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Moonspell » Entrevista >> Fernando Ribeiro, um roqueiro mergulhado na literatura

Publicação: 10/12/2012 00:01 Atualização: 10/12/2012 10:53

Fernando Ribeiro é vocalista da banda portuguesa de heavy metal Moonspell. Foto: Paulo Moreira/Naked Fotografia
Fernando Ribeiro é vocalista da banda portuguesa de heavy metal Moonspell. Foto: Paulo Moreira/Naked Fotografia

Fernando Ribeiro é vocalista da banda portuguesa de heavy metal Moonspell. Transita com facilidade pela literatura, onde fermenta a inspiração, sem abandonar o estilo roqueiro tão peculiar. Ele chegou a cursar filosofia, mas deixou os estudos à margem para tocar a vida musical. Confira entrevista exclusiva concedida ao repórter Emanuel Leite Jr.

 

- Fernando, o que te levou a optar pelo curso de Filosofia e por que não chegou a conclui-lo?

Fernando Ribeiro: Foi pura vocação. Sempre tive inclinação para Humanas e Ciências Sociais. Interessava-me mais o modo como trabalha o Homem do que o Mundo e, sobretudo, como nós influenciamos a natureza e a criação de tudo quanto existe, desde as cidades aos livros. Pensar esse homem era uma necessidade para mim e na Filosofia obteria as ferramentas para tal, dando-me um enquadramento melhor. Houve uma altura, por volta de 1998, que tive que fazer uma opção. Por causa das tours que faço com Moonspell desde 1995 (entrei no curso no ano letivo de 1992/1993), a minha assiduidade não era boa. Estava muitas vezes ausente no exterior a tocar. O curso de Filosofia exigia uma presença mais constante e era frustrante, para mim, deixar quase tudo a meio. Por outro lado, pensei que o que estava a acontecer com a banda era uma experiência rara e imperdível para um grupo português e sabia que tinha de agarrar esta oportunidade ou deixar para me arrepender depois. A faculdade tinha também uma aproximação demasiadamente acadêmica à Filosofia para o meu gosto. Eu esperava um ambiente em plena ebulição de ideias e debate, mas a realidade era bem menos interessante, passada em filas para fotocopiar textos de comentadores. O rock’n’roll, as viagens, a comunicação artística com o público venceria e aqui estou eu, respondendo a entrevistas.

- Você é autor de três livros de poesias e um de contos, além de ter traduzido para a língua portuguesa o livro Eu Sou a Lenda (de Richard Matheson) e colaborado na edição e tradução dos dois primeiros volumes da obra integral do autor de ficção de terror, H.P. Lovecraft. Como se deu a tua aproximação com a literatura? De onde vem a tua paixão pelos livros?

FR: Desde sempre. Quando eu era criança, entretinha-me muito a ler livros de aventura em especial (Julio Verne, Defoe) e fui cultivando o gosto pela leitura que desembocou num desejo de produzir os meus próprios textos. Quando comecei a ouvir metal, encontrei uma ligação muito forte entre estes mundos. Os melhores exemplos foram, para mim, Iron Maiden com a Rima do Antigo Marinheiro, de Coleridge, Celtic Frost com Baiudelaire, Tristezas da Lua. Com Moonspell persigo esse ideal e influência em todos os momentos possíveis e vou ainda fazendo algum trabalho paralelo.

- O Moonspell sempre foi uma banda bastante associada à literatura, especialmente à literatura portuguesa. Podemos citar músicas como Alma Mater (do primeiro álbum, Wolfheart), Opium (do Irreligious, em que se trabalha Fernando Pessoa) ou Than the Serpent in My Hands (do Darkness and Hope, com citação de Mário Cesariny), e também o álbum The Antidote, que foi um projeto interessante, cuja edição especial teve o lançamento em conjunto com o livro Antídoto, de José Luis Peixoto. É possível dizer que o Moonspell e a literatura são duas formas de expressão artísticas que se completam?

FR: Posso apenas dizer que a palavra me fascina e sempre preferi bandas que privilegiavam o seu uso para alimentar sua mensagem e seu som. Acredito nesse complemento e acho uma mais valia para as bandas e para os fãs.

- Quais são as tuas principais influências literárias e teu autores prediletos?

FR: São inúmeros, desde o mencionado José Luis Peixoto à Ágota Kristóf. Mas penso que diretamente para as letras de Moonspell mencionaria Justo Jorge Padrón, Baudelaire e Pessoa na poesia e autores como Goethe, Steppenwolf, Oscar Wilde e Burroughs na ficção.

- Antes de passarmos para a música, gostaria apenas de saber a tua opinião sobre cinco autores portugueses.

FR: Gil Vicente - o fundador do teatro em Portugal e quem sabe na Europa. Era um critico do sistema e dos costumes e agitou a mentalidade da altura, intervindo pela arte. Admiro muito este autor, ensinado em todas as escolas do país.  Camões - o nosso poeta nacional equivalente a Dante. O nosso Cervantes. Escreveu dos melhores livros sobre Portugal e os Portugueses, aquele que nos identifica como povo com as suas glórias e seus defeitos profundos.
Eça de Queiroz - o meu autor preferido do qual já li praticamente a obra completa várias vezes. É também o exemplo que a cultura Portuguesa não junta poder de afirmação à sua qualidade, no plano internacional. Para mim o Eça devia ter a importância de um Vitor Hugo ou Balzac, por exemplo. O meu livro preferido é A Cidade e as Serras um romance lindíssimo sobre as redundâncias da civilização e a beleza da simplicidade do campo.
Fernando Pessoa - outro grande vulto que merece felizmente a distinção mundial que tem. Pessoa representa perfeitamente um Portugal feito de sombras verdadeiras, uma Lisboa de mentalidade sufocante e claustrofóbica, um homem do seu tempo que nos entrou na alma e a escreveu.
José Saramago - o único autor que conheci em vida e uma pessoa admirável e profundamente honesta. Autor de histórias e conceitos inacreditáveis, ele é o nosso escritor maior em termos de contemporaneidade. Tive a honra de tocar na sua presença e de lhe apertar a mão.

 

- Em 2012 o Moonspell completa 20 anos de existência. E os fãs foram presenteados com um lançamento duplo, em que a banda se divide em duas partes. Alpha Noir evidencia o lado mais negro e pesado, enquanto Omega White nos mostra a face mais atmosférica, melódica e introspectiva da banda. Como surgiu o conceito de dividir em dois álbuns as principais características musicais da banda?

FR: Penso que a música que foi surgindo no período de composição nos indicou esse caminho, o que é sempre mais agradável que pensar muito aturadamente num plano. Quisemos principalmente trabalhar cada metade na sua própria atmosfera e ver como cresciam as canções sem a preocupação de um alinhamento equilibrado num só disco. A ideia era ter uma experiência musical que expandisse do Alpha para o Omega. Alguns fãs gostaram deste desafio, outros preferem a fórmula antiga. Mas, globalmente, as canções foram bem aceitas e o trabalho investido na composição obteve excelentes frutos. Para nós é uma representação bem interessante da banda e obteve aquela homogeneidade que procurávamos, mas também nos permitiu expandir nosso som.

- Em janeiro de 1998 o Moonspell lançou o álbum Sin/Pecado. Neste álbum, há uma música em que criticas a União Europeia. Falo da canção Eurotica. Vemos, atualmente, a chamada Zona Euro passar por uma crise enorme e Portugal está entre os países mais prejudicados. Fazendo uma ligação de quase 15 anos, entre a Eurotica e o Alpha Noir, qual é a tua análise a esta crise europeia e qual é este “novo mundo, nosso código” que o Moonspell propõe em Alpha Noir?

FR: Eu não acredito numa União Europeia. É apenas uma comodidade, nada mais. Os países são diversos, por vezes, antagônicos e há sempre quem se julgue mais europeu que o vizinho. Sendo de um país da Europa periférica, somos muitas vezes condenados pela nossa diferença, assim como a Espanha ou a Grécia ou até mesmo
Itália, principalmente por parte da Alemanha, que quer e vai mandar nesta farsa federalista. Acredito no continente Europa, mas que cada país tenha verdadeira autonomia e não obedeça a tecnocracias inventadas pela Comissão Europeia ou Parlamento Europeu, duas piadas inúteis que nada produzem para os países que a integram e até agudizam as divisões. É ótimo termos uma moeda comum, dá jeito para viajar, mas Portugal nunca esteve tão pobre. O meu desconforto continua, gosto da ideia cultural da Europa, mas a ideia política é uma mentira!!! A crise Europeia nasce de uma necessidade estúpida de competirmos com os Estados Unidos e com o dólar. Depois foi uma bola de neve e carta branca para os lobbies explorarem o povo europeu. Tudo isto foi feito por interesses políticos e econômicos, nada mais. Não houve nenhum grande desastre natural no continente, nem guerra, mas mesmo assim vivemos um tempo de profunda austeridade. O nosso disco rejeita esse mundo e clama por uma nova ordem em que as decisões sejam feitas tendo em conta a fator humano, pois é esse o nosso código!


- O álbum Alpha Noir traz uma canção em português, Em Nome do Medo. Somos reflexos de nossos medos e temores? O medo é a manifestação de nossos instintos de sobrevivência?

FR: Por causa da crise as pessoas temem quase todo o tipo de ação. Pequenas e grandes decisões são avalizadas pelo medo, em nome deste. Sendo um sentimento que nos torna alertas e nos permite a sobrevivência, o medo é muito utilizado para justificar ações e comportamentos contrários ao bem estar social. Eu falo desse medo manipulador que Igreja e Política utilizam para nos oprimir, mas falo ainda nessa canção da necessidade imperiosa de ouvirmos o sangue interior e agir, expandir nossa luz e conquistarmos o nosso território.

- No começo da carreira, o Moonspell praticava um Black Metal, mas já com elementos de música portuguesa. Posteriormente e principalmente com o lançamento do Irreligious a banda passou a ser considerada uma das precursoras do chamado Gothic Metal. Com o tempo, diversos rótulos foram dados para tentar definir a sonoridade do Moonspell, dentre eles o que denominam Dark Metal. Em tua opinião, se tivesses que rotular a sonoridade do Moonspell, qual rótulo escolherias? E por quê?

FR: Dark Metal é o meu preferido, já que é isso que fazemos na verdade, misturar uma matriz metal com outras influências como o darkwave, Gótico ou Black/Death Metal. Não me importaria também de ser considerado como Metal Gótico, mas penso que a cena evoluiu num sentido diferente, mais baseado em vocal feminino e orquestrações mais suaves, enquanto que o nosso som continua bem brutal. É sempre complicado rotular Moonspell, mas não considero isso mau, é sinal que o nosso som ainda suscita dúvida e inquietação e isso é bom.

- O Moonspell vai se apresentar no Brasil nos dias 15 e 16 de dezembro, em Estância Velha-RS e São Paulo-SP. Quais são as tuas bandas brasileiras preferidas?

FR: Adoro e coleciono Death Metal Brasileiro, principalmente da Cogumelo Records. No topo da lista está Sepultura, que merece toda a minha admiração e que todos esperam um regresso em grande dos irmãos Cavalera, para que essa banda tenha o que mereça, que é um lugar no topo do Metal Mundial! Admiro sua perseverança, mas todos sabem o que eles ainda podem alcançar. Depois, Sarcófago, para mim a melhor banda de Death de sempre do território Sul-americano. Tenho muita coisa em vinil, incluindo a Warfare Noise onde os descobri há muitos anos. Genocídio, Mystifier, Chakal, The Mist (que é uma das minhas bandas preferidas), Mutilator, enfim o meu encanto é profundo por este som brutal e muito característico. Das bandas mais recentes, destacaria Ravenland, do meu irmão Dewidson, e Claustrofobia.

- E quais são as tuas expectativas para o retorno ao Brasil, passados três anos?

FR: As nossas expectativas são as melhores porque temos crescido como banda junto ao público brasileiro de Metal. Não tocamos muito ainda no Brasil, mas encontramos muitos fãs nos festivais na Europa e até em Lisboa onde já muitos viajaram para nos ver. Sinto que Moonspell cresce no coração do público do Brasil, e o último concerto em São Paulo foi magnífico. Agora, no regresso a São Paulo e na estreia no Rio Grande do Sul (Estância Velha), sinto que é tempo de reforçar para sempre esta união.

Veja trechos de letras e poesias de Fernando Ribeiro :


LETRAS:

“Uma vez eu lhe pedi que voasse
Hoje à noite eu refaço o voto:
Não falhe no seu amor por mim como eu falhei ao tentar morrer
Com você...” (de A Poisoned Gift)

“Somos memórias de lobos que rasgam a pele
Lobos que foram homens e o tornarão a ser
ou talvez memórias de homens.
que insistem em não rasgar a pele
Homens que procuram ser lobos
mas que jamais o tornarão a ser...” (de Full Moon Madness)

“Eu quero saber qual é a sensação
De proceder sem compartilhar
Sua fantasia de diabo está quebrando
Seu rosto é agora tão cru
Consciência cega, surda e muda
Esse é o único jeito de estar perto de você
Esse é o único jeito de me mostrar pra você” (de Mute)

“Amanhã, eu vou acordar
Com um apetite inato
(de ser um dos seus)
Para ser simplesmente um dos seus
(...)
Amanhã eu finalmente sentirei
Uma vontade natural
De ser artificial” (de DeKadance)

“Vida eterna passa tão lenta
enquanto você faz seu show de lamentação
Beijos eternos são frios
Por que você acha que eles são bonitos?
Deixe as velas queimarem
E as estacas atravessarem a alma” (de Rapaces)

“À primeira luz da manhã
A mão da morte cobre os céus,
Tudo tomado
(e) Todos os medos inspirados

Como você chegou ao meu interior?” (de Everything Invaded)

“Negro alfabeto do chão te levanta
Tua confiança jamais se aquebranta
Comemos os frutos de tão triste jardim
Faltou-nos o tempo, chegamos ao fim
Em nome do medo” (de Em Nome do Medo)

POESIAS: (do livro As Feridas Essenciais)

“Perguntaram-me uma vez como se a pergunta fosse um punhal aguçado
Beijando ao de leve a minha palpitante veia,
Perguntaram-me uma vez para trocar a escuridão em palavras.

Eu enchi uma folha com o teu nome, a única coisa luminosa de que me consigo lembrar” (de Coisa Pouca)

“O pânico é seco nos teus lábios.
Por muito que tente não consigo te encontrar
para te dizer adeus.

E assim, nunca me poderás chamar teu” (de O que oferecer a uma pessoa que já tem tudo?)

“Tento distrair-te para me distrair.
Tento que os espíritos desçam em garras sobre a tua cabeça.
Tento que a vida seja mais do que a existência do ar entre nós,
Para dentro, para fora,
Para dentro, para fora.

Tento, tento tudo
Para deixar passar o dia” (Deixar passar o dia)

“Uma nuvem morre em teus lábios,
Eu fecho as janelas da minha alma.

Um mar afoga-se nos teus lábios,
Não tenho outras janelas para fechar.

Tudo está contido.
Fechem-se as portas
Porque os segredos verdadeiros não são para ser vistos” (de Sigilo)

“Não, não tenho método,
Vou transplantar para aqui
Tudo quanto me venha à alma.

Não, não interessa
Se é demônio ou anjo,
A seca ou os teus lábios,
Todos têm o seu espaço.

Não, não tenho medo.
O abismo em cada passo.

Não, não sei o que faço.” (O abismo em cada passo)

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