala. Naquele ambiente repleto de papéis catalogados, ela faz ajustes finais na obra, e justifica decisões tomadas para manter a essência das cartas: nenhuma palavra escrita por Jaime será traduzida para o português. “Qualquer tradução poderia alterar ideias”.

Há dois anos, Beatriz viajou para a Colômbia até o encontro de Jaime, hoje com 81 anos. “Era como se tivesse reecontrando meu pai. Um homem sábio, inspirado a todo momento”. Em 2012, a Companhia Editora de Pernambuco publicou A intocável beleza do fogo (118 páginas, R$ 35), com poesias inéditas de Geraldino Brasil.

Trechos
"De modo que não só por temperamento vivo distante dos salões e das rodas literárias, sendo poucos aqui os que me conhecem. Há poetas aqui que conhecem apenas minha poesia. Quanto às rodas literárias, sempre fui a elas arredio. Notei deslealdades, ouvi citações de livros que não foram lidos, ouvi frases de efeito. E não sou disso. Sou de conversar doando-me. Para mim a vida é doação, sou sem reservas mentais. O campo foi minha escola, já te disse no poema. A mesma escola tua. Em torno de mim só via doação sem espera de recompensa, doação pura. As árvores oferecendo oxigênio, sombra, frutos, pássaros e madeira para o berço e para o repouso. O gado, os peixes, o sol e a chuva. O homem do campo. Era bom quando se encontrava um nos caminhos desertos. Era uma confiança."
- Geraldino Brasil, Recife, 17 de julho de 1979

"En las fotografias que me enviaste no estás solo porque siempre has vivido en relación con otros; pero sobresales. Tu rosto de Mahatma refleja bondad, concentración, inteligência, nobleza. Y um dulce humor bengali. Tú eres Uno de Los Llamados; no me vengas a decir que no."
-Jaime Escobar, Bogotá, 19 de março de 1980

"Sim, meu querido, José Sarney é poeta da Academia Brasileira de Letras que fechou as portas a Mário Quintana... Será que por coisas assim Drummond nunca se apresentou à Academia?... Drummond nem de longe o diz”.
- Geraldino Brasil, Recife (data não identificada)



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