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Holocausto Antecâmara da morte: manicômio brasileiro exterminou 60 mil pessoas Internos faziam parte de minorias excluídas do convívio social. Genocídio é tema do livro "Holocausto brasileiro", de Daniela Arbex

Por: Fellipe Torres - Diario de Pernambuco

Publicado em: 28/07/2013 00:01 Atualizado em: 26/07/2013 20:54

Hospital Colônia de Barbacena. Crédito: Geração Editorial/divulgação
Hospital Colônia de Barbacena. Crédito: Geração Editorial/divulgação

Hospital Colônia de Barbacena. Crédito: Geração Editorial/divulgação
Hospital Colônia de Barbacena. Crédito: Geração Editorial/divulgação
Controlar os meios para criar uma sociedade de bem nascidos. Esse é o significado original do conceito de “eugenia”, criado em 1883 pelo antropólogo inglês Francis Galton (1822-1911), primo de Charles Darwin (1809-1882). O termo ganhou forte conotação negativa após a eugenia nazista, a pedra fundamental da ideologia de pureza racial que culminou no Holocausto, como ficou conhecido o extermínio de milhões de pessoas em campos de concentração europeus durante a Segunda Guerra Mundial. Caso o leitor considere o assunto distante de nossa realidade, basta dizer que as mesmas ideias de “limpeza étnica” embasaram um genocídio silencioso cometido no Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais.

Hospital Colônia de Barbacena. Crédito: Geração Editorial/divulgação
Hospital Colônia de Barbacena. Crédito: Geração Editorial/divulgação


Hospital Colônia de Barbacena. Crédito: Geração Editorial/divulgação
Hospital Colônia de Barbacena. Crédito: Geração Editorial/divulgação
Foram pelo menos 60 mil mortes no hospício, onde apenas 30% dos “pacientes” tinha diagnóstico de doença mental. A maioria dos internos fazia parte de minorias excluídas do convívio social, como epiléticos, mendigos, alcóolatras, homossexuais, prostitutas, meninas grávidas violentadas ou que perderam a virgindade antes do casamento. A instituição foi criada em 1903 com 200 leitos, e alcançou a marca de cinco mil pacientes na década de 1960.

A matança foi tema de uma premiada série de reportagem produzida em 2011 pela repórter Daniela Arbex, do jornal Tribuna de Minas, agora transformada no livro Holocausto brasileiro (Geração, 256 páginas, R$ 39,90). “Em 2009, um entrevistado me mostrou fotos do manicômio tiradas por Luiz Alfredo e publicadas na revista O Cruzeiro. Nenhuma daquelas imagens me remetia a hospital, e sim a campo de concentração. As pessoas conhecem Barbacena como ‘a capital dos loucos’, sobretudo aqui em Minas Gerais, mas quase ninguém sabe o que se passava de fato em Colônia”, diz a autora.
 
 
LEVANTAMENTO
Daniela Arbex. Foto: Fernando Priamo
Daniela Arbex. Foto: Fernando Priamo
Durante um ano, a jornalista investigou as crueldades cometidas naquele local ao longo das décadas. Descobriu que, ao chegarem, as pessoas tinham os cabelos raspados e eram rebatizadas. Pacientes comiam ratos, bebiam água do esgoto ou urina, dormiam sobre capim, eram espancados e violados. Alguns morriam de frio, fome e doenças. Às vezes os eletrochoques eram tantos e tão fortes, que a sobrecarga derrubava a rede do município. “Havia uma omissão coletiva. Quem sabia dos atos violentos, ou participava deles, preferia fingir que aquilo não estava acontecendo. A violência foi naturalizada, banalizada”, comenta Daniela Arbex.

Mesmo cinco décadas após ter conhecido in loco a realidade do manicômio, o repórter fotográfico Luiz Alfredo ainda guarda na memória o que viu e registrou. “Diferente do trabalho de um profissional que vai para a África e encontra cenas de miséria por lá, cheguei em Barbacena sem saber direito o que estava fazendo e sem saber o que iria encontrar. De repente vi tudo aquilo. Fiz imagens chocantes”.

Hospital Colônia de Barbacena. Crédito: Geração Editorial/divulgação
Hospital Colônia de Barbacena. Crédito: Geração Editorial/divulgação

 
Hospital Colônia de Barbacena. Crédito: Geração Editorial/divulgação
Hospital Colônia de Barbacena. Crédito: Geração Editorial/divulgação
No Hospital Colônia, cerca de 16 pessoas morriam por dia. Corpos eram vendidos ou decompostos em ácido para viabilizar o comércio das ossadas. Entre 1969 e 1980, mais de 1,8 mil corpos foram vendidos para faculdades de medicina de todo o país, sem que ninguém questionasse. Em valores atualizados, renderam R$ 600 mil. A realidade de Barbacena começou a mudar a partir dos anos 1980, quando a reforma psiquiátrica ganhou força.

Um dos cabeças do movimento antimanicomial, o psiquiatra italiano Franco Basaglia visitou a instituição em 1979. Logo em seguida, convocou coletiva de imprensa para dar a seguinte declaração: “Estive hoje num campo de concentração nazista. Em lugar nenhum do mundo presenciei tragédia como essa”. À afirmação, somou-se o documentário Em nome da razão, gravado dentro do Hospital Colônia por Helvécio Ratton, considerado o “golpe de misericórdia” de Barbacena. Reformulado, o local abriga hoje cerca de 160 pacientes.
 
 
Crédito: Geração Editorial/divulgação
Crédito: Geração Editorial/divulgação
LIVRO
Holocausto brasileiro, de Daniela Arbex
Editora: Geração
Formato: 15,6 x 23 cm
Páginas: 256
Preço: R$ 39,90
 
 
 
 
 


A CRUEL REALIDADE PSIQUIÁTRICA

Hospital Colônia de Barbacena. Crédito: Geração Editorial/divulgação
Hospital Colônia de Barbacena. Crédito: Geração Editorial/divulgação
Cerca de 12% da população do país (22 milhões de pessoas) precisa de algum atendimento em saúde mental, aponta o Ministério da Saúde. Em 2011, completou uma década desde que as normas brasileiras foram alteradas para propor um modelo de atenção a esses casos, aberto e de base comunitária. Nesses dez anos, 45 hospitais psiquiátricos fecharam, e o número de leitos especializados caiu de 50 mil para 30 mil. Estava prevista a progressiva extinção dos manicômios, mas a falta de preparo provocou desospitalização em massa, e a consequente carência de rede extra-hospitalar capaz de atender à demanda.

Bernardo Dantas/ DP/D.A Press.
Bernardo Dantas/ DP/D.A Press.
Decano da psiquiatria pernambucana, com mais de cinco décadas de atuação, o médico Othon Bastos aponta que o modelo vigente, baseado em Centros de Atenção Psicosocial (Caps), deveria e poderia ser melhor. Em entrevista ao Viver, falou sobre preconceito contra doentes mentais, a cultura do isolamento e as reformas psiquiátricas realizadas em âmbito global, nacional e local.

“A Tamarineira se chamava Hospital de Alienados. Era uma uma antecâmara da morte. Havia um niilismo terapêutico, que abria espaço para fome, promiscuidade e outras mazelas”, relata o psiquiatra. “Isso começou a mudar em 1918, com Ulysses Pernambucano, que fez reforma da assistência psiquiátrica no estado”.

ENTREVISTA OTHON BASTOS

Hospital Colônia de Barbacena. Crédito: Geração Editorial/divulgação
Hospital Colônia de Barbacena. Crédito: Geração Editorial/divulgação
Doentes mentais sempre foram vítimas de preconceito?

Sim. Trata-se de um fenômeno pancultural e pan-histórico, ou seja, os transtornos estão presentes em sociedades de todos os tempos. Historicamente, sempre houve discriminação. A própria bíblia se refere aos doentes mentais como “amaldiçoados”. No século 15, dois padres dominicanos escreveram o Malleus Maleficarum, ou, em português, Martelo das bruxas, espécie de manual da inquisição, que descrevia as doenças mentais e relacionava orientações para torturar e matar os doentes.

O isolamento também tem raízes históricas?
Se observarmos o episódio da Queda da Bastilha, na França, veremos que aquela era uma prisão habitada sobretudo por doentes mentais, tanto recolhidos nas ruas quanto entregues pelos parentes. A rejeição familiar é algo muito presente. Há pouca tolerância. Antes dos tratamentos atuais, manter um doente mental em casa em surto agudo era impossível. Hoje ainda é muito difícil. A instituição do asilo para doentes mentais surge com fins filantrópicos, criada por João de Deus (1495-1550), considerado santo.

Quando a psiquiatria como a conhecemos tomou forma?
O pensamento psiquiátrico surgiu com o médico francês Philippe Pinel (1745-1826), que destruiu os grilhões que acorrentavam os doentes e escreveu uma classificação das doenças mentais. Esse fenômeno se repetiu no mundo todo, e cada país teve o seu próprio Pinel. No Brasil, tivemos Juliano Moreira (1873-1933). Aqui, os casos de doença mental na família real portuguesa inspiraram desde cedo os cuidados psiquiátricos, a começar por D. Maria, a Louca. O primeiro hospital, o Asilo D. Pedro II, foi criado no Rio de Janeiro e internou figuras como Lima Barreto. Esses asilos sempre ficavam em áreas distantes dos centros urbanos, como era o caso da Tamarineira, no Recife.

Hospital Colônia de Barbacena. Crédito: Geração Editorial/divulgação
Hospital Colônia de Barbacena. Crédito: Geração Editorial/divulgação
Como era o atendimento psiquiátrico oferecido em Pernambuco no passado?

A Tamarineira se chamava Hospital de Alienados. Era uma uma antecâmara da morte. Havia um niilismo terapêutico, que abria espaço para fome, promiscuidade e outras mazelas. Isso começou a mudar com Ulysses Pernambucano de Mello Sobrinho (1892-1943), que fez reforma da assistência psiquiátrica. Era um homem além do seu tempo. Logo após se formar no Rio de Janeiro, em 1918, foi nomeado para ser médico alienista da Tamarineira.

No que consistiu a reforma?
Ulysses Pernambucano criou o Serviço de Assistência a Psicopatas, que incluia terapia ocupacional, uma ferramenta importante no tratamento. Como a maioria das doenças mentais são crônicas, parte desses doentes eram encaminhados para as duas colônias em Pernambuco, uma em Barreiros (masculina) e outra em Monjope (feminina). Eram o fim da linha para os doentes crônicos e sem família.

A realidade das colônias de Pernambuco eram muito diferentes da de Barbacena?
Barbacena foi o pior hospital colônia do Brasil. Era uma “Psicopatópolis”. Não podia ser comparado aos de Monjope e Barreiros, em Pernambuco. Lá faltavam médicos e recursos. Tinha superlotação, ócio, isolamento social e maus tratos. Os serviços particulares também não eram muito diferentes. Passavam pelos mesmos problemas, exceto a fome. Mas não chamaria o que aconteceu em Barbacena de holocausto. Se houve um holocausto brasileiro foi a Guerra do Paraguai.

Hospital Colônia de Barbacena. Crédito: Geração Editorial/divulgação
Hospital Colônia de Barbacena. Crédito: Geração Editorial/divulgação
Quando essa cultura de isolamento começou a mudar?

O modelo hospitalocêntrico, com atendimento em unidades psiquiátricas dentro dos hospitais, sempre foi o dominante, até que começou a ser combatido em todo o mundo. Houve até um movimento de revolta chamado antipsiquiatria. Essa luta foi por motivos reais, como os maus tratos recorrentes, e até teve um lado salutar, que foi o combate aos asilos, mas o lado negativo da antipsiquiatria era o fato de negar as doenças. As pessoas diziam que as doenças eram apenas de origem social ou política.

Qual foi o novo modelo proposto?
Houve um movimento nacional para reforma do modelo hospitalocêntrico, em favor do tratamento ambulatorial. Mas boa parte dos profissionais, inclusive eu, não apoiamos o fechamento de todos os hospitais psiquiátricos, pois não podemos dispensá-los. Muitos surtos precisam ser tratados. Caiu-se no modelo capicêntrico (voltado para os Caps - Centros de Atenção Psicossocial), que tem virtudes como as equipes multidisciplinares, com terapeutas ocupacionais, enfermeiros especializados e serviço social atuante.

Há também pontos negativos nesse novo modelo?
Algo que lamentei foi quando mudamos os pacientes para o Hospital das Clínicas, onde eles ficam enclausurados. Os doentes mentais precisam pisar no chão e ter sol aberto. Não se coloca enfermaria psiquiátrica em prédio sem pátio. Isso é relevante porque as doenças mentais são um dos maiores problemas de saúde do país. Os Caps deveriam e poderiam ser melhores.



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