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Literatura Elisa Lispector começa a sair do ostracismo Irmã mais velha de Clarice, que escreveu sobre a vida da família no Recife, tem a sua obra reavaliada por pesquisadores

Por: Fellipe Torres - Diario de Pernambuco

Publicado em: 19/02/2013 12:58 Atualizado em: 19/02/2016 15:56

A avó, a mãe (em pé, à direita), e tias de Elisa, Tania e Clarice Lispector.
Foto: Arquivo/Elisa Lispector.
A avó, a mãe (em pé, à direita), e tias de Elisa, Tania e Clarice Lispector. Foto: Arquivo/Elisa Lispector.

Quando emigrou da Ucrânia para o Brasil em 1920, com 9 anos de idade, Leia teve o nome alterado para Elisa. Aos 14 anos, veio morar no Recife, onde permaneceu por uma década. Mas somente aos 34 anos, já no Rio de Janeiro, a escritora começou a publicação de seus sete romances e três livros de contos. A biografia e a obra de Elisa até hoje são pouco estudadas e despertam interesse quase nulo por parte do público leitor. Situação considerada injusta por pesquisadores. A hipótese mais provável para o ostracismo é a força do sobrenome: Lispector.

Ter sido escritora e irmã de Clarice Lispector, um dos maiores expoentes da literatura brasileira, não foi fácil. Mas Elisa, bem ou mal, encontrou seu próprio caminho. No autobiográfico No exílio (1948) baseou-se na saga da família ucraniana, incluindo os dez anos de convivência com o Recife. “Elisa descreve a rotina na cidade pernambucana, com registro de lugares, comidas, escolas, festas, situações… A perspectiva é a de uma adolescente judia, imigrante, que circula pelo bairro da Boa Vista, frequenta o clube israelita com o pai, vai à escola”, diz a pesquisadora da USP Nádia Gotlib.

A história da família Lispector tornou-se ainda mais acessível 63 anos depois da publicação de No exílio, quando Gotlib retomou o assunto com a organização de Retratos antigos (Editora UFMG, 143 páginas, R$ 85). O livro traz relatos inéditos de Elisa Lispector, várias fotos em preto e branco, além de declarações sobre o quanto a autora sofria com os “encargos pesados que a vida lhe reservara: cuidar da casa, das duas irmãs menores e da mãe, que padecia de paralisia e mal de Parkinson”.

Um dos motivos para o esquecimento de Elisa por parte do público e dos acadêmicos é a escassez de novas edições. Além de Retratos antigos (2012), apenas No exílio (José Olympio, 208 páginas, R$ 32) pode ser encontrado nas livrarias. Nas décadas de 1970 e 1980, tiveram segunda edição O muro de pedras (1976), O dia mais longo de Thereza (1978) e Além da fronteira (1988), mas três romances e três livros de contos permanecem na primeira edição. “Poucos volumes ainda são encontrados em sebos, mas os preços estão subindo. Elisa escreveu textos que merecem ser lidos por um público mais amplo”, alerta Nádia Gotlib.

Trechos

"Todas as manhãs Marim vem sentar-se à varanda do velho sobrado da rua da Imperatriz, vestido de linho engomado, os cabelos negros e lisos penteados, os braços inúteis cruzados sobre o busto. Depois que toma tento do que vai lá embaixo, reparando numa ou noutra pessoa que passa, inclina a cabeça de lado, os olhos como contas azuis ligeiramente amortecidos, e fica olhando com ar distante, entristecido."
(Fonte: Trecho do livro No exílio, 1948)

"É difícil definir bem a própria irmã. Sempre fomos muito unidas, Clarice, Tânia e eu. Lembro-me que, na infância, Clarice demonstrou logo ser independente, imaginativa e cheia de ternura. Tivemos todas uma vida muito agradável e feliz no Recife, e temos muitas saudades daqueles tempos. Embora casadas, e muitas vezes morando muito longe, estávamos sempre em contato umas com as outras, seja por carta, ou telefone. O que mais impressiona em Clarice não é fato de ser irmã, e ótima como sempre foi, mas como tornou-se mãe maravilhosa."
(Depoimento de 1963. Fonte: Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa)

 

Nádia Gotlib voltou a falar em Elisa Lispector com a organização de Retratos antigos. A pesquisadora concedeu a entrevista a seguir:


Na obra de Elisa Lispector existem referências ao período em que morou no Recife? O que dizem?
Quando a família Lispector chegou da Rússia (Ucrânia), em 1920, foi morar em Maceió, e após cinco anos mudou-se para Recife. Elisa tinha, então, 13 anos; Tânia, a irmã do meio, 9; e Clarice, 4. Permaneceram na cidade por dez anos até partirem para o Rio de Janeiro, em 1935. No romance autobiográfico No exílio (1948), Elisa narra a mudança da família da Ucrânia para Maceió, e posteriormente para Recife. Ela descreve a rotina da vida na capital pernambucana, com registro de lugares, comidas, escolas, festas, situações… É um passeio por Recife a partir do olhar da moça adolescente imigrante judia que circula pelo bairro da Boa Vista, que frequenta o clube israelita com o pai, que vai à escola, mas que, sobretudo, sofre com os encargos pesados que a vida lhe reservara: cuidar da casa, das duas irmãs menores e da mãe, que padecia de hemiplegia (paralisia de metade do corpo) e de mal de Parkinson.

Imagino que a publicação de Retratos antigos tenha colaborado tanto para o resgate da história de Elisa quanto para a de Clarice e da família como um todo.
Sim. E muito! Considero esse livro uma espécie de complementação do romance autobiográfico No exílio, mas com uma grande diferença: nele, os fatos de família são apresentados de modo mais direto. A autora é a narradora que assume ser Elisa. O interessante é que ela conta essa história dos antepassados justamente motivada pelo ato de ver fotos desses antepassados em um álbum antigo de família, que posteriormente encontrei no arquivo dos herdeiros e pude reproduzir cópias lindíssimas no livro.

Que lembranças mais marcantes a autora registra em relação aos antepassados?
Nos dez capítulos de Retratos antigos ela conta a história dos ancestrais de modo comovente, assumindo uma primeira pessoa que revê, com respeito e admiração, os avós paternos e maternos, os pais, além de outros parentes. Ao se reportar a pais e avós, a autora conta como viviam nas décadas de 1910 e 1920, na Ucrânia. Detém-se nos tempos de fartura e nos de sofrimento, tendo em vista as lutas políticas das quais o país foi alvo por ocasião da Primeira Guerra Mundial e como consequência da Revolução de 1917, período em que os judeus sofreram violentas perseguições.

Você comentou que Clarice era contra a publicação dos relatos autobiográficos de Elisa. Em sua avaliação, a reação era no sentido de preservar o próprio passado? Ou será que Clarice de fato não gostava da produção literária da irmã?
Essa afirmação me foi passada pela irmã do meio, Tânia. Mas como saber das intenções de Clarice? Há que considerar uma razão mais provável: ela não se volta ao passado remoto, tal como Elisa. Ou porque saiu de lá (da Ucrânia) recém-nascida, ou porque não gostava mesmo de se lembrar de fatos tristes que, possivelmente, lhe eram passados pelos familiares. Além disso, há que considerar um depoimento de sua concunhada, Eliane Gurgel Valente, que afirma que ela e Clarice, ambas judias, não ligavam muito para a ascendência, tampouco cultivavam a religião judaica ou tinham a consciência dessa cultura como um motivo de preocupação. São essas algumas das razões possíveis.

O pesquisador Jeferson Masson (USP), prestes a iniciar pesquisa de mestrado sobre a obra de Elisa, ressaltou a diferença entre as irmãs.
Concordo com o fato de que há diferenças. A literatura de Elisa tem muitas peculiaridades dignas de nota. Para me ater a um só aspecto, menciono um dos temas caros à Elisa: a mesmice de vida do funcionário público, mergulhado em processos. Talvez esse tipo de personagem tenha sido criado a partir da sua própria experiência, já que ela atuou no Ministério do Trabalho durante muitos anos e teve, pois, contato direto com esse contexto de vida pública.

Elisa sentia-se ofuscada pelo talento da irmã?

Difícil saber. Uma das qualidades de Elisa era o da generosidade. Várias pessoas que me prestaram depoimento insistem em reforçar o fato de que este era um dos fortes traços de sua personalidade. Mas o talento e o sucesso de Clarice aconteceram paralelamente às atividades de Elisa, que, apesar de receber três prêmios por livros seus, desenvolveu uma carreira de escritora mais retraída. 



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