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NOSTALGIA » Há 40 anos morria o cantor Evaldo Braga, "o ídolo negro Criador de 'Sorria', o artista foi considerado o responsável pela introdução da black music no cenário do brega

Mariana Peixoto - Estado de Minas

Publicação: 31/01/2013 19:09 Atualização: 31/01/2013 20:16

O cantor Evaldo Braga em uma de suas participações no programa do Chacrinha: carreira meteórica e apenas dois discos gravados. Crédito: O Cruzeiro/Arquivo
O cantor Evaldo Braga em uma de suas participações no programa do Chacrinha: carreira meteórica e apenas dois discos gravados. Crédito: O Cruzeiro/Arquivo

Os pouco mais de 400 quilômetros que dividem Santa Rita do Sapucaí, Sudoeste do estado, de Belo Horizonte, foram vencidos com certa dificuldade pelo TL azul. O motorista Arley, mais conhecido como Calça Branca, que mal havia dormido na noite anterior, deu umas cochiladas. Mulher e bebida, lembra César de Aguiar, um de seus companheiros na viagem. Aqui chegando, o grupo logo rumou para o Bairro JK, em Contagem. Foi ali que Evaldo Braga fez o derradeiro show de sua meteórica carreira. Saindo do local, o mesmo grupo – incluindo Paulo César, empresário do cantor – foi jantar num restaurante da Rua Goiás, no Centro. Mais tarde, rumaram para a casa de Aguiar. Evaldo tomou uísque; Calça Branca, cerveja.

“Na viagem de Santa Rita, Evaldo havia comprado na estrada um chapelão tipo mexicano. Disse que no 'Programa do Chacrinha', do qual ia participar no dia seguinte, ia usar o chapéu e um terno branco novinho. Também iria levar a revista 'Só Sucessos', que eu tinha feito com ele na capa, ‘para mostrar para todo o Brasil’. Falei para ele para viajar no dia seguinte, pois o motorista não tinha dormido. Estava com dinheiro, poderia pegar um avião”, continua César de Aguiar. De acordo com ele, não houve quem convencesse Evaldo do contrário. Paulo César pegou inclusive emprestado um travesseiro para dormir no banco de trás do TL. Tarde na noite, o trio deixou a casa de Aguiar. No dia seguinte, o empresário e cantor foi acordado com a notícia que não saía das rádios de todo o país. “O ídolo negro” havia morrido em acidente em Alberto Torres, próximo a Três Rios, depois de colisão com uma carreta. Ninguém sobreviveu ao acidente.

Quarenta anos depois da morte de Evaldo Braga, em 31 de janeiro de 1973, o que se fala sobre o autor de canções como 'Sorria, sorria', 'Eu não sou lixo', 'A cruz que carrego' e 'Tudo fizeram pra me derrotar' não é muito diferente do que se falava na época. É basicamente por meio da história oral que o legado dele, morto aos 27 anos, sobrevive. César de Aguiar, que descreveu os dois últimos dias da vida do cantor, era na época o empresário que o trazia para shows em BH e interior de Minas. Autor do documento mais importante sobre a música brega dos anos 1970, o livro 'Eu não sou cachorro, não', o pesquisador e jornalista Paulo César de Araújo ratifica tal opinião.

Ele admite ter tido bastante dificuldade para traçar a trajetória de Evaldo na época da pesquisa do livro, lançado há 10 anos. “Tive que ir catando informações aqui e ali, pois não havia nada publicado. Ouvi ainda compositores contemporâneos, como Odair José e Osmar Navarro (esse último acompanhou o começo da carreira de Evaldo Braga), pois não tive acesso a familiares dele.” Em vida, Evaldo Braga lançou apenas dois álbuns, 'O ídolo negro' (volumes 1 e 2, de 1971 e 1972, respectivamente). Em 2011, a Som Livre, em parceria com a Universal, resgatou boa parte dos dois discos na coletânea 'Sempre'.

Lata de lixo

Uma das notas mais controversas da biografia do cantor diz respeito a seu nascimento. Diz a lenda que ele, nascido na cidade fluminense de Campos (que não guarda absolutamente nada de sua passagem por lá), havia sido abandonado numa lata de lixo (o sucesso da música Eu não sou lixo teria reforçado essa ideia). Já no documentário em curta-metragem 'Evaldo Braga – O ídolo negro' (1997, disponível no YouTube), há um depoimento de Antônio C. Braga, que se apresenta como irmão de Evaldo, contradizendo essa informação. O artista seria filho de Antônio Braga com uma amante. Como a mulher dele não o aceitava, o pai teria entregue o garoto a uma senhora.

Um dos quatro diretores do documentário, realizado como projeto de conclusão do curso de rádio e TV da UFMG, Armando Mendz comenta que um dos interesses que a trajetória de Evaldo suscitou para o então grupo de estudantes de comunicação social foi o caráter investigativo do curta. “As coisas sobre ele não estavam na superfície. À medida que fomos pesquisando, o projeto se tornou mais interessante. E as pessoas que foram próximas a ele não ‘resolvem’ a figura. Fomos atrás de vários caminhos.”

O curta, lançado na primeira edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, sofreu forte influência do clássico 'O bandido da luz vermelha', de Rogério Sganzerla (1968), sugestão do orientador do projeto, o professor Delfim Afonso. “Tecnicamente é primitivo. Foi feito em VHS, a gente não sabia operar microfones na época. Mas até hoje é um dos trabalhos que fiz que as pessoas mais procuram”, continua Mendz. Na época, para conseguir recursos para finalizar o vídeo, alunos da UFMG (vindos do grupo The Jingles) criaram até uma banda, It’s Only Evaldo Braga, que fez duas festas em BH.

O cantor foi enterrado no Cemitério São João Batista, no Rio. Seu túmulo é ainda hoje um dos campeões de visitas no Dia de Finados. “Tenho até uma gravação do enterro com as pessoas cantando”, continua Paulo César de Araújo. Para ele, Evaldo Braga tem uma importância maior dentro do universo da música brega. “Ele foi um ídolo pop negro. Surgiu no momento de afirmação do “Black is beautiful”. Sua música é de balada pulsante com metal. Embora ele não cite explicitamente a questão negra, se tornou o principal expoente da música black no brega.”

 

Dadá Maravilha, jogador de futebol que conviveu com Evaldo Braga no final dos anos 1950, quando ambos foram internos no SAM . Crédito: Alexandre/EM/D.A. Press
Dadá Maravilha, jogador de futebol que conviveu com Evaldo Braga no final dos anos 1950, quando ambos foram internos no SAM . Crédito: Alexandre/EM/D.A. Press

 

“Nós vencemos”

Dadá Maravilha

“Na realidade não éramos amigos, mas inimigos, pois um tinha inveja do outro. Ele cantava e todo mundo aplaudia. Eu falava que a voz dele era de pato rouco com gripe. E ele me perguntava: ‘O que você vai ser?’ Dizia que ia tentar ser jogador de futebol. E ele me dizia que eu era uma porcaria. Quando saímos do SAM (Serviço de Assistência ao Menor, no Rio de Janeiro, antiga Febem), o sucesso dele cantando veio antes do meu jogando. Quando o via no Chacrinha, xingava o cara. Depois que fiquei famoso e virei o Dadá Maravilha, fui ao colégio em que a gente tinha estudado para tirar um documento. Quando cheguei lá, me falaram que o Evaldo tinha ido também e que queria conversar comigo. Fui atrás dele antes de um show, conversamos, ele disse que nós tínhamos vencido. Pouco depois morreu. Fui ao enterro em Botafogo e fiquei no meu canto, lembrando e pensando quantos anos ficamos sem nos ver.”

“Sou apaixonado mesmo”

“Conheci o Evaldo Braga em 1985, quando escutei um disco inteiro na casa do Marcelo, que era da banda The Jingles. Pirei com o disco, peguei meio roubado e gravei em fita. Hoje tenho todas as músicas dele, inclusive em espanhol. Criei o cantor Torino Braga, que participou do It’s Only Evaldo Braga e até hoje se apresenta em festas. Sei todas as músicas dele de cor e salteado, sou apaixonado mesmo. É até difícil falar de qual gosto mais. Hoje, por exemplo, é Não vou chorar. Mas também tem Meu Deus e A vida passando por mim.”

Alessandro Torino
Cantor que assume a persona de Torino Braga quando dubla o cantor (na foto, de 1997, ele é o quarto integrante da banda It’s Only Evaldo Braga, a partir da esquerda)

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